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Junior lança álbum e diz que superou bullying, pânico e ‘sexualização infantil’ de dupla com Sandy

Cantor e compositor lança ‘Solo’, álbum com pegada pop e músicas bastante confessionais, com participação da irmã, Sandy, e do pai, Xororó

Foto do author Danilo Casaletti
Por Danilo Casaletti
Atualização:

Muita gente pode estranhar essa afirmação. Mas o fato é que só agora que Junior (ex-Lima), 39 anos, 35 de carreira, lança seu primeiro trabalho solo. O álbum Solo - Volume 1 traz 10 músicas inéditas, incluindo duas parcerias com o pai, Xororó, e a participação da irmã, Sandy, no vocal de uma das faixas.

O cantor Junior: 'eu sou pop' Foto: Alex Silva/ Estadão

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A demora em se lançar como cantor solo tem a ver com alguns projetos que Junior abraçou quando encerrou a dupla com a irmã, em 2007. Entre eles, a banda de rock Nove Mil Anjos em 2008, o grupo de música eletrônica Dexterz, entre 2009 a 2014, e o duo Manimal, em 2016.

Mas Junior também passou por questões pessoais. Crises de pânicos, fruto de inseguranças que ele arrastava desde os tempos da dupla com Sandy, o fizeram percorrer um grande caminho até se sentir seguro para se expor novamente como cantor e, sobretudo, como artista pop, gênero ao qual ele diz pertencer.

“Me entendi como artista pop. Mas ele te leva a muitos lugares, tem muitas caras. Precisava desenvolver o meu”, diz Junior ao Estadão. Ele, porém, tem consciência de que o passado é seu concorrente, como ele mesmo diz. Ele foi um astro. Agora, busca se reabilitar na música, em outro espaço.

Solo - Volume 1 tem músicas bastante confessionais. Muitas são parcerias com nomes que assinam composições para nomes como Anitta, Iza, Luísa Sonza e Pabllo Vittar, ícones pop do momento - nomes como Lucs Romero, Felipe Vassão, Lucas Vaz e Dudinha. Nasceram do que agora os compositores chamam de ‘camping’, quando passam um período juntos com o objetivo de fazer canções.

Junior, que buscou referências nas décadas de 1970, 1980 e 1990, na soul music e no indie, encontrou novamente o prazer na música. “Ela é curativa. Me tira do parafuso, das sombras e me traz para o mundo real”, diz.

A grande pergunta é: por que tanto tempo para fazer um disco solo?

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Também não sei. Foi um tempo natural de amadurecimento, para entender o meu lugar, a minha liberdade. Foi um processo, desde o fim da dupla com a minha irmã. Para mim, era inconcebível fazer um disco cantando naquela época.

Por quê?

Eu tinha as minhas dores com críticas que foram duras comigo em algumas fases da vida nas quais eu ainda era um moleque tentando lidar com a minha insegurança, sabe? Com o tempo, fui entendendo isso. Mas, acho que eu naturalmente me esquivava de qualquer coisa que me colocasse no lugar próximo ao que eu tinha vivido até então. Fui buscar outras formas de me conectar com a música. Foi quando recebi o convite absolutamente irrecusável de Champignon (baixista do Charlie Brown Jr., na banda Nove Mil Anjos) sobretudo por ser um processo de criação totalmente diferente. Finalmente pude viver uma uma relação intensa com a bateria, com o rock’n’roll, que sempre foi um gênero que eu também gostei muito.

Tive pânico. Mergulhei na terapia para entender o que estava passando. Fiquei com uma relação de prazer e dor com o meu trabalho

Tive outros projetos, casei, tive filhos. Estava atrás de vida. Comecei a trabalhar muito cedo Eu trabalhava muito, muito, muito, muito...Não cabia nada. Abri espaços mesmo. E, junto com isso, vieram questões psicológicas. Coisas que eu anestesiava e não lidava. Eu já tinha percebido que minha vida tinha sido muito perfeitinha e que eu não tinha estofo suficiente para para tratar de alguns assuntos. De fato, eu não tinha vivência para tratar de alguns assuntos. Porém, na verdade, minha vida não tinha sido nada perfeitinha. Eu tinha tomado um monte de porrada que não que eu não tinha assimilado ainda. Tive uma fase densa entre 2012 e 2013. Tive pânico. Mergulhei na terapia para entender o que estava passando. Fiquei com uma relação de prazer e dor com o meu trabalho.

Quando a dupla terminou, a cobrança e as expectativas caíram muito sobre você e menos na Sandy?

Acho que foi igual. Era inevitável depois de algo tão forte e intenso quanto Sandy & Junior. Era impossível não haver expectativas. Seu maior trunfo vira seu maior problema. O meu passado é meu maior concorrente, apesar de atualmente não sentir tanto isso. Para mim, essa nova fase é um recomeço. Mas longe se ser do zero. Às vezes, me sinto com vantagem. Em outras, em desvantagem.

E foi no reencontro com sua irmã que você se redescobriu como artista?

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Já tinha recebido a proposta da turnê várias vezes. E ela sempre me batia torto. Achei que fosse atrapalhar. No fundo, era eu que não queria encarar isso. No final de 2018, quando meu pai veio com a ideia novamente, percebi que meu coração estava de acordo. Conversei com a minha esposa (a modelo e artista plástica Monica Benini) e ela achou interessante, me incentivou. A turnê me trouxe a possibilidade de fazer as pazes com o que me feria. Percebi que estava ‘viajando’.

É importante você falar isso de maneira tão aberta...

Quando você aprende a lidar com isso, entender que isso faz parte da vida, tudo fica mais fácil. A minha síndrome de Superman passou faz tempo. A primeira vez que tive crise de pânico, foi a partir da consciência de que não não tinha essa vida de super-herói, que eu estava sujeito a passar por tudo. Isso, hoje em dia, faz parte da minha escrita, do que tenho a oferecer para as pessoas. A música é curativa. Ela me tira do parafuso. Me tira das sombras e me traz para o mundo real.

Você precisa se entender, fazer um mergulho em você, antes de colocar qualquer coisa no mundo. Eu precisei desse processo

Esse processo de superação que você passou, além de ser inspirador para as pessoas no geral, também é importante para outros artistas que possam enfrentar o mesmo tipo de questionamentos e dúvidas que te atingiram. Por exemplo, você foi próximo do Champignon (baixista do Charlie Brown Jr que cometeu suicídio em 2013)...

Eu lembro do Champ com muita frequência. Ele era um moleque muito gente boa, muito coração. Havia uma máscara e uma banca que ele botava, mas ele era muito ponta firme mesmo. Eu gostava muito dele. Nesse meio, tudo é muito intenso. E ter a cabeça no lugar é fundamental. É preciso muita estrutura familiar e ajuda profissional. Você precisa se entender, fazer um mergulho em você, antes de colocar qualquer coisa no mundo. Eu precisei desse processo para só depois me revelar para o mundo.

Junior durante entrevista ao Estadão Foto: Alex Silva/ Estadão

As músicas do seu novo álbum falam muito sobre você. E é essencialmente pop. O que você queria alcançar com esse trabalho?

Nada como a vida da gente para nos inspirar. Foram três anos criando, compondo, trocando com novos parceiros. Eu sabia que eu queria fazer pop. Posso consumir o som que eu for que, quando eu for reproduzir, será pop. Me entendi como artista pop. Mas ele te leva a muitos lugares, tem muitas caras. Precisava desenvolver o meu, buscar minha identidade. Em um primeiro momento, tinha um peso. Depois, percebi que era besteira. Era só sair fazendo.

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Na música De Volta Pra Casa fala que ‘cada nota te traz de volta’. Isso tem a ver com esse resgate que você passou. Isso inclui ir novamente para frente do palco, sozinho. Alguma vez teve medo desse encontro mais próximo com o público, de estar nesse lugar?

Medo do público não. Tive medo de arranhar a superfície do cantor e tomar porrada, ser criticado novamente. Queira ou não, acima de qualquer coisa, eu sempre fui cantor. Hoje em dia, olho para trás e entendo algumas coisas. Mas eu era muito criança, né?

Na época (do Sandy & Junior), você tinha algum acompanhamento psicológico?

Nada! Eram os anos 1990! Ninguém tinha consciência disso. Comecei a fazer análise com 21 anos. Minha mãe ajuda, mas com os recursos que ela tinha. Mas, coitada, ela não tinha nem referência, ninguém para olhar para o lado e dizer ‘você também passa isso com seus filhos?’. Existia até uma sexualização das crianças. Vejo entrevistas minhas com 12 anos e penso: ‘como esse repórter fez essa pergunta? Como me deixaram responder? Como ninguém disse nada quando assistiu?’. Sobrevivemos na raça. Até que tivemos sorte!

As críticas em relação ao seu canto te incomodavam mais do que as especulações sobre sua vida, sexualidade, namoros?

Sim, muito mais. Apesar de ter sofrido também com essas outras questões. Era uma criança, virando adolescente, hiper exposta, sofria bullying para caramba na escola. Mas, como muita gente é assim. Essa é apenas a minha versão.

Seu pai, o Xororó, te deu de presente para esse disco a canção Sou, que fala muito sobre você, ou da visão que ele tem sobre você. Como a recebeu?

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Meu pai sacou que estava meio mal no primeiro ano da pandemia, afastado da música de novo, seis meses sem encostar no meu violão. Estava só gerenciando uma obra, cuidando do sítio, da horta...Quando ouvi essa música, falei: ele está falando dos meus sentimentos! Mexi bastante nela. Levou uns meses para eu bater martelo. Teve um vai-e-vem de letra. Mas ela me acordou para o fato de que a música seria o meu resgate.

Você tirou o Lima do nome. Agora, é só Junior. Alguma razão específica?

Acho que Junior é o suficiente (risos). A história de colocar o Lima veio na época de Sandy & Junior, num ímpeto de me deixar independente da dupla. Nunca funcionou. Já fiz as pazes com isso. Sou o Junior.

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