Novo livro do Nobel de Literatura J.M. Coetzee encerra sua trilogia

'A Morte de Jesus' encerra sua adaptação livre da história da natividade

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Por Jon Michaud
Atualização:

A obra mais recente de J.M. Coetzee, prêmio Nobel, é o terceiro romance, possivelmente o final, de uma série que é uma adaptação livre da história da natividade, recolocando-a num país de língua espanhola, sem nome, e que pode ou não ser uma visão da vida após a morte. 

O escritor sul-africanoJ. M. Coetzee, vencedor Nobel de Literatura Foto: Ed Viggiani/Estadão

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Recém-chegados descem de um navio “muito limpo” das suas memórias onde recebem nomes e idades. O primeiro livro da série do escritor, A Infância de Jesus, conta como um homem chamado Simón assume a responsabilidade por uma criança aparentemente órfã chamada David. Juntos eles procuram pela mãe do menino até encontrarem uma mulher, Inês, disposta a assumir esse papel.

Simón é uma pessoa segura, prudente e reflexiva, mas aparentemente sem paixão ou imaginação. Inês é uma mulher resmungona e espalhafatosa devotada a David, mas sem vida interior. Mantendo uma união sem sexo, ela e Simón fazem o máximo para educar uma criança precoce, obstinada e frequentemente insuportável. Quando os professores de David ameaçam colocá-lo em uma “escola especial” para crianças insubordinadas, a família foge para a cidade provincial de Estrella. 

Ali, como é descrito em A Vida Escolar de Jesus, David se matricula em uma academia de dança cuja professora é uma mulher jovem e bela chamada Ana Magdalena, que é assassinada por um guarda de museu obcecado chamado Dmitri (Coetzee nem sempre dá sobrenome às pessoas, mas suspeita-se que o de Dmitri seja Raskolnikov). O violento, lascivo e talvez louco Dmitri disputa com Simón a afeição de David. E cada vez mais David vê Simón e Inês como obstáculos ao seu autodesenvolvimento.

O novo romance de Coetzee, A Morte de Jesus, é ambientada dois anos mais tarde. David, agora com 10 anos de idade, é um dançarino talentoso e jogador de futebol. O Dr. Júlio Fabricante, diretor de um orfanato local, separa David dos seus “pais” e recruta agressivamente o menino. “Ser um órfão, no nível mais profundo, é estar sozinho no mundo. Assim, num certo sentido, somos todos órfãos”, ele observa. David deixa Simón e Inês e se transfere para o orfanato. 

Não se passa muito tempo, porém, e o menino é acometido por uma “doença misteriosa” e levado para o hospital. Uma longa vigília começa, e o resultado dela é transmitido pelo título do romance. No hospital, David se reúne brevemente com o asqueroso, mas magnético, Dmitri, que, tendo terminado um tratamento psiquiátrico, agora é uma pessoa pacífica. Dmitri afirma que David passou a ele uma “mensagem” antes de morrer. Mas numa carta a Simón, Dmitri admite que “o conteúdo da mensagem ainda é obscuro...O próprio David pode ser a mensagem”.

A mensagem da trilogia de Coetzee é similarmente inescrutável. Os livros se situam numa zona entre alegoria e parábola, refutando a interpretação.

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Ele usa o mínimo de palavras e o livro é quase totalmente despojado de metáforas. As tramas são superficiais e apenas em alguns momentos geram momentos de suspense. Passagens longas em todos os três volumes chegam à exaustão, mas com frequência são discussões filosóficas inconclusivas como uma entre Simón e David:

- “É contra as regras chamar as pessoas da sua outra vida de volta para esta”

- “Mas...como você sabe o que é permitido e não permitido?”

- -Não sei como seu sei, do mesmo modo que você não sabe como você sabe essas belas músicas que canta. Mas é como eu acho que as regras funcionam, as regras com base nas quais nós vivemos”.

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- “Mas e se não existir nenhuma nova vida? E se eu morrer e não despertar? Quem serei eu se não despertar?”.

Muitas dessas discussões giram em torno de perguntas sobre moralidade, mortalidade e metafísica. Enquanto a maioria dos moradores de Estrella parece feliz em viver uma vida irrefletida, Simón, David e Dmitri compartilham um interesse insaciável que contraria a utopia monocromática onde residem, um país aparentemente sem religião, pobreza ou alegria. Simón, que não tem a convicção de David e Dmitri, às vezes se torna um substituto do leitor quando tenta juntar este quebra-cabeça com um número insuficiente de peças. A sensação é de que Coetzee, nesses romances, está contando uma espécie de lorota para os leitores, uma lorota que somente o autor realmente entende.

O solitário trabalho de ficção diretamente referenciado na trilogia é o Dom Quixote. “David aprende por si mesmo a ler uma cópia resumida do livro e acaba memorizando o livro inteiro. Mais tarde, no hospital, ele agrada um público de crianças com histórias do cavaleiro errante. Num ensaio sobre Cervantes, Milan Kindera propôs a ideia de que somos separados do mundo por uma cortina de preconceitos e interpretações. “Cervantes enviou Dom Quixote para uma jornada e para rasgar a cortina”, escreveu. Os romances de Jesus de Coetzee conseguem o oposto. Não revelam nada. / Tradução de Terezinha Martino

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*Jon Michaud é autor do romance When Tito Loved Clara

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