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De antena ligada nas HQs, cinema-pipoca, RPG e afins

Imagens e palavra(s) de Gordad em debate

Por Rodrigo Fonseca
Atualização:

RODRIGO FONSECA Réquiem para Jean-Luc Godard (1930-2022), que morreu por meio de suicídio assistido, em setembro, a sessão de "Adeus à Linguagem" (Prêmio do Júri de Cannes, em 2014) e da ficção "Pierrot Le Fou - O Demônio das Onze Horas" (1965) no Estação NET Botafogo, nesta terça-feira, a partir das 19h, é uma celebração do legado semiótico do cineasta suíço, nascido em Paris. Sua morte acaba de inspirar uma edição especial da revista "Cahiers du Cinéma". Seu mais recente longa-metragem, "Imagem e Palavra", de 2018, está hoje na grade do streaming Reserva Imovision, podendo ser assistido online. Uma semana antes de conquistar uma Palma de Ouro especial, em Cannes, por essa produção, chamada "Le livre d'image" no original, Godard (então com 88 anos) deu uma entrevista via Facetime em Cannes para explicar certas escolhas: "As filmagens deste projeto não foram ação, foram arquivos: preciso do passado para falar do futuro". Seu filme é um colírio semiótico, construído como um ensaio documental, para abrir nossos olhos sobre nossa subserviência às narrativas. Em sua narrativa, o passado ganha os contornos de "Johnny Guitar" (1954), faroeste de afirmação do feminino (ou do feminismo, pra parte respeitosa da crítica), numa aparição de Joan Crawford e Sterling Hayden. O western é de Nicholas Ray (1911-1979), diretor cujo humanismo desmesurado e a rejeição à ordem burguesa encantou Godard e seus colegas de Nouvelle Vague, o movimento que modernizou a prática cinematográfica na França, entre os anos 1950 e 60, num engajamento em causas políticas e revisões comportamentais. O fragmento de Ray entra como um farol numa colagem (a expressão godardiana por excelência de 2001 pra cá) de cenas de batalha, de terrorismos, de publicidades. A mesma iluminação se dá ao redor deum frame de "Tubarão", de Spielberg, usado com ironia. Todas as citações cinéfilas, que vão se descontruindo conforme Godard vai superpondo a elas uma narração filosófica. "O som, no cinema, precisa ser pensado de outra forma, autônoma, como se fosse um organismo à parte da imagem. Complementar, claro, mas com significação em si", defende ele. Mastigando e dilacerando signos jornalísticos ou ficcionais, o diretor cria uma linha de debate na qual questiona as representações acusatórias ao Estado Islâmico, para desnudar um discurso de construção de vilania e culpa, e confronta o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que o cineasta - nascido em Paris em 3 de dezembro de 1930, mas naturalizado suíço - sempre faz, desde "Acossado" (1960): seus experimentos são filme, são semiologia, mas são, antes de tudo, Godard, uma grife de digressões. E reações. O resultado plástico e o discursivo não têm, como espetáculo, o vigor de "Nossa música" (2004), o melhor longa dele neste século, mas há potência de sobra, a ser digerida aos poucos, sob azias morais.

"Imagem e Palavra", o longa mais recente do cineasta, está online no Reserva Imovision  Foto: Estadão

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No debate desta terça do Estação, que terá o P de Pop da medição, estarão presentes a produtora Gláucia Camargos, a crítica e pesquisadora de Literatura Janda Montenegro e o diretor Neville D'Almeida.

p.s.: Comemorando 20 anos de sua primeira exibição, "Fale Com Ela" ("Hable Con Ella", 2002), de Pedro Almodóvar, está na Netflix. Exibido no Brasil pela primeira vez há duas décadas, na abertura do Festival do Rio, o longa que deu ao artesão do melodrama o Oscar de Melhor Roteiro tem participação de Caetano Veloso em meio a uma festa onde todo o lado afetuoso do protagonista, o repórter Marco (Darío Grandinetti), transborda. Ao seguir o calvário de sua namorada, a toureira Lydia (Rosario Flores), em coma, Marco acaba próximo da história da bailarina Alicia (Leonor Watling) e do enfermeiro Benigno (Javier Cámara). Sua bilheteria beirou US$ 65 milhões.

p.s.2: Depois da apuração das eleições, a Globo vai exibir o thriller "Os Mercenários" ("The Expendables", 2010), de Sylvester Stallone, que foi parcialmente rodado em Mangaratiba, no RJ.

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