Foto do(a) blog

De antena ligada nas HQs, cinema-pipoca, RPG e afins

'O Último Ônibus' não derrapa

PUBLICIDADE

Por Rodrigo Fonseca
Atualização:
Timothy Spall faz uma viagem de purgação e de iluminação em "O Último Ônibus" - Foto: Samuel Goldwyn Films

Rodrigo Fonseca Raras vezes se fala do cinema do Reino Unido no circuito exibidor do Brasil, fora quando Ken Loach chega por estas bandas... e já, já "The Old Oak", dirigido pelo bamba do marxismo, chega por aqui. Mas há um belo título britânico se mantendo firme e forte em nossas salas: "O Último Ônibus" ("The Last Bus"). Sua produção foi orçada em 2,5 milhões de libras e sua arrecadação vem se exapandindo a partir de sua silenciosa permanência em nossas telas. Tem sessão no Rio, às 16h50, no Estação NET Botafogo, e está em cartaz em São Paulo no Belas Artes (às 14h e às 18h30) e no Reserva Cultural (às 16h20). É uma narrativa comovente. Seu roteiro, escrito por Joe Ainsworth, aborda as crises da malha rodoviária europeia, com a falta de preparo de motoristas (mal pagos) para lidar com as necessidades especiais de passageiros. Menções aos solavancos da economia inglesa também integram o filme, numa toada melancólica. Mas, seu eixo central nào é esse. Ao confiar à direção a Gillies MacKinnon, um diretor de séries de TV ("O Jovem Indiana Jones") e de dramas viscerais como "Small Faces - Fúria nas Ruas" (1995), o que poderia ser um drama político vira um ensaio existencial. Não temos em MacKinnon uma assinatura pessoal autoral de requinte, apenas competência e um interesse por tramas sociais que alumbram mais e melhor quando entram no terreno afetivo dos personagens. Mas o longa tem uma delicada habilidade em falar de ruínas, sejam financeiras, sejam pessoais. Tudo se deslancha por conta de um ator em estado de graça: Timothy Spall. Aos 66 anos, na ativa desde 1978, esse londrino conhecido na cultura pop por ser o Peter Pettigrew da franquia "Harry Potter" foi laureado há nove anos em Cannes, por "Mr. Turner", de Mike Leigh, com quem trabalhou em "Agora ou Nunca" (2002), "Topsy-Turvy" (1999) e "Segredos e Mentiras" (1996). Sua atuação é de um fino minimalismo. No enredo, Spall encarna o mecânico Sr. Tom, que deixa sua casa, na Escócia, e vai até a Cornualha, entre baldeações de coletivos lotados, a fim de cumprir uma promessa, cruzando um vasto território de ônibus. A cada parada temos uma surpresa, seja num motor que funde, seja num conflito afetivo em que ele se mete. Num procedimento de analepses (flashbacks) somos jogados a um passado de alegria no qual Tom jurou dar conta do desejo de sua amada e fez de tudo pra preservar a alegria dela. A viagem que ele faz agora é a realização da vontade dela. Numa fotografia de tons nublados, aplicados a uma realidade úmida, vemos uma vida fenecer em pés firmes, refugiando-se nas próprias memórias. Ou na ausência delas.

p.s.: Num ano apinhado de boas atuações de representatividade feminina nas telas, vide Sophie Charlotte em "O Rio do Desejo" e Joana Gatis em "Noites Alienígenas", é uma grata surpresa o trabalho de Aline Campos na comédia "Um Dia Cinco Estrelas", já em cartaz. Sob a direção de Hsu Chien Hsin, no papel de uma vendedora em busca de promoção, ela se sobressai em cartaz num ferramental gestual que evoca Salma Hayek em "E Agora, Meu Amor?" e "Amor Em Chamas", duas joias lá de 1997. Aline, que será vista ainda este ano em "Os Farofeiros 2", é a Salma Hayek do Brasil.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.