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Coluna quinzenal do jornalista e escritor Sérgio Augusto sobre literatura

Opinião|As palavras do ano de 2023

Se já não falamos tanto, por motivos óbvios, em “pandemia” e “quarentena”, em compensação ainda ouvimos em demasia “desmatamento”, “polarização”, “fake news”, “narrativa”, “feminicídio”

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Todo dezembro, os dicionários de maior prestígio no Ocidente apontam a ou as palavras que mais se destacaram durante o ano. As mais faladas, escritas e abusivamente usadas, ao sabor de acontecimentos e modismos passageiros.

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Embora rito lexical de origem alemã, americanos e britânicos se apossaram da ideia e, beneficiados pela língua franca que trazem do berço, a universalizaram.

Não cultivamos esse hábito entre nós. Os franceses tampouco, preferindo destacar apenas as palavras anualmente incorporadas ao Larousse, ao Robert e congêneres. NFT, acrônimo em inglês de “token não fungível”, só chegou agora ao Larousse, com as letras JNF e duas temporadas de atraso em relação ao Collins Dictionairy.

Se já não falamos tanto, por motivos óbvios, em “pandemia” e “quarentena”, em compensação ainda ouvimos em demasia “desmatamento”, “polarização”, “fake news”, “narrativa”, “feminicídio”, e temo que tão cedo não nos livraremos de “icônico”, “robusto”, “surreal”, “camada” – e talvez nunca de “interessante”, o mais anódino e onipresente dos adjetivos, placebo semântico com maior ibope entre os comentaristas de nossa TV. “Interessante” é um qualificativo que nunca desceu do muro.

Dicionário Oxford  Foto: Divulgação / Dicionário Oxford

Para o dicionário Merrian-Webster, “authentic” foi a palavra de 2023. Autêntico como sinônimo de real, legítimo, sincero, verdadeiro, o oposto de falso e imitação.

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Celebridades do show biz se fartaram de invocá-la, seguindo as pegadas de Taylor Swift, ela, sim, autêntica, além de inspiradora do neologismo “swifties”, também superado, no cômputo final, por “deepfake” (nome dado à criação de vídeos e áudios falsos por meio de inteligência artificial), “distopic” (apesar de nascida no Parlamento britânico há 155 anos, sempre válida e inserida no contexto) e “doppelgänger” (duplo, sósia, gêmeo), mais uma contribuição alemã ao glossário universal, por sinal já absorvida até pela moda e pelo mundo dos jogos eletrônicos. O mais novo livro de Naomi Klein intitula-se Doppelgänger. Para a jornalista e ativista canadense, Israel e Palestina formam uma “sociedade doppelgänger”.

A escolha do dicionário Oxford recaiu sobre um neologismo enigmático e quase acrossêmico, “rizz”, facilmente traduzível por charme pessoal e borogodó. O Cambridge, mais circunspecto, optou por “hallucinate”. Nada a ver com Dua Lipa (seu homônimo hit é de 2020), mas com o jargão surgido na esteira dos avanços da inteligência artificial. Quando uma ferramenta de IA produz uma informação falsa, ela não erra, ela “alucina”. Acabamos de conhecer um novo eufemismo.

Segundo o Cambridge, as “alucinações da IA” são alertas aos seres humanos, para que nunca abdiquem de suas habilidades cognitivas e do pensamento crítico ao se envolverem com ferramentas que, do nada, podem pirar. Anotado.

Opinião por Sérgio Augusto

É jornalista, escritor e autor de 'Esse Mundo é um Pandeiro', entre outros

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