“Brasil/ Mostra a tua cara/ Quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim…” Os versos de Cazuza entoados por Gal Costa na canção Brasil, tema da novela Vale Tudo, de 1988, soam até hoje como um tapa na cara. Era um retrato direto – como boa parte das letras do cantor e compositor carioca – sobre as mazelas do País, por mais que o protagonista dos versos não tenha perdido a fé.
Brasil foi o carro chefe musical de uma trama engendrada de modo brilhante por Gilberto Braga (1945-2021) e escrita em parceria com Aguinaldo Silva e Leonor Basséres, na qual se abordou temas então polêmicos como corrupção, desigualdade social, discriminação racial e sexual e impunidade.
A criação de Cazuza é o ponto de partida de uma trilha à beira da perfeição, que trazia uma canção inédita de João Bosco (Terra Dourada), hits que tinham o canto delicado de Verônica Sabino e Jane Duboc (Todo Sentimento e Besame), um funk/rock de Barão Vermelho (Pense e Dance), uma recriação de Ary Barroso (1903-1964) por Caetano Veloso (Isto Aqui o que É) e um bis de Cazuza (a bossa nova Faz Parte do Meu Show), cantando uma parceria com Renato Ladeira (1952-2015).
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A nova Vale Tudo estreia nesta segunda-feira, 31. Enquanto todo mundo se pergunta se as encarnações recentes de Odete Roitman, Maria de Fátima e Raquel irão cair no gosto do público, eu me pergunto se a trilha sonora de 2025 tem o mesmo apelo irresistível da compilação de 37 anos atrás. E, mais do que isso, será que possuem o potencial de extrapolar a tela e se tornarem sucessos de execução – ainda que tragam nomes do primeiro escalão da MPB, mesclados a revelações do rap e da soul music dos últimos tempos.
Vamos a um pouco de história? As trilhas sonoras de novela são um dos melhores exemplos da visão certeira dos executivos da Globo. De acordo com o jornalista e escritor Hugo Sukman no livro Som Livre – Uma Biografia do Ouvido Brasileiro, que conta a história da gravadora que nasceu como braço da emissora, partiu de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e de João Araújo (1935-2013), a ideia de criar temas específicos para as tramas da emissora.
O ponto de partida se deu com Carinhoso, de 1973, que trazia as versões do trompetista Márcio Montarroyos (1948-2007) para clássicos da música brasileira, temperadas pelas composições de autores como Nelson Motta e Marcos Valle. O grande estouro desse estratagema se deu com Gabriela, de 1975, na qual o produtor Guto Graça Mello encomendou uma trilha original para a trama – e saiu com temas fresquinhos de Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, entre outros.
Os temas dos folhetins se aprimoraram em 1989 após a chegada de outro grande produtor, Mariozinho Rocha. Ele modernizou a estratégia de encomendar as músicas ao apresentar a trama para os diretores de gravadoras e pedir temas específicos para este ou aquele personagem. Muitas vezes, ele sugeria aos executivos um “contrato de risco”. A companhia discográfica colocava sua aposta num estúdio de gravação e mostrava para Mariozinho, que tratava de encaminhar a música aos cuidados do diretor e do autor da novela.
Hoje em dia, essa artimanha é pouco utilizada – o que resulta num grande problema. Em conversa com executivos e trilheiros, escutei que essas resenhas praticamente não existem. E muitas vezes, os palpites de temas para este ou aquele personagem não se resumem ao diretor artístico da companhia ou ao autor e diretor da trama. Elas se estendem para outros setores. “Todo mundo hoje saca um celular dizendo que achou o tema ideal”, me confidenciou um executivo. “Mas, muitas vezes, o tema serve para a pessoa que sugere, não para o personagem”, lamenta.
Com raríssimas exceções, as trilhas atuais conseguem furar a bolha da novela e caírem no gosto do povo – uma dessas foi a de Avenida Brasil (2012), de João Emanuel Carneiro, em que o “oi oi oi” de Vem Dançar Com Tudo e o samba Assim Você Mata o Papai (tema de Leleco, personagem de Marcos Caruso) se tornaram sucessos populares. Avenida Brasil, aliás, não ganhou uma, mas sim duas trilhas sonoras nacionais.

A nova compilação de Vale Tudo é boa? Sim, ela é boa. Tem Maria Bethânia, Tom Jobim, Ney Matogrosso e Gilberto Gil, ao lado de Emicida, o trio Os Garotin e Xande de Pilares. Além disso, manteve as canções de Gal Costa, Cazuza e Caetano Veloso para ativar a memória emocional de quem assistiu a primeira versão da novela.
É uma boa playlist, mas resta saber se tem força suficiente para se unir aos personagens da história. Porque, mais importante do que apresentar um desfile de grandes nomes, é que eles combinem com os tipos que serão apresentados na tela.
Outro problema a se considerar é que há tempos a Globo não apresenta um folhetim que fixe a atenção do espectador. Mania de Você, a quem Vale Tudo acaba de suceder, foi tão criticada que nem a versão de Anitta para o sucesso de Rita Lee e Roberto de Carvalho despertou maior atenção (pensando bem, a versão não era mesmo das melhores). A aposta em nomes mais ligados ao cenário alternativo – Johhny Hooker, Rodrigo Alarcon, Léo Cavalcanti etc –, por melhores que esses artistas sejam, também não despertou interesse do público pela música que era tocada durante a trama.
Como bem me disse um grande amigo meu, se a história não pegar, a parte musical não vai pra frente, ainda que traga temas de John Williams e Quincy Jones e canções inéditas da dupla John Lennon & Paul McCartney. Espera-se então que a nova roupagem da saga de Maria de Fátima (aqui, interpretada por Bella Campos) e as maldades de Odete Roitman (Débora Bloch) caiam no gosto do público, bem como as canções que as representam.





