PUBLICIDADE

‘A única coisa que me faria enlouquecer é o amor, o resto eu tiro de letra’, diz ator Milhem Cortaz

No monólogo ‘Diário de um Louco’, em cartaz no Teatro Viradalata, o ator - e agora padeiro e dono de padaria em São Paulo - vive um infeliz funcionário público; peça é uma adaptação de obra clássica do escritor russo Gógol

Por Dirceu Alves Jr

Sem saber, o ator Milhem Cortez, de 51 anos, começou a se preparar para o monólogo Diário de um Louco, do russo Nikolai Gógol (1809-1852), meses antes de receber o convite. Entre março e junho do ano passado, o artista, depois de 12 anos afastado dos palcos, fez um dos personagens principais da comédia De Perto Ninguém É Normal, que mostrava os bastidores de uma companhia em meio aos ensaios de outra peça, Arsênico e Alfazema.

“Participar de um vaudeville, com aquele corre-corre, entra-e-sai e troca de personagens foi um aquecimento fundamental porque meu corpo estava desacostumado”, reconhece. “Entendi que sem o teatro eu emburreço, adoeço, tive um problema no quadril.”

O ator Milhem Cortaz em sua padaria, em Perdizes Foto: Tiago Queiroz/Estadão

PUBLICIDADE

Sob a direção de Bruce Gomlevsky, Diário de um Louco estreou nesta sexta, 5, no Teatro Viradalata, em Perdizes, depois de uma temporada carioca no ano passado que rendeu ao ator indicações para os prêmios Shell e APTR. Ele interpreta um humilhado funcionário público encarregado de apontar os lápis usados na repartição que se apaixona pela filha do chefe.

“É uma peça política, que trata de desigualdade social e de um cara que não consegue se libertar do sistema, mas, quando li o texto, quis falar sobre o amor”, comenta. “Este é o ponto, inclusive, para mim, porque a única coisa que me faria enlouquecer é o amor, o resto eu tiro de letra.”

Milhem Cortaz em cena de Diário de um Louco Foto: Priscila Prade

Gomlevsky, como diretor, perseguiu uma doçura na condução do personagem até para contrastar com a imagem forte e truculenta presente na maioria dos personagens de Cortaz no cinema e na televisão. Entre 2000 e 2020, o ator rodou mais de 50 filmes, entre eles Carandiru, Tropa de Elite 1 e 2 e O Lobo Atrás da Porta, e marcou presença em novelas recentes da Rede Globo, como O Sétimo Guardião e Amor de Mãe.

A virada televisiva aconteceu na série Os Outros, sucesso do Globoplay no ano passado, na pele do violento Wando. “Procurava há muito tempo um personagem que pudesse ser tão significativo, e o Wando me realizou em todos os sentidos”, afirma ele, que ganhou o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como melhor ator de televisão. “Até porque se esse trabalho não tivesse sido tão forte talvez as portas da TV não continuassem abertas para mim.”

O reconhecimento vindo com Os Outros é coroado pela experiência em Diário de um Louco e representa uma longa batalha pelo autoconhecimento e o controle da sua vaidade, que hoje é vista como demonstração de insegurança. Cortaz andava desgostoso com a profissão nos últimos anos, incomodado com o excesso de competição estabelecido pelos colegas nos bastidores. “Claro que o teatro tem ego, mas, perto do cinema e da televisão, parece um jardim de infância”, reconhece.

Publicidade

Aquela visão romântica de que vale tudo em nome da arte e que o bolso é uma preocupação burguesa nunca fez parte da mentalidade do intérprete. Cortaz sabe o quanto é importante mexer com o que se gosta, mas nunca deixou de lado o realismo na hora de ganhar dinheiro e botar comida na mesa.

Casado com a atriz Ziza Brisola há 24 anos, ele sabe que trabalhou demais e, se tivesse ganhado melhor, poderia ter aproveitado mais a companhia da mulher e da filha, Helena, que chegou aos 15 anos em um piscar de olhos. “Sempre aceitei os projetos que chegavam porque precisava mesmo, mas posso dizer que grande parte deles queria realmente fazer”, declara.

Pão na pandemia e padaria

A pandemia que tirou o chão de tanta gente revelou uma inesperada perspectiva ao artista, que, sem a ambição de tornar-se empreendedor, virou um. Ele foi um dos tantos que começou a fazer pão para espantar a tristeza do isolamento e, diante de uma produção caseira em larga escala, presenteava amigos e distribuía aos mais carentes. “O meu sonho sempre foi ter uma birosca no interior para ficar amigo da vizinhança e, um dia, a Ziza plantou esse verde: ‘por que não abrimos uma padaria em casa’”, conta.

Milhem Cortaz na Cortaz O Pãol que fica na Rua Cayowaá, 1265 - Perdizes, a apenas 500 metros do teatro onde encena 'Diário de Um Louco.  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Dito e feito, a Cortaz O Pão, que funciona de quinta a sábado presencialmente e recebe encomendas nos demais dias, foi montada na garagem do artista, na Rua Cayowaá, 1.265, em Perdizes, e, desde a inauguração, em junho de 2023, também atende a pedidos de restaurantes e eventos.

PUBLICIDADE

“Abrir a padaria me deu a liberdade de voltar a fazer teatro”, conta ele, que começou sozinho na produção e no atendimento e, agora, tem um sócio, o padeiro Joseph Kairoz. “O negócio não dá um lucro enorme, mas se paga, então é questão de tempo”, afirma.

Quando o ator se ausenta de São Paulo, como foi o caso do período das gravações da série Espécie Invasora para o Globoplay, Kairoz é o único a colocar a mão na massa e, a partir de julho, Cortaz voltará a frequentar a ponte aérea. Ele está escalado para a próxima novela escrita por Claudia Souto para a faixa das sete da Globo, Mão Dupla (título provisório).

“Eu fiquei surpreso e feliz, nunca pensei que poderia ser chamado para um horário mais leve como o das sete”, conclui Cortaz, deixando escapar que até o próprio, em alguns momentos, acredita na imagem propagada pelo cinema e pela televisão.

Publicidade

'Abrir a padaria me deu a liberdade de voltar a fazer teatro', diz o ator Milhem Cortaz. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Serviço - Diário de um Louco

  • Teatro Viradalata.
  • Rua Apinajés, 1387, Perdizes.
  • Sexta e sábado, 20h; domingo, 19h.
  • R$ 80 e R$ 100
  • Até 2 de junho.
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.