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Cientista político e economista

Opinião|Este é o momento para os divergentes?

Na atual situação, estamos entrando em um mundo onde há muitas tolices, mas também um grande potencial para avanços em muitas áreas

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Em quase todos os lugares, o mundo parece estar se desintegrando politicamente.

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Nos Estados Unidos, no último dia possível, o governo evitou a paralisação do Estado pagando as contas ― mas só até março. Enquanto isso, agora com maioria na casa, os republicanos da Câmara seguem tentando os impeachments de Joe Biden, de Alejandro N. Mayorkas (responsável pelas regras de imigração) e de qualquer outra pessoa, ao mesmo tempo em que prosseguem com a investigação para prender Hunter Biden e qualquer outro democrata importante que possam encontrar.

O Oriente Médio anda tão problemático que está difícil guardar os nomes dos países envolvidos. O Irã se orgulha de estar no centro do conflito atual, apoiando os ataques dos Houthis no Iêmen e realizando seus próprios empreendimentos na Síria, no Iraque e no Paquistão. No Líbano, o Hezbollah contribuiu para ataques no norte de Israel.

Não é de se admirar que Gaza, cujos elaborados túneis foram abertos para o New York Times, tenha se tornado tão central para Israel desde os primeiros ataques a Gaza, em outubro. O conflito já matou milhares de pessoas. Muitos prisioneiros continuam em Gaza. Seu estado de saúde é uma preocupação concreta, por causa da idade e das condições relatadas pelos poucos já libertados.

Destruição em Gaza; Oriente Médio anda tão problemático que está difícil guardar os nomes dos países envolvidos Foto: Adel Hana/AP

Na África, os problemas vêm se agravando com as mudanças climáticas, que afetam dramaticamente as chuvas em países como Sudão, Quênia, Somália, Etiópia e Níger. Nos últimos três anos, ocorreram sete golpes militares em vários países. A Ásia já é conhecida pelos problemas da Índia, do Paquistão e de Bangladesh, para não falar de muitos outros, como Vietnã, Tailândia, Indonésia e até China.

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Além de tudo isso, temos o embate militar entre Ucrânia e Rússia, onde a preocupação de Putin é com seu poder pessoal, não com a resolução do conflito. Boa parte da infraestrutura ucraniana foi destruída. Mas Zelensky segue na luta, pedindo aos países ocidentais que ponham fim a Putin — ou pelo menos que lhe forneçam os recursos tão necessários para vencer a guerra.

O Brasil entra em cena devido à magnitude das reduções cumulativas no tamanho da Amazônia e à preferência de Lula por um forte compromisso com subsídios à indústria, em vez dos modestos recursos estrangeiros oferecidos para a conservação. A realidade de seu novo compromisso será testada pela participação da ministra Marina Silva no governo. Ela foi ministra entre 2003 e 2005. Sua renúncia reforçou a percepção de que Lula está mais preocupado com o desenvolvimento econômico do que com a conservação ambiental.

Que conclusões podem ser tiradas deste panorama tão limitado e desanimador? Listo aqui apenas três.

A primeira é a importância de cuidar do clima. Esta questão deve envolver necessariamente todas as nações, e não apenas os grandes países industrializados. É preciso considerar a natureza compensatória desse processo. Fazer grandes promessas não é a resposta. O gelo está desaparecendo a um ritmo muito mais rápido do que se previa. O Brasil é um ator central, juntamente com outros países em expansão na África e na Ásia. A água ainda não foi reinventada. Os Estados Unidos precisam participar.

A segunda conclusão é a necessidade de esforços de paz para lidar com o colonialismo histórico. Os esforços para reduzir a violência religiosa precisam continuar e se ampliar. As pessoas não podem mais ser compradas e vendidas como ocorria com frequência no passado. O poder das armas aumentou muito, e suas consequências se tornaram mais graves. Os países racionalizaram seu envolvimento em guerras até ao final da Segunda Guerra Mundial. Depois disso, várias populações lutaram com sucesso para conquistar a liberdade. Vimos esse processo se distorcer e diminuir nos últimos anos devido, em certa medida, ao processo de agravamento das mudanças climáticas. É aqui que a democracia desaparece.

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A terceira é um esforço internacional para lidar com a rápida evolução da inteligência artificial. Os países investiram substancialmente para adquirir informações completas sobre o comportamento individual que possam ser incorporadas a tais modelos. As nações têm limitações diferentes. Não é provável que os tribunais produzam controles adequados. Na atual situação, estamos entrando em um mundo onde há muitas tolices, mas também um grande potencial para avanços em muitas áreas.

Se alguém conseguisse fazer esse tipo de progresso, talvez pudéssemos ter um mundo verdadeiramente democrático./Tradução de Renato Prelorentzou

Opinião por Albert Fishlow

Economista e cientista político, professor emérito nas universidades de Columbia e da Califórnia em Berkeley

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