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Ao intervir nas empresas, governo dá um tiro no pé

Por PROFESSOR TITULAR DO INSPER
Atualização:

Análise: Sérgio LazzariniO relatório recém-divulgado do BNDESPar justifica a queda no valor das suas participações acionárias com o argumento de que a carteira seria, em tese, "sensível a mudanças na situação econômica do País e do mundo".O Ibovespa, entretanto, contou uma história diferente. No ano passado, o índice, que reflete o mercado acionário como um todo, subiu 7,4%. Se a carteira do BNDESPar fosse de fato sensível à situação do mercado, esperaríamos um resultado semelhante ao do Ibovespa. Em realidade, o que aconteceu é que a carteira do BNDESPar ficou cada vez mais exposta a empresas sensíveis aos mandos e desmandos do próprio governo. Historicamente, o BNDESPar tem participado do capital acionário de empresas controladas pelo Estado (como Petrobrás e empresas do setor elétrico) ou empresas oriundas das privatizações nas quais o governo manteve presença (caso da Vale e da Oi).Esses dois grupos de empresas, de 2009 para cá, foram alvo de investidas do governo que prejudicaram a sua valorização. A Vale, que se consolidava como empresa global, foi pressionada a enfatizar compras e investimentos locais.Com a eleição de Dilma, as estatais foram usadas como mecanismo de controle de mercado. Assim, a contragosto dos seus técnicos, a Petrobrás teve de segurar preços artificialmente baixos para a gasolina, levando a um prejuízo recorde no segundo trimestre do ano passado. As elétricas, por sua vez, amargaram fortes perdas com a renegociação das concessões. Enquanto o governo alardeia na televisão os preços mais baixos da energia, os minoritários dessas empresas - incluindo o próprio BNDESPar - veem o seu patrimônio minguar.Há ainda os "campeões nacionais" bancados pelo BNDES. Fusões e aquisições com participação acionária do banco que deixaram a desejar. A notícia mais recente é a da LBR - Lácteos do Brasil. Só essa empresa fez o patrimônio do banco encolher R$ 657 milhões.Por muito tempo, os resultados participações acionárias do BNDES ajudaram a suportar os resultados operacionais do banco como um todo. Tudo indica que esse tempo passou. Ao intervir excessivamente nas empresas, o governo dá um tiro no próprio pé. Ao culpar o mercado, o BNDES não só foge do real problema, como deixa de zelar para que os seus recursos, que são públicos, adicionem valor ao País.

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