Mercado já vê Selic em 9% em 2022, após BC falar em nível 'significativamente contracionista'

Na ata da reunião de setembro do Copom, Banco Central diz que ritmo de aumento atual, de 1 ponto porcentual, será mantido, mas que ciclo de alta pode ser mais longo

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Por Eduardo Rodrigues , Thaís Barcellos , Cicero Cotrim e Guilherme Bianchini
Atualização:

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A taxa de juros básica deve continuar subindo a um ritmo de 1 ponto porcentual, como visto na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central. Mas, para levar a inflação à meta em 2022 - 3,5%, com margem de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo -, o ciclo de alta pode ser maior que o cogitado pelo mercado financeiro, segundo indicações que constam da Ata do Copom, divulgada nesta terça-feira, 28.

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A taxa básica de juros da economia está hoje em 6,25% ao ano e as projeções são de mais duas altas de 1 ponto porcentual este ano, chegando a 8,25%. Na ata, o BC diz que a estratégia mais apropriada para assegurar a convergência da inflação para as metas de 2022 e 2023 (3,25%, com margem de 1,5 ponto porcentual) é a manutenção do ritmo atual de ajuste associado ao "aumento da magnitude do ciclo de ajuste da política monetária para patamar significativamente contracionista".

Após a divulgação do documento, as projeções de analistas do mercado financeiro para a Selic no fim de 2022 começaram a subir. No Boletim Focus, divulgado na segunda-feira, 27, a projeção era de juros em 8,5% no ano que vem. Agora, muitas instituições já preveem 9%, ou até mais. O aumento dos juros, com impacto direto na atividade econômica em pleno ano eleitoral, será uma prova de fogo para a autonomia do Banco Central, aprovada este ano.

O Banco Original, que previa os juros no máximo a 8,25%, agora passou a projetar um patamar de 9%.  “As duas menções a um patamar ‘significativamente contracionista’ da Selic foram as passagens mais 'hawkish' da ata (do Copom), e são o fator racional por trás da nossa revisão”, disse Lisandra Barbero, economista do banco.

Novus Capital e Garde Asset são outras instituições que também passaram a projetar juros de 9% em 2022.  "Estamos na tempestade perfeita de inflação e, se não acalmar, pode ser que essa projeção de Selic suba mais", diz Daniel Weeks, economista-chefe da Garde. "Para colocar a inflação no centro da meta em 2022 (de 3,5%), a Selic precisaria ser bem mais alta. Mas em algum momento do começo do ano que vem o BC começa a olhar para 2023 e não entrega todo esse 'whatever it takes' (o que for preciso)".

A Selicdeve ter outros aumentos de1ponto porcentual, indicou oBanco Central na ata do Copom. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Segundo o economista e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, para garantir a convergência da inflação ao centro da meta de 2022, a taxa Selic deveria ter de subir para 9,5%, um ponto acima do cenário base com o qual o Banco Central trabalha. Além disso,  ele avalia que não dá nem para descartar uma aceleração do ritmo de alta de juros em outubro e dezembro, caso o BC se convença que a inflação é muito mais persistente.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, a ata reforçou as preocupações do BC com os riscos fiscais e deixou explícito que o ciclo de alta pode terminar com juros acima do cenário básico da autarquia.  "É interessante ver a preocupação do BC ainda com a piora gradual que se espera para o fiscal, abrindo a possibilidade concreta de que o cenário básico talvez não seja suficiente, abrindo espaço para uma Selic acima de 8,5% no fim do ciclo", diz Vale.

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Na ata, o BC afirmou que a assimetria para cima criada pelo perigo de deterioração fiscal no seu balanço de riscos justifica uma "trajetória para a política monetária mais contracionista do que a utilizada no seu cenário básico", que prevê inflação de 3,70% em 2022 com Selic de 8,5%.

Para Vale, o Copom usou a ata para explicar que pretende manter o ritmo de aperto monetário de 1 ponto porcentual por reunião. O objetivo é observar o comportamento das commodities, cuja desaceleração pode descomprimir a inflação, observa o economista.

Ao mesmo tempo, Vale nota que o cenário de inflação é preocupante, mesmo considerando esse vetor de baixa. O economista lembra que a instabilidade política do País tende a manter a taxa de câmbio pressionada e que a ocorrência do fenômeno La Niña no fim do ano pode manter baixos os níveis de reservatórios.

"É um cenário de inflação que preocupa, e, como o BC está sozinho, sem ajuda da política fiscal, com o excesso de gastos previsto para o ano que vem, pode precisar subir mais os juros", diz Vale.

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A MB espera dois aumentos de 1 ponto da Selic, em outubro e dezembro, e taxa de 8,25% no fim de 2021. O fim do ciclo ocorreria na primeira reunião de 2022, com um ajuste de 0,75 ponto, e a taxa de juros permaneceria em 9,0% até o fim do ano que vem. Nesse cenário, Vale prevê IPCA de 8,70% neste ano e de 4,70% em 2022.

Sem limite

Para o economista João Leal, da Rio Bravo Investimentos, a ata da reunião de setembro do Copom reforça a manutenção do ritmo de alta da Selic em 1 ponto porcentual, mas traz a novidade de levar a taxa de juros para patamar “significativamente” contracionista. “Dá visão maior de que não há limite para o nível onde o Banco Central pretende colocar a Selic”, diz.

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Mas, para o economista, a ata não deixou claro que existe uma pressão mais de alta do que de baixa para a inflação, sem menção às surpresas inflacionárias no País e a uma possível desancoragem das expectativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022. “De novo, o BC parece menos preocupado com a inflação do que o mercado está. E isso pode ser um risco muito grande para o cumprimento das expectativas de 2022 e 2023”, alerta o economista.

A Rio Bravo manteve as estimativas de altas de 1 ponto para a Selic em outubro e em dezembro, com juros a 8,25% no fim de 2021. A previsão é de taxa de 8,75% no final de 2022, mas com viés de alta. “O mercado pode estressar a curva de juros e alterar expectativas de inflação. A visão do BC talvez seja mais otimista”, afirma Leal.

Na ata divulgada nesta terça-feira, o BC afirmou que discutiu "custos e benefícios" de acelerar o ritmo de alta de juros, mas fez três ponderações. A primeira é que o estágio do ciclo de ajuste é caracterizado por uma política monetária já efetivamente contracionista, quando se considera a diferença entre as expectativas para as trajetórias da taxa de juros e da inflação ao longo do horizonte relevante de política monetária.

Além disso, segundo a ata, simulações com trajetórias de elevação de juros que mantêm o ritmo atual de ajuste, mas consideram diferentes taxas Selic no fim do ciclo, sugerem que o atual ritmo de ajuste é suficiente para atingir patamar significativamente contracionista e garantir a convergência da inflação para a meta em 2022, mesmo considerando a assimetria no balanço de riscos.

Por fim, o Copom destacou que o peso de itens voláteis nas revisões das projeções de inflação de curto prazo e o ineditismo do processo de readequação econômica pós-pandemia reforçam o benefício de acumular mais informações sobre o estado da economia e a persistência dos choques em vigor.

Autonomia

Ao sinalizar que o ciclo de alta da taxa básica de juros poderá terminar em nível mais elevado do que se imaginava inicialmente, como sugerido na ata da reunião de setembro, o Banco Central poderá enfrentar pressões políticas. Isso porque, para levar a taxa básica a níveis mais elevados, o BC poderá entrar o ano das eleições em pleno aperto monetário. A situação poderá colocar à prova a autonomia da autoridade monetária, firmada em lei em fevereiro. Economistas ouvidos pelo Estadão, porém, apostam que o BC está protegido.

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Para José Júlio Senna, ex-diretor do BC e chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a autonomia formal, firmada em lei, servirá para “blindar” a diretoria da autoridade monetária. Sem ela, pairaria sempre a dúvida, entre os agentes de mercado, sobre a possibilidade de algum diretor ser demitido, caso oferecesse resistência a pressões políticas. “Não fosse pela autonomia (na lei), as pressões sobre o BC talvez se tornassem difíceis de resistir”, afirmou Senna.

A blindagem deverá ser necessária, pois as pressões políticas virão, disse o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale. Isso porque, afirmou ele, é “muito provável” que o presidente Jair Bolsonaro continue “estressando” as perspectivas econômicas com declarações. “O ruído é inescapável. Esse governo é feito de ruídos. Vai ser difícil isso não chegar ao BC e à política monetária, mas há certo grau de proteção, pela própria lei e pelo ministro (da Economia, Paulo) Guedes, que poderá servir de anteparo”, afirmou.

Silvio Campos Neto, economista sênior da Tendências Consultoria, não vê a elevação dos juros como tema eleitoral. Ele acha que o ciclo de alta acabará em 2022 e que hoje as regras fiscais são mais relevantes no debate político. “No Brasil, na proximidade das eleições, é normal que o BC fique mais afastado e acabe não mexendo muito na política monetária”, disse. /COLABOROU VINICIUS NEDER, DO RIO

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