Publicidade

Campos Neto, pintado como ‘inimigo’, desempata Copom por corte maior de juros e agrada ao governo

Responsável pelo ‘voto de minerva’ no comitê, presidente do BC, alvo de ofensiva de Lula, desempatou o jogo a favor de redução de 0,50 ponto porcentual, para 13,25%

Foto do author Thaís Barcellos
Foto do author Eduardo Rodrigues
Por Thaís Barcellos (Broadcast) e Eduardo Rodrigues
Atualização:

BRASÍLIA – Pintado diversas vezes por Lula e seu entorno como “inimigo” número 1 da economia brasileira, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, foi hoje o grande destaque da noite ao se colocar como fiel da balança de um corte inaugural de juros mais agressivo. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central baixou a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual, de 13,75% para 13,25% ao ano, em uma decisão apertada, de 5 votos a 4, e ainda indicou unanimemente que a queda dos juros deve continuar nesse ritmo nas próximas reuniões.

Responsável pelo “voto de minerva” no comitê, Campos Neto desempatou o jogo a favor de 0,50 ponto porcentual e conseguiu colocar a estreia de Gabriel Galípolo e Ailton Aquino, emissários de Lula, no Copom em segundo plano.

Alvo de ofensiva de Lula, Campos Neto desempatou o jogo a favor de redução de 0,50 ponto porcentual da Selic. Foto: Gabriela Biló/Estadão

PUBLICIDADE

Já era altamente esperado que os dois novos diretores fossem a favor de uma queda mais forte dos juros, como de fato ocorreu. E o mercado esperava ler nesse movimento qual será o impacto da presença dos indicados pelo governo nas decisões do comitê, especialmente porque, nos bastidores, Galípolo, que era número 2 de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, é cotado para assumir a presidência do BC quando o indicado por Jair Bolsonaro sair de cena.

O Copom também decidiu retirar o “perigo fiscal” do caminho, apesar de o marco fiscal ainda estar em tramitação no Congresso. Até junho, as incertezas sobre o novo arcabouço fiscal ainda pesavam, mesmo que de forma residual, sobre o balanço de riscos para a inflação. Nesta reunião, foi excluído pelo BC - o que pode ser visto como um aceno ao governo, principalmente a Haddad.

É a primeira vez que o Copom não cita o fiscal no balanço de riscos para a inflação desde março de 2020 – quando a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil. Na ocasião, além de uma série de medidas de liquidez financeira, o BC reduziu a Selic de 4,25% para 3,75%, em meio ao movimento que levou a taxa ao piso histórico de 2,00% em agosto daquele ano.

Imediatamente após a decisão, o BC e Campos Neto colheram a primeira manifestação de trégua de Haddad, que montou um púlpito na porta do seu ministério para demonstrar seu “otimismo” com o resultado da reunião do Copom. “Tenho certeza que o presidente do BC votou com o que conhece em economia, voto técnico e calibrado”, disse Haddad. Houve também elogios do setor produtivo – por meio de notas da CNI, Firjan, FecomercioSP, Febraban, Abras, entre outras entidades.

É verdade que há bons motivos para justificar o corte de 0,50 ponto porcentual. O alívio na inflação tem sido mais consistente, inclusive com melhores leituras de preços e serviços e núcleos, o que foi reconhecido no comunicado. Além disso, as expectativas de inflação, embora ainda desancoradas, baixaram bastante desde a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de manter o alvo central em 3,0%.

Publicidade

Dentre as próprias projeções de inflação do Copom, embora a de 2024, foco atual da política monetária, tenha se mantido em 3,4%, a de 2025, ano para o qual o horizonte relevante caminha, “encontrou” a meta de 3,0%, de 3,1% na reunião de junho. O colegiado ainda acredita em desaceleração da atividade econômica ao longo dos próximos meses.

Mas, para segurar a ânsia do mercado financeiro – e até mesmo do Planalto e de empresários – após a decisão que surpreendeu parte dos observadores econômicos, o Copom já afirmou que os juros reais no Brasil têm de continuar contracionistas para completar o processo de desinflação.

“O Comitê reforça a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, disse, no comunicado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.