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Quase metade dos CEOs de saúde do Brasil vê inviabilidade dos negócios em 10 anos, mostra pesquisa

Número representa aumento de quinze pontos percentuais em relação ao ano anterior; demanda deve crescer com o envelhecimento da população

Por Isabela Moya
Atualização:

Quase metade (42%) dos CEOs de empresas de saúde do Brasil acreditam que seus negócios não serão economicamente viáveis por mais de 10 anos. O salto foi grande em relação ao ano anterior, quando 27% dos presidentes de operadoras de saúde, hospitais, farmacêuticas e laboratórios compartilhavam dessa visão.

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Os dados são da 27ª edição da CEO Survey, pesquisa anual da PwC, que ouviu mais de 4,7 mil executivos de diversos setores em 105 países, incluindo 32 CEOs de empresas de saúde do Brasil, no último trimestre de 2023.

Marcos Novais, superintendente executivo da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), corrobora com a visão ilustrada na pesquisa de que o modelo atual da saúde suplementar (o sistema privado de saúde) brasileira não é sustentável no longo prazo, mas acredita que em 10 anos o modelo não será o mesmo e já terá evoluído para um sistema economicamente mais viável.

Ele admite que no futuro a demanda será maior por causa do envelhecimento populacional, o que consequentemente gera a necessidade de uma oferta maior de serviços de saúde. No entanto, na visão de Novais, isso não significa que a expansão será proporcional, mas que a tecnologia auxiliará a um uso mais racional dos recursos já existentes.

“Daqui a 10 anos, a demanda de saúde será maior do que a de hoje, o que estimula a uma oferta maior, mas talvez não precise de mais UTIs do que tem hoje, mas de outras coisas que não temos, como centros pra cuidados continuados, modelos de atenção primária, mais tecnologia”, exemplifica. “Vamos olhar para trás e nos perguntar por que atuávamos dessa forma que atuamos hoje.”

Dentre os fatores vistos pelos executivos ouvidos na pesquisa da PwC como ameaças enfrentadas pelo setor de saúde os maiores são os riscos sanitários, os riscos cibernéticos e a inflação. A desigualdade social é a última da lista, mas se destaca por ser uma preocupação muito maior das empresas brasileiras de saúde (10%) em comparação com empresas de saúde no mundo (5%) e todos os setores de empresas brasileiras (6%).

CEOs dizem já ter se adaptado aos custos inflacionários Foto: Pixabay

Em relação aos riscos sanitários, a pandemia de covid-19 foi claramente um ponto de virada para o setor de saúde. Bruno Porto, sócio e líder da indústria de Saúde da PwC, menciona ainda o avanço da dengue no momento atual. Já sobre os riscos cibernéticos, ele diz que muitas empresas já estão atentas ao tema, após o setor sofrer alguns ataques. Ao mesmo tempo, saúde tem menor vulnerabilidade em termos digitais do que outros setores, pondera.

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Quanto à inflação, ele diz que as empresas brasileiras já tem reagido e conseguido repassar os custos inflacionários, com reajustes elevados. Vale lembrar que a inflação de saúde é historicamente superior à inflação média do Brasil. Novais, por sua vez, argumenta que a inflação não é risco. “É consequência das escolhas que fazemos”, diz ele, referindo-se ao aumento geral dos custos pelo uso indevido dos planos de saúde, como por exemplo para fins estéticos.

Apesar das dificuldades, Porto também diz que o setor de saúde não vai falir. “Não acontece uma ‘quebradeira’ como no setor financeiro, em que as pessoas tiram dinheiro do banco e o sistema colapsa”, diz. “A saúde suplementar cresceu em vidas e en receitas, mas não na mesma proporção. O setor não quebra, mas começa a ficar mais lento, complexo e de difícil acesso.”

Mesmo com a clara necessidade de reinvenção do setor, as empresas relatam inibidores para tal movimento: existem prioridades operacionais concorrentes - como as fraudes e a judicialização, cita Porto, “que oneram tempo e recurso para o setor ter visão de futuro”. O ambiente regulatório, falta de competências na força de trabalho da empresa, falta de recursos tecnológicos e falta de apoio dos steakholders internos foram identificados pela PwC como impeditivos para a reinvenção na saúde.

“O setor de saúde é conservador, avesso a eficiências operacionais, cortes de custos. As mudanças de custos de outros setores não funcionam em saúde, pela cultura e falta de consenso do setor”, diz.

Sem investimento estrangeiro

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Na visão dos líderes das empresas de saúde no mundo, o Brasil, que na edição anterior da pesquisa dividia o 5º lugar com França e Japão, passou para o 9º lugar na lista dos mercados considerados mais relevantes para o crescimento das empresas do setor.

Segundo Porto, o Brasil perdeu a atratividade para investidores estrangeiros por fatores como o “custo Brasil” e a complexidade de tributação. Dentro das indústrias de saúde é possível observar os reflexos desse panorama na ausência de presença estrangeira. Depois que a UHG vendeu a Amil, “não tem mais nada em vista no setor”, ele diz, referindo-se a possíveis investidores estrangeiros vindo operar planos de saúde, hospitais ou laboratórios no País.

País não tem atraído investimento estrangeiro; última multinacional, a UHG, vendeu a Amil Foto: Amil/Divulgação

“O investimento em saúde parte de dentro do próprio Brasil. Temos de achar a solução com o dinheiro aqui dentro. Talvez com apoio governamental com o Complexo Industrial da Saúde”, afirma.

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A exceção dentro do setor são as farmacêuticas, ele diz. No entanto, apenas para distribuição de medicamentos no Brasil, não para uma produção por aqui.

Novas rotas e a tecnologia

Um claro sinal da crescente necessidade de reinvenção da indústria de saúde brasileira é, de acordo com a pesquisa da PwC, o aumento da pressão que os CEOs esperam enfrentar nos próximos três anos por mudanças no modelo de negócios. Em comparação com os últimos cinco anos, tanto no Brasil como no mundo, eles preveem que alterações associadas à tecnologia, à regulação governamental, à concorrência e a mudanças nas preferências dos consumidores e na demografia terão impacto muito maior na forma como criam, entregam e capturam valor.

“A expectativa é de que a regulação do setor é fator de mudança significativo para a geração de valor. As ações da concorrência se refletem nas verticalizações societárias e operacionais e nas consolidações. O envelhecimento populacional (é outro sinal), com um programa de prevenção cada vez mais cedo”, afirma Porto.

Sobre tecnologia, o destaque fica para o uso de inteligência artificial (IA) generativa, que, na visão das empresas, pode gerar um impacto positivo na eficiência de trabalho, na lucratividade e na receita. Por outro lado, a tecnologia gera preocupações nos entrevistados quanto a segurança cibernética, divulgação de desinformação e responsabilidades legais.

Examinando especificamente a IA generativa, a pesquisa aponta que a adoção dessa tecnologia é capaz de “mudar completamente a operação das empresas”, e a adaptação da estratégia tecnológica para lidar com a inovação que ela representa no País está acima do registrado para o recorte global do setor.

Como exemplos de formas em que a IA pode auxiliar no aumento de eficiência e consequente redução dos custos dos tratamentos, o diretor da Abramge cita o uso da IA com o objetivo de melhorar o diagnóstico, com tendências como exames que serão “laudados” por softwares (com supervisão médica).

Novais destaca ainda o Open Health - integração dos prontuários e históricos dos pacientes entre os diversos estabelecimentos de saúde -, considerado por ele como a tecnologia que mais deve favorecer a sustentabilidade do setor no curto prazo. “Precisamos investir no que afeta o maior número de pessoas”, diz o executivo, referindo-se ao amplo impacto da tecnologia. “Poderia economizar uma infinidade de exames, evitar complicações, direcionar ao melhor encaminhamento, então torna o atendimento mais rápido”.

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Já o presidente da Unimed Brasil, Omar Abujamra Junior, relata a experiência da empresa com IA: “Diversas cooperativas já estão usando big data, machine learning e outras tecnologias - na operação, entram na automação e melhoria de processos, como no combate a fraudes, enquanto na gestão clínica entram no mapeamento de risco das carteiras, na definição de linhas de cuidados prioritários, no monitoramento de pacientes hospitalizados e com doenças crônicas e na telemedicina”.

No entanto, Porto argumenta que apenas investir em tecnologia não é o suficiente para transformar os negócios. “Muita gente colocou dinheiro em tecnologia, mas isso não transformou o negócio. Tecnologia sem trazer pessoas juntos e mudar a cultura (não adianta)”, lembra.

Mais receita e mais direcionamento

Em busca da sustentabilidade econômica, há uma grande “força” do setor de saúde para gerar mais receitas, repassar aumentos e pensar em novos modelos de negócio mais sustentáveis, segundo o líder de saúde da PwC. As empresas têm promovido reajustes altos para trazer caixa e têm atacado despesas assistenciais.

No entanto, o esforço para o aumento de receita de todos os lados tem gerado choques entre operadoras de plano de saúde e prestadores de serviço (majoritariamente hospitais e laboratórios de medicina diagnóstica). “É uma batalha entre hospitais e operadoras, cada um tentando aumentar suas receitas, com repasses, e procurando driblar seus desafios”, relata.

Considerando o horizonte de 12 meses, 61% dos CEOs do setor de saúde no Brasil mantiveram as perspectivas de crescimento de receita de suas próprias empresas, mostrou a pesquisa. “Essa vai ser a toada nos próximos três anos, o setor tentando buscar seu equilíbrio. Precisa financiar mais a saúde suplementar através do aumento de receita”, conclui o sócio da PwC, dizendo que espera reajustes de cerca de 20%, 25% no setor, justamente com o objetivo de recompor as receitas e sair de atual zona de perigo.

“A saúde suplementar atravessa um período de forte desequilíbrio, que já vem se estendendo desde o final de 2021 em termos dos resultados econômico financeiros, portanto é um sinal claro de alerta de que precisamos de ajustes. Desde a pandemia houve aumento no patamar de utilização e custos dos serviços de saúde”, destaca Abujamra Jr. “Os custos assistenciais tem crescido mais rapidamente do que a receita e o resultado operacional do setor como um todo tem sido afetado há pelo menos 9 trimestres seguidos.”

O presidente da Unimed observa que a falta de previsibilidade da operação de planos de saúde - devido a questões como alto índice de judicialização e incorporação de tecnologias de altíssimo custo - tem gerado reajustes altos para compensar a insegurança e aumentar as receitas. Ele avalia que tais reajustes “podem se tornar insustentáveis para uma parcela das famílias e das empresas contratantes, criando uma barreira de acesso” à saúde no País.

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O setor precisa de previsibilidade, diz o executivo, que define três pilares: segurança assistencial, para garantir que beneficiários tenham acesso às coberturas contratadas; segurança jurídica para mitigar a judicialização e a instabilidade regulatória a partir de regras claras com previsão de direitos e obrigações para todos os envolvidos; e segurança financeira para garantir atendimento dos beneficiários a um preço que as famílias e empresas possam pagar e de forma sustentável para as operadoras.

Contudo, Porto afirma que o problema vai além de questões regulatórias, enfatizando as dificuldades financeiras do setor. “Se você pergunta (aos CEOS do setor de saúde) se tirar todas as fraudes e judicializações vai resolver o problema, a resposta é não”, afirma. “Por isso, com problemas de caixa, as operadoras estão estendendo o prazo de pagamento e descredenciando hospitais, enquanto os prestadores (hospitais e laboratórios) também lutam para resolver o seríssimo problema de caixa que enfrentam”, ele relata, citando ainda os movimentos de verticalização como outro caminho encontrado pelas operadoras.

O CEO da Unimed e o diretor da Abramge mencionam ainda a necessidade de um melhor direcionamento dos pacientes para redução de gastos desnecessários. Isso deve ser feito, segundo eles, por meio de programas de promoção à saúde e prevenção à doença e de modelos de atenção especializados.

A Unimed relata iniciativas de gerenciamento de doenças crônicas, atenção primária, atenção ao idoso, prevenção e tratamento de câncer, centros especializados em terapias especiais, programa de saúde mental e de saúde materna e infantil. Esse são alguns exemplos dos tais modelos de atenção especializados, que basicamente são uma jornada de atendimento com padronização para determinados casos semelhantes. O objetivo de otimizar o tratamento definindo qual o tipo de profissional irá atender, as diretrizes de tratamento e o percurso assistencial para o serviço mais adequado. “Nem menos, nem mais. O necessário para a sua condição de saúde”, diz Abujamra Jr.

“Os modelos de atenção primária estão sendo testados. Hoje temos poucos. Antes, a saúde suplementar era um cartão de acesso ao sistema de saúde sem limitação, cobre uma infinidade de coisas, e aí vem toda uma regulamentação, mas continua com muito acesso, pode fazer 10 consultas diferente com a mesma especialização. Isso não irá mais acontecer, vamos tentar entender o que está acontecendo com o paciente (que realiza diversas consultas sem orientação), oferecer uma linha de cuidado. Muitas pessoas usam o sistema muito mais do que deveria, o que encarece”, acrescenta Novais.

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