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É preciso falar em política industrial para ajudar a indústria brasileira a sair do ostracismo

Neste novo ambiente global, temos que acabar com o tabu de que política industrial é coisa da esquerda

colunista convidado
Foto do author Claudio  Adilson Gonçalez
Por Claudio Adilson Gonçalez
Atualização:

Entre 1990 e o final da primeira década do século 21, houve uma imensa expansão das correntes de comércio internacional. Em busca da eficiência, as indústrias horizontalizaram suas produções por todo o globo. Isso deu origem a sofisticadas cadeias globais de suprimento, que possibilitaram enormes avanços da produtividade e do desenvolvimento tecnológico.

O Brasil ficou fora desse jogo. Aqui ainda imperavam o protecionismo, as reservas de mercado e os subsídios e benefícios fiscais para os setores com maior poder de pressão em Brasília. Com péssima qualidade da infraestrutura, mão de obra mal preparada, um sistema tributário caótico e baixíssimo montante de investimentos públicos complementares, a indústria brasileira, salvo heroicas exceções, foi definhando, perdendo precocemente sua participação no PIB. Isso reduziu a geração de bons empregos urbanos e concorreu para a precarização do nosso mercado de trabalho.

Governo precisa estar presente, junto com o setor privado, na coordenação das ações da nova política industrial.  Foto: Werther Santana/Estadão

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Ocorre que a economia mundial está se modificando dramaticamente. Desde 2010, os movimentos contra a globalização começaram a crescer nos países desenvolvidos, com grande apoio político, dado que, enquanto a Ásia prosperava, alguns setores tradicionais sofriam a concorrência global e muitos trabalhadores braçais perdiam seus empregos.

Mais recentemente, o processo de globalização perdeu ainda mais força, em virtude de vários fatores, tais como a percepção de que partes importantes da cadeia de suprimentos estavam localizadas em países dirigidos por autocratas e sujeitos a instabilidades políticas (a invasão da Ucrânia pela Rússia é o mais dramático exemplo), desastres naturais que geraram rupturas e a escassez provocada pelas turbulências da pandemia.

Nos Estados Unidos, com apoio bipartidário, o Congresso acaba de aprovar lei com dotação de US$ 280 bilhões para estimular a indústria e o desenvolvimento tecnológico na maior ação de política industrial da história norte-americana. Políticas de autossuficiência energética e de insumos também se desenvolvem na Europa e até mesmo na Ásia.

Neste novo ambiente global, temos que acabar com o tabu de que política industrial é coisa da esquerda, e pensarmos em ações que ajudem a indústria brasileira a sair do ostracismo.

Não se trata de subsídios, protecionismo e balcão de negócios. A precondição para salvar a indústria é um ambiente macroeconômico estável, o fim do caos tributário – principalmente na tributação sobre o consumo –, a recuperação do investimento público complementar ao privado, uma política ambiental que seja respeitada internacionalmente e acordos bilaterais de comércio em lugar de abertura unilateral e rápida.

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O governo (sim, o governo) precisa estar presente, junto com o setor privado, na coordenação das ações da nova política industrial. E a palavra de ordem tem que ser desenvolvimento tecnológico e inovação.

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