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Bastidores do mundo dos negócios

Americanas piora seca do mercado e bancos de investimento têm novo tombo na receita

Expectativa é que queda dos juros ajude destravar emissões

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Foto do author Altamiro Silva Junior
Foto do author Cynthia Decloedt
Foto do author Matheus Piovesana
Por Altamiro Silva Junior, Cynthia Decloedt e Matheus Piovesana
Evento da Americanas aprofundou seca do mercado. FOTO TABA BENEDICTO / ESTADAO Foto: TABA BENEDICTO / ESTADAO CONTEUDO

A expectativa de que o mercado de capitais fosse se recuperar no começo de 2023 não se confirmou. Pelo contrário: a seca de operações se prolongou diante da crise da Americanas, e os bancos de investimento amargaram nova queda de faturamento, após o tombo no quarto trimestre de 2022. No Bradesco BBI, as receitas de banco de investimento caíram 17% no primeiro trimestre na comparação com igual período do ano passado, enquanto no BTG cederam 26% e no Itaú BBA recuaram 14%. Sem ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), mercado de renda fixa parado e fusões em desaceleração, a aposta dos banqueiros agora é que o Banco Central comece a cortar os juros no segundo semestre e ajude a reanimar o ambiente de negócios.

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Junto com os números fortes de emissões no mercado brasileiro, os bancos vinham batendo recorde nos últimos dois anos. O primeiro trimestre deste ano jogou um balde de água fria nesse ritmo. “Em 2021 tínhamos batido recorde e em 2022 batemos novamente, mas esse mercado sofreu um choque com o evento da Americanas”, diz o CEO do BV (ex-Votorantim), Gabriel Ferreira.

Outro fator que pesa é a alta dos juros, que ampliou os prêmios cobrados pelos investidores e reduziu a demanda por parte das empresas. Entretanto, os bancos também afirmam que as companhias continuam refinanciando compromissos, mas ao invés de fazerem emissões de papéis no mercado, estão tomando empréstimos bancários. O que muda, portanto, é a fonte dos recursos, que deixa de ser o mercado e passa a ser o balanço das instituições.

Outras linhas ajudaram a reduzir a queda com as emissões

No BTG, parte da contração com emissões no mercado de capitais foi compensada pela melhora da receita em segmentos como empréstimos corporativos, que cresceu 46%, e gestão de recursos, com expansão de 41%. “Desde o anúncio da fraude no balanço das lojas Americanas, todo mundo notou que o nível de atividade no mercado de DCM [emissão de dívida] se reduziu significativamente e isso impactou os nossos resultados”, contou o diretor financeiro do banco, Renato Cohn, na teleconferência de resultados.

O presidente do Itaú, Milton Maluhy, afirmou que os balanços dos bancos “nunca foram tão importantes” para refinanciar os compromissos das empresas, embora o banco, líder no segmento de banco de investimento, ainda veja demanda desaquecida. “Vemos muitas empresas precisando de refinanciamento”, afirmou ele.

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Mercado já prevê nova leva de emissões

O BTG prepara de “10 a 15″ emissões de empresas de dívida, segundo Cohn, mas a dúvida reside no apetite dos investidores. “Em meados de janeiro sabíamos que dificilmente o mercado absorveria novas operações, agora já sabemos que absorve, só não sabemos quanto.” Em M&A (fusões e aquisições0, ao contrário de outros bancos, o BTG teve receita recorde nos primeiros três meses de 2023 e segue trabalhando em operações que virão a mercado nos próximos trimestres.

O banqueiro Ricardo Lacerda, fundador do BR Partners, classifica o ambiente atual como “desafiador e difícil”, mas longe de ser “ruim” como estava na época da crise política que desencadeou o impeachment de Dilma Rousseff. Alguns negócios tiveram retração importante, como as ofertas de títulos de dívida, mas o executivo diz que outras oportunidades surgiram.

No caso do banco, o aumento de assessorias a reestruturação de dívidas de empresas em dificuldade ajudou a compensar parte da piora das receitas, que na área de banco de investimento do BR Partners foi de 24% em 12 meses.

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