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Bastidores do mundo dos negócios

Huawei vê menor pressão sob Lula e prepara expansão das fábricas no Brasil

Empresa planeja ampliar a unidade de Jundiaí (SP), onde produz antenas para o 5G, e a de Manaus (AM), voltada para banda larga e fibra ótica

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Por Circe Bonatelli (Broadcast)

A fabricante chinesa de equipamentos de telecomunicações Huawei tem planos de expandir a suas fábricas no Brasil e estreitar a cooperação com o governo federal em projetos para digitalização do País. A visão mais construtiva foi consolidada pela viagem do presidente Lula e sua comitiva à China na semana passada, incluindo uma visita ao Centro de Pesquisa da companhia em Xangai.

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Os temas espinhosos ficaram de fora da agenda. Ninguém falou sobre o fato de o governo dos Estados Unidos ter banido a empresa do país sob acusações de espionagem, além de pressionar aliados como Canadá e Reino Unido a fazerem o mesmo. O tema reverberou por aqui durante o governo Bolsonaro, que considerou impedir a Huawei de fornecer suas redes para o 5G, o que não se concretizou por pouco.

“Em momento algum da visita foi citado esse tema”, afirmou o vice-presidente de Relações Públicas da Huawei para América Latina e Caribe, Atilio Rulli, que fez parte do grupo de executivos que acompanhou a comitiva brasileira em Xangai. “Não fomos demandados sobre esse tipo de pergunta. Estávamos prontos para responder, mas não tivemos essa demanda. Apenas falamos que reforçamos nossos investimentos em cibersegurança e governança”, disse, em entrevista ao Broadcast.

Na visão de Rulli, o clima mais amigável da visita pode ser interpretado como um sinal de que a Huawei não terá pedras no seu caminho durante o governo Lula, ao contrário do que foi visto nos tempos de Bolsonaro. “As percepções são diferentes. Todo governo tem a preocupação com o armazenamento de dados e as políticas de acesso, principalmente quando se trata de dados públicos. Mas essa preocupação em alguns governos é mais técnica, enquanto em outros ela vem de terceiros, sem fundamento, como no governo anterior”, alfinetou.

Lula e comitiva durante visita ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Huawei, em Xangai  Foto: Ricardo Stuckert

O vice-presidente regional antecipou ao Broadcast que a Huawei dará início a um plano de expansão das suas operações no Brasil. “Nem tudo que vendemos aqui é produzido aqui. E nós temos previsão de aumentar a produção local”, disse. O primeiro passo será expandir, provavelmente já neste ano, a fábrica de Jundiaí (SP), onde produz antenas para o 5G e outros equipamentos para redes móveis. Depois será a vez de ampliar a fábrica de Manaus (AM), voltada para banda larga e fibra ótica.

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Empresa investiu R$ 250 mi em P&D no País em 10 anos

A Huawei está no Brasil há 25 anos, tem cinco escritórios (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Recife), além de um centro de distribuição nacional em Sorocaba (SP). Ao todo, emprega 1.000 pessoas diretamente. Segundo a companhia, foram investidos aqui R$ 250 milhões em pesquisa e desenvolvimento nos últimos 10 anos. Já os impostos pagos totalizaram R$ 1,6 bilhão só em 2022.

O grupo não revela a receita por País, mas o Brasil é o principal mercado do continente. Figura, aliás, entre os mercados considerados âncoras pela multinacional, além de China, Coreia do Sul e Rússia, entre outros. Um potencial veto à Huawei foi motivo de reclamação das teles locais nos últimos anos, que temiam gastos bilionários para a substituição das redes e a subida de preço com a concentração do mercado nas mãos da sueca Ericsson e da finlandesa Nokia. Por aqui, a Huawei atende TIM, Vivo, Claro e Oi, além de companhias de outros setores, como Itaú e Vale.

Essa possibilidade, entretanto, parece bem longe. No fim da viagem à China, o próprio presidente Lula afastou a hipótese de permitir interferência de outros países por aqui. “O Brasil tem de procurar seus interesses, tem de ir atrás daquilo que ele necessita e fazer acordos possíveis com todos os países”, afirmou o presidente. “Não temos escolhas políticas, escolhas ideológicas”, completou.

Empresa sugere que Brasil se espelhe na China para se digitalizar

Em sua passagem pelo Centro de Pesquisa da Huawei, em Xangai, a comitiva do presidente Lula conheceu as inovações da gigante chinesa de tecnologia e ouviu sugestões de como o Brasil poderia seguir o país asiático para se transformar em uma “nação digital”.

Lula esteve na Huawei com cerca de 80 pessoas, incluindo sete ministros: Fernando Haddad (Fazenda), Juscelino Filho (Comunicações), Marina Silva (Meio Ambiente), Luciana Santos (Ciência e Tecnologia), Mauro Vieira (Relações Exteriores), Margareth Menezes (Cultura) e Paulo Teixeira, (Desenvolvimento Agrário); e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

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O anfitrião da empresa foi o presidente do conselho, Liang Hua. Na visita, foram apresentados os equipamentos de banda larga fixa e móvel da companhia, as últimas novidades do 5G e exemplos de como a internet rápida pode ser aplicada em projetos de saúde, educação, mineração, entretenimento, mídia, indústria e logística. Lula vestiu um óculos de realidade virtual que simulou um passeio de montanha russa e a exploração de minério por escavadeiras controladas à distância.

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A Huawei também apresentou um aperitivo do plano do governo chinês para digitalizar o país, ou seja, garantir a internet rápida para diferentes setores, desde escolas até transportes. A China tem, por exemplo, 2 milhões de estações rádio base (ERBs, conjunto de equipamentos que reúnem antenas e torres) para propagar o sinal de internet. No Brasil, são cerca de 100 mil. Com isso, o país tem liderado a corrida pelo 5G. Mais de metade do total de celulares do mundo todo com acesso ao 5G está lá.

Fabricante quer ser fornecedora de soluções

“A China quer ser uma nação digital. Tem uma união de grandes políticas públicas para que o país esteja preparado para a economia digital”, disse Atilio Rulli. “A construção de ferrovias e rodovias já vem com obrigação de fazer dutos para passagem de fibra ótica. É o conceito da conectividade em todos os lugares”, exemplificou.

Foi aí que a Huawei procurou vender seu peixe como fornecedora de soluções, já que o projeto de ‘nação digital’ abrange a construção da infraestrutura de redes até a contratação de serviços de armazenamento de dados na nuvem. O encontro terminou sem um acordo comercial firmado, mas não havia a expectativa de que isso acontecesse imediatamente, ponderou o vice-presidente.

Em vez disso, foi firmado memorando de entendimento entre os governos de Brasil e China para dar andamento a fazer visitas técnicas, seminários e trocas de informação nas áreas de comunicação sem fio, computação em nuvem, big data, inteligência artificial, internet das coisas e tecnologias para indústria, educação, saúde e meio ambiente.

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Estas notas foram publicadas no Broadcast no dia 18/04/2023, às 08h30

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