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Bastidores do mundo dos negócios

ONG apresenta na COP relatório de resposta a desmatamento no País

Entidade rastreou origem da carne vendida em lojas de grandes redes de supermercado do País

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Por Cristiane Barbieri
Atualização:
ONG constatou que mais da metade dos produtos analisados estavam ligados a casos de desmatamento. Foto: DANIEL TEIXEIRA

A ONG Mighty Earth apresentará nesta sexta, na COP-28, a segunda fase do projeto de resposta rápida ao desmatamento que, segundo eles, está ligado a cadeias de commodities de companhias globais do agronegócio. No evento, serão mostrados dados referentes à cadeia da carne, sendo que a metodologia para rastreamento da soja ainda está em desenvolvimento. Segundo João Gonçalves, diretor Brasil da Mighty Earth, o relatório mostrou que “59% dos produtos de carne (de uma amostra recolhida este ano por voluntários da ONG) estavam conectados com o desmatamento de 546 mil hectares, entre 2009 e 2023″. No levantamento, estão incluídos tanto desmatamentos legais quanto ilegais.

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Voluntários da ONG recolheram os números de SIFs (Selos de Inspeção Federal) de 1009 peças de carne in natura, em 71 lojas dos grupos Carrefour, Pão de Açúcar e Sendas (Assaí) em 11 Estados, entre os dias 28 de junho e 7 de outubro de 2023. Com o SIF inserido no aplicativo do Pasto ao Prato (dPaP), chegaram ao abatedouro e, por meio de Guias de Transporte Animal (GTAs), rastrearam os animais até as propriedades.

Após analisar o CAR (Cadastro Ambiental Rural) das fazendas, a ONG diz ter constatado que “549 produtos estavam ligados a casos de desmatamento” promovidos entre 2009 e 2023. De acordo com Gonçalves, 36 abatedouros que fizeram desmatamentos no passado prestaram serviços para JBS, Minerva e Marfrig, que, por sua vez, vendem os produtos às varejistas.

A ONG também usou dados de setembro e outubro deste ano, do INPE, que mostraram o que seria desmatamento em “tempo real” em propriedades no Amazonas e no Cerrado, e questionou as empresas sobre ações em relação a isso. Pretende fazer isso trimestralmente, com a próxima divulgação da pesquisa marcada para março e, assim, conseguir respostas rápidas das companhias.

A Mighty Earth diz não conseguir dizer qual a proporção das áreas desmatadas ilegalmente. “A diferença entre desmatamento legal e ilegal vem perdendo força”, diz Gonçalves. “Com o aquecimento global, é difícil para o Brasil sustentar no exterior qualquer desmatamento, mesmo que ele seja feito dentro da lei.”

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As empresas mencionadas dizem não compactuar com práticas e desmatamento e “empreender grandes esforços para combatê-lo”, incluindo o uso das tecnologias mais modernas disponíveis no monitoramento à cadeia de fornecedores. Também que qualquer um deles que não cumpra as exigências legais é bloqueado imediatamente de sua base e analisado em profundidade, mesmo procedimento adotado após denúncias que cheguem por outros meios como ONGs. Porém, após terem sua situação ambiental e legal regularizada, podem voltar a vender às companhias.

Algumas empresas criticam o fato de o levantamento pegar uma amostra pequena e recente de carnes in natura e vinculá-la ao desmatamento por um longo período de tempo porque mudanças na área são frequentes. Também que a base de dados é reduzida e simplificada, carrega erros e não mostra a situação atual do setor.

A JBS afirmou, por meio de nota, que “todos os cinco casos que seriam da cadeia da JBS comprovam os equívocos nas apurações da ONG. Três dos produtores citados sequer são ou foram fornecedores da JBS. Em relação aos demais, os registros de possível irregularidade ambiental ocorreram depois das alegadas compras realizadas pela companhia. Ou seja, no momento das negociações não havia qualquer impedimento. Isso demonstra com clareza a fragilidade da análise da ONG e que, portanto, qualquer conclusão a partir dela é equivocada”.

Por meio de nota, a Minerva Foods disse que em uma das propriedades nas quais o Mighty Earth afirma serem suas fornecedoras “não foi constatada nenhuma restrição no momento da comercialização com a companhia, sendo a última ocorrida em 2021″. Já em relação à segunda propriedade “foi realizada criteriosamente uma busca dentro da base de registro da Minerva Foods, utilizando-se do nome da propriedade, município e Estado de localização”, sendo que ela não aparece no sistema de cadastro da Minerva e, portanto, “não possui qualquer comercialização com a companhia”, que não usa fornecedores ou abates terceirizados.

Já a Marfrig afirmou que, em relação às fazendas citadas no relatório, “à época de todos os abates, as fazendas encontravam-se em conformidade com os compromissos da empresa.” Também que as informações detalhadas e complementares foram respondidas para a Mighty Earth.

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As produtoras de carne completaram as respostas com políticas internas e procedimentos que adotam em relação ao tema. A Minerva diz usar monitoramento geoespacial em 100% de seus fornecedores diretos em todos os biomas nos quais atua no Brasil no Paraguai, e na Colômbia e que o objetivo é “alcançar a mesma abrangência nos demais países na América do Sul”.

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De acordo com a empresa, o sistema de monitoramento dos fornecedores diretos é auditado e supervisionado pelo Ministério Público Federal e “obtiveram 100% de conformidade nas auditorias feitas”. “Todos os critérios socioambientais do Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado na Amazônia foram cumpridos, e auditados pela empresa Grant Thornton Brasil. A companhia também alcançou, em mais um ano, 100% de conformidade na auditoria do Compromisso Público da Pecuária, assinado em 2009, com resultado auditado pela BDO RCS Auditores Independentes”.

Além disso, em 2021, desenvolveu, em parceria com a Niceplanet Geotecnologia, o aplicativo SMGeo Prospec, fornecido a produtores rurais que podem consultar a conformidade de sua cadeia de abastecimento. “O aplicativo permite aos produtores realizarem pesquisas detalhadas, com acesso a dados históricos e análises de conformidade socioambiental, os auxiliando no mapeamento de riscos antes de realizar qualquer comercialização”, escreve a Minerva.

Já a Marfrig disse, em nota, que “as alegações do relatório da Mighty Earth atribuídas à companhia não refletem a realidade da sua atuação” e que mantém “rigorosa política de compra de animais e um protocolo com critérios socioambientais e procedimentos que são pré-requisitos para homologação de seus fornecedores de animais”.

“Desde 2009 a Marfrig assumiu, com o Greenpeace, o compromisso público de combate ao desmatamento. No ano seguinte, a companhia passou a monitorar, via satélite e em tempo real, uma área de cerca de 25 milhões de hectares, o que equivale a um território similar ao do Estado de São Paulo ou do Reino Unido. Por meio deste monitoramento via satélite diário, a empresa cruza dados das propriedades com bases públicas para verificar eventuais não conformidades com os compromissos da empresa. Ampliando o escopo desse trabalho, em 2020 a Marfrig lançou o Programa Verde+, com objetivo de tornar sua cadeia de fornecimento mais sustentável e livre de desmatamento”, escreveu a empresa.

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Como resultado, a empresa também diz monitorar 100% dos fornecedores diretos de todas as regiões brasileiras. “No setor de carne bovina, a companhia alcançou as maiores taxas de monitoramento de fornecedores indiretos, um dos principais desafios da pecuária: 85% no bioma Amazônia e 71% no bioma Cerrado. Inclusive, a empresa antecipou para 2025 a meta de alcançar 100% de rastreabilidade de sua cadeia de fornecimento”, afirmou.

Como a Minerva, a Marfrig diz ainda seguir o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado na Amazônia, que rege o setor pecuário no bioma e assinado com MPF e “que se aplica a toda empresa do setor de carne bovina que opere dentro ou que adquira matéria-prima proveniente da Amazônia Legal. A auditoria de terceira parte obteve 100% de conformidade, apresentada pelo próprio MPF”.

As redes varejistas responderam com procedimentos que caminham no mesmo sentido. O GPA diz ter uma política de compras de carne bovina desde 2016 que “determina processos, critérios e parâmetros socioambientais para todos os fornecedores de carne in natura do grupo, alinhados ao Protocolo Boi na Linha, criado pela ONG Imaflora em parceria com o MPF”.

“Com base nestas diretrizes estabelecemos um rigoroso protocolo de homologação, monitoramento e rastreabilidade da carne vendida em nossas lojas que é sistematicamente checado, por uma empresa terceira, por meio do envio de evidências que comprovem o alinhamento, o comprometimento e a aderência de todos os fornecedores”, escreve a rede. Além do geomonitoramento obrigatório feito pelos fornecedores, “o GPA reanalisa todas as fazendas. Em caso de suspeita de não conformidade, a fazenda é bloqueada até envio de documentação que comprove falso-positivo.” Em relação ao estudo da Mighty Earth, “a companhia não teve acesso ao material e, portanto, não pode se manifestar a respeito.”

Já o Carrefour afirmou, também em nota, discordar “veementemente da Mighty Earth. No que diz respeito ao Carrefour, a cifra de 59% de produtos de carne ligados ao desmatamento é totalmente infundada e baseada em falsas suposições”.

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De acordo com o comunicado, “o Carrefour assegura a vigilância de mais de 30 mil fazendas por ano, por meio de seu sistema de monitoramento geográfico via satélite. Além disso, 100% de nossos fornecedores de carne bovina monitoram e são monitorados e precisam estar em conformidade com nossa política”.

A rede de origem francesa diz ainda saber ser “um desafio ter a totalidade conformidade de fazendas o tempo todo e em todos os lugares no Brasil, e, portanto, o Carrefour utiliza de mecanismos de investigação sistêmicos e aprofundados sempre que um alerta é acionado pelas partes interessadas”.

“Nesse sentido, a Mighty Earth informou ao Carrefour em 16 de novembro sobre um alerta relacionado ao desmatamento ligado a 6 fazendas, das quais parte delas nunca tinham fornecido ao Grupo. O Carrefour iniciou imediatamente uma investigação e suspendeu, de forma preventiva, duas fazendas que demandavam maior aprofundamento”, escreveu a companhia. “É importante observar que esse alerta, que foi o único levantado oficialmente pela Mighty Earth para o Carrefour em 2023, diz respeito a 6 fazendas, de um total de mais de 30 mil fazendas monitoradas pela companhia”.

O Assaí também diz ter bloqueado as relações comerciais com as propriedades mencionadas no estudo. “No Assaí, o acompanhamento de fornecedores é contínuo. Todo o processo de compra de carne bovina é orientado pela Política Socioambiental de Compras de Carne Bovina, que garante o monitoramento da cadeia e zela pelo cumprimento do Código Florestal brasileiro e das legislações vigentes”, escreveu a empresa, em nota.

Ela também diz que 100% dos fornecedores diretos de carne bovina usam sistema de geomonitoramento socioambiental “e nos transmitem informações de rastreabilidade”. Ela também acompanha os critérios do Protocolo Boi na Linha do Imaflora. “O respeito a essas diretrizes é obrigatório a todos os fornecedores de carne e condição para o abastecimento em qualquer uma de nossas lojas. Qualquer não conformidade leva a uma análise do cenário e a definição sobre quais medidas serão aplicadas - que podem ser educativas, corretivas ou punitivas (como o encerramento da parceria comercial)”.

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Esta nota foi publicada no Broadcast+ no dia 06/12/2023 às 19h32

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