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Desigualdade sobe na Ásia com ‘milagre’ econômico, mas não freia alta na renda e redução da miséria

Última reportagem da série publicada pelo ‘Estadão’ mostra que, mesmo com distribuição desigual da riqueza, ganho per capita e qualidade de vida deram um salto na região nos últimos trinta anos

Foto do author José Fucs
Por José Fucs
Atualização:

Na lista dos bilionários de 2023 publicada pela revista Forbes, que inclui 2.640 nomes de 77 países e territórios, com uma fortuna total estimada em US$ 12,2 trilhões (R$ 61 trilhões), a China ocupa um lugar de destaque. Com 495 bilionários, o país é o segundo com mais integrantes no ranking, atrás apenas dos Estados Unidos, com 735.

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Também fazem parte do grupo de super-ricos chineses, embora em escala mais acanhada, cerca de 6,2 milhões de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão (R$ 5 milhões), de acordo com um estudo realizado pelo Credit Suisse, um dos principais bancos internacionais de investimento. É um contingente que coloca novamente a China em segundo lugar na lista dos países com o maior número de milionários, mais uma vez atrás apenas dos Estados Unidos.

A multiplicação de super-ricos chineses, considerada improvável há quase meio século, quando a China começou a liberalizar sua economia após a morte de Mao Tsé-Tung, o líder comunista que assumiu o poder em 1949 e governou com mão de ferro por quase três décadas, reflete um fenômeno que vai na contramão da utopia igualitária pregada nos tempos do Grande Timoneiro – o aumento da desigualdade econômica e social.

Mulher dirige um Porsche numa viela popular em Pequim: apesar da queda recente, a desigualdade na China ainda é maior do que há 30 anos Foto: Fred Dufour

Apesar de a desigualdade na China estar em queda desde 2010, depois de três décadas de alta contínua, ela ainda é maior hoje do que há trinta anos. Segundo o Banco Mundial, a desigualdade medida pelo índice de Gini – que varia de 0 a 100, sendo que 100 representa o maior grau de desigualdade e 0, o menor – aumentou 15,2% entre 1990 e 2020 (último dado disponível). Passou de 32,2 para 37,1, depois de ter atingido o pico histórico de 43,7 em 2010 – no Brasil, para efeito de comparação, o índice de Gini chegava a 48,9 em 2020, 11,8 pontos acima da atual taxa da China.

Como no caso chinês, o aumento da desigualdade ocorreu, em maior ou menor grau, em vários países asiáticos que cresceram em ritmo acelerado e tiveram uma redução extraordinária da miséria. Nove entre 24 países da Ásia Meridional e Oriental e da chamada região do Pacífico com dados disponíveis sobre a questão, incluindo a China, registraram uma alta na desigualdade a partir de 1990. Na Índia, por exemplo, o índice de Gini subiu 7,9%, passando de 31,7 para 34,2. Na Indonésia, o aumento foi de 17,3%, de 32,3 para 37,9. Em Bangladesh, de 15,2%. E, no Vietnã, de 3,1% (veja os mapas).

É certo que, na maioria dos países asiáticos a desigualdade caiu nesse período. Na Tailândia, por exemplo, a queda foi de 22,5%, de 45,3 para 35,1. No Cazaquistão, de 21,5%, e nas Filipinas, de 14,7%. Ainda assim, segundo a quinta edição do estudo Sociedade em Destaque: Asia/Pacífico, produzido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a diferença na distribuição de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres da população era duas vezes maior nos países asiáticos como um todo do que a média dos 38 países desenvolvidos e emergentes que fazem parte da instituição.

“O progresso asiático para melhorar a distribuição de renda foi desigual”, diz o Banco de Desenvolvimento da Ásia (ADB, na sigla em inglês) no livro A viagem da Ásia para a prosperidade, lançado pela instituição em 2020. “Desde os anos 1990, o crescimento rápido e a redução da pobreza foram acompanhados pelo aumento da desigualdade de renda em muitos países.”

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Com esta reportagem sobre a questão da desigualdade na Ásia, chega ao fim a série Os caminhos da prosperidade, dedicada à diminuição da miséria na região, cuja contribuição foi fundamental para a redução extraordinária da pobreza extrema no mundo nas últimas décadas. Lançada pelo Estadão no fim de janeiro, com a publicação de uma reportagem mostrando que os avanços alcançados pela Ásia neste ponto vão além da China e da Índia, a série abordou os casos de Bangladesh, da Indonésia e do Vietnã, que conseguiram tirar dezenas de milhões de pessoas da miséria desde 1990.

Agora, mesmo levando em conta que a desigualdade aumentou em muitos países asiáticos, como mostram os números, não dá para negar que a qualidade de vida melhorou em quase toda a região nesse período, não apenas no aspecto monetário, mas também na chamada “pobreza multidimensional”, que inclui aspectos como saúde e educação.

Graças ao crescimento turbinado de muitos países, com a geração de milhões de empregos, boa parte da população, incluindo os mais vulneráveis, teve um aumento de renda considerável. Só nos últimos 20 anos, a Ásia tirou mais de um bilhão de pessoas da miséria. A população vivendo abaixo da linha de pobreza na Ásia Meridional e Oriental e na região do Pacífico diminuiu de 33,8% para 3,8% do total.

Entre 1990 e 2022, a renda per capita ajustada pela paridade do poder de compra (PPP) dos países da Ásia Meridional multiplicou-se por seis, de US$ 1.249 para US$ 7.824 em valores correntes, conforme o Banco Mundial. Na Ásia Oriental e na região do Pacífico, a rende per capita cresceu quase sete vezes, de US$ 3.235 para US$ 22.324, no mesmo período.

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Com frequência, a preocupação com o aumento da desigualdade acaba ofuscando a prosperidade propiciada pelo crescimento econômico. Em vários países asiáticos, a desigualdade realmente era menor há trinta, quarenta ou cinquenta anos. Só que a miséria era muito maior e havia menos riqueza para distribuir. O bolo não crescia tanto, embora as bocas para alimentar se reproduzissem em progressão geométrica.

Em Bangladesh, por exemplo, onde a desigualdade deu um salto desde 1990, a renda per capita ajustada pelo poder de compra era de apenas US$ 990 em valores correntes em 1990, segundo o Banco Mundial. Em 2022, ela chegou a US$ 7.824. Ao mesmo tempo, quase 40% da população viviam na miséria há trinta anos, com uma renda de menos de US$ 2,15 por dia em valores de 2017, contra apenas 9,6% hoje.

Bem-estar da população

Na Indonésia, aconteceu algo parecido. Apesar da piora na distribuição de renda nos últimos vinte anos, 62,8% da população viviam abaixo da linha de pobreza em 1990, enquanto hoje são apenas 2,5% do total. A renda per capita ajustada pela PPP subiu de US$ 2.920 para US$ 14.250 no mesmo período.

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Além do crescimento da renda, a qualidade vida melhorou em outros aspectos na maioria dos países asiáticos, alavancada pelo crescimento econômico. O avanço foi generalizado, de acordo com o Índice Multidimensional de Pobreza (MPI, na sigla em inglês), criado em 2010 pela Oxford Poverty & Human Development Initiative (OPHI), em parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, que também leva em conta outros fatores que afetam o bem-estar da população, como acesso a combustível para cozinhar, eletricidade e saneamento básico.

Na Índia, por exemplo, havia um total de 645,7 milhões pessoas em situação de pobreza multidimensional em 2006, segundo o estudo. Em 2021, o contingente incluído na categoria havia caído para 230,7 milhões – uma queda de 64,3% em 15 anos. No mesmo período, a taxa de mortalidade infantil caiu de 4,5% para 1,5%, conforme a pesquisa, enquanto a falta de eletricidade nos domicílios, que atingia 29% do total, agora afeta apenas 2,1%. Na área de saneamento, a privação diminuiu de 50,4% para 11,3% das famílias.

No Vietnã, outro caso emblemático, o total de pessoas em situação de pobreza multidimensional caiu 61,2% em sete anos, conforme a pesquisa, de 4,9 milhões em 2014 para 1,9 milhão em 2021. A falta de moradia, que alcançava 3,1% da população agora só atinge 1,2%. Em 2014, 1,2% das famílias vietnamitas não tinham mais do que um bem de consumo como rádio, TV, telefone, computador e moto. Em 2021, esse número havia caído pela metade, para 0,6% do total.

Um indicador semelhante divulgado pelo Banco Mundial, batizado como Medida Multidimensional de Pobreza (MPM, em inglês), que considera a pobreza monetária, as matrículas escolares e os serviços de infraestrutura básica, como eletricidade, saneamento e água potável, mostra resultados parecidos.

Em Bangladesh, segundo a instituição, a pobreza multidimensional diminuiu 65% em 12 anos. Em 2010, ela afetava 31,3% da população. Em 2011, 11,1%. Na Indonésia, 10,2% dos habitantes vivam na pobreza multidimensional em 2015. Em 2022, eram apenas 3%, uma queda de 70,6%. Nas Filipinas, o tombo na pobreza multidimensional em apenas seis anos foi de 67,6%, de 13,6% da população em 2012 para 4,4% em 2018.

Outros termômetros do gênero, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), também divulgado pelas ONU, que leva em conta a expectativa de vida, o tempo de estudo e a renda per capita ajustada pela poder de compra, reforçam os resultados do MDI e do MPM em relação ao progresso alcançado pelos países asiáticos nos últimos anos.

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A China, por exemplo, subiu 19 posições no ranking do IDH, que engloba 191 países, em apenas seis anos, de 2015 a 2021, e agora ocupa o 79º lugar. Bangladesh e o Uzbequistão, pularam 11 posições, no mesmo período. O Sri Lanka, nove. A Tailândia, seis. Na média, os países da Ásia Oriental e da região do Pacífico tiveram um crescimento anual de 1,27% no IDH. No caso dos países da Ásia Meridional, o aumento médio foi de 1,16% ao ano. As duas regiões tiveram um crescimento no índice bem acima da média global, de 0,64%, e do Brasil, de 0,69%, no período.

Como revelam os dados mencionados acima em relação à Ásia, a prosperidade das nações e a melhora da qualidade de vida da população, tanto no aspecto monetário quanto em outras dimensões, muitas vezes independe de uma distribuição mais igualitária da renda, que está na origem das ideias socialistas e social-democratas e que influenciam em boa medida instituições multilaterais, como o Banco Mundial e a ONU, e organizações como o Fórum Econômico Mundial, mais recentemente.

Se você for atrás das pessoas mais ricas da sociedade, não vai ajudar aqueles que estão na base da pirâmide

Tony Blair,ex-primeiro-ministro do Reino Unido

Em um artigo publicado no site da London School of Economics em 2014, no qual analisa as razões do sucesso alcançado pelo livro O capital no século 21,do economista francês Thomas Piketty, que trata do aumento da desigualdade no mundo, Robert Wade, professor de Economia Política Global na escola, menciona os comentários de dois ex-primeiros-ministros britânicos – Margaret Thatcher (1925-2013), ligada ao Partido Conservador, e Tony Blair, vinculado ao Partido Trabalhista – que se opõem à linha predominante hoje no debate global da questão.

“Se você for atrás das pessoas mais ricas da sociedade, o que vai acabar fazendo, de fato, é não ajudar aqueles que estão na base da pirâmide”, disse Blair, segundo Wade. “É nosso trabalho se destacar na desigualdade e cuidar para que talentos e habilidades sejam estimuladas e se expressem para o benefício de todos nós”, afirmou Thatcher.

Economia saudável

No artigo, Wade cita ainda comentários feitos sobre o tema pelos economistas Robert Lucas, prêmio Nobel de Economia em 1995, e Willem Buiter, seu ex-colega como professor da LSE e ex-economista-chefe do Citigroup, um dos maiores bancos americanos, que vão na mesma direção das afirmações de Blair e Thatcher. “Das tendências que são mais prejudiciais para uma economia saudável, a mais sedutora e, em minha opinião, a mais nociva é focar em questões de distribuição”, disse Lucas. “A pobreza me incomoda. A desigualdade, não”, declarou Buiter.

Embora o crescimento acelerado da economia possa provocar uma maior concentração de renda nas mãos dos mais ricos, ele acaba por levar à prosperidade geral e à redução significativa da miséria, como aconteceu em países da Ásia Meridional e Oriental e da região do Pacífico. nas últimas décadas.

“Historicamente, nada funciona mais que o crescimento econômico para as sociedades melhorarem as condições de vida de seus integrantes, incluindo os mais desfavorecidos”, afirma o economista Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na Universidade Harvard, dos Estados Unidos, em seu livro Uma economia, muitas receitas: globalização, instituições e crescimento econômico.

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O impacto do crescimento da Ásia na redução notável da pobreza extrema na região e na melhoria da qualidade de vida dos mais vulneráveis nos últimos trinta anos, tema da série de reportagens publicada pelo Estadão nas últimas semanas, mostra que a afirmação de Rodrik tem base na realidade. Mesmo que a desigualdade econômica e social tenha aumentado em alguns países da Ásia nesse período.

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