Empresas constroem novas fábricas para produzir ar-condicionado na Zona Franca de Manaus

Bel Micro e Friovix vão disputar mercado de mais de 5 milhões de aparelhos com 13 fabricantes instalados na região; apenas 20% dos domicílios têm esses equipamentos instalados

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Por Márcia De Chiara
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Segundo maior produtor de ar-condicionado no mundo, o Brasil terá mais duas fábricas na Zona Franca de Manaus, a partir do ano que vem. As novas unidades serão construídas pelas empresas mineiras Bel Micro e Friovix, que já atuam no setor como distribuidoras de várias marcas do equipamento.

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O potencial de consumo de aparelhos de ar-condicionado no País, que já era grande, foi turbinado pelas previsões meteorológicas que apontam aumento das temperaturas em razão do fenômeno climático do El niño. Nas últimas semanas, por exemplo, a demanda pelos equipamentos disparou por causa das temperaturas acima de 35º. Em alguns marketplaces, a procura subiu 45% nos dias de maior calor.

De janeiro a novembro, as vendas de aparelhos de ar-condicionado split da indústria para o varejo cresceram 44% em relação a igual período do ano passado, segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava).

Atualmente, a Zona Franca de Manaus é o segundo maior polo de produção de aparelhos de ar-condicionado do mundo. A região concentra a indústria do setor no País, porque oferece benefícios fiscais. Ou seja, reduz a tributação sobre o produto acabado em troca do compromisso de uso de uma parcela de insumos nacionais para impulsionar a região.

Segundo Abrava, a capacidade de produção da região é de cerca de 5 milhões de aparelhos por ano, atrás apenas da Ásia, que chegou a fabricar mais de 130 milhões de unidades.

Segundo o superintendente de Projetos da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), Leopoldo Montenegro, há também outras empresas interessadas em se instalar no polo industrial para produzir aparelho de ar-condicionado. Ele não revela os nomes das companhias porque os processos de autorização são sigilosos. E, no momento, as propostas estão em análise.

Distribuidoras mineiras viram fabricantes

O ponto comum entre as duas novatas na produção de aparelhos de ar-condicionado é que são empresas de Minas Gerais e já atuam no setor como distribuidoras de várias marcas do equipamento.

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A Friovix teve o projeto de produção aprovado em maio deste ano, conforme aponta a ata da 309ª Reunião do Conselho de Administração da Suframa. A companhia vai investir R$ 73 milhões para produzir os modelos split e de parede, com geração de 67 postos de trabalho.

O Estadão apurou que a empresa comprou a fábrica da Komeco, que também produzia aparelhos de ar-condicionado e deixou de operar. Procurada, a direção da Friovix informou que somente dará mais detalhes após a inauguração da fábrica, prevista para março de 2024.

Mais de 1.600 profissionais, entre arquitetos, projetistas e instaladores, já passaram pelo centro de treinamento da Daikin, na Barra Funda, em São Paulo Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Já a aprovação do projeto da Bel Micro é mais recente, de outubro de 2023. “Nosso objetivo estratégico é ter uma fábrica própria em Manaus no próximo ano”, afirma o diretor de operações da Bel Micro, Hermínio Costa.

A empresa vai investir R$ 70 milhões nos próximos cinco anos em uma planta em Manaus. Além de aparelhos de ar-condicionado, a fábrica vai produzir televisores e fornos de micro-ondas, todos com a marca HQ. Hoje as TVs são fabricadas em Minas Gerais.

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A companhia já alugou um galpão no complexo industrial da Hines, na Zona Franca, e os investimentos serão em equipamentos e insumos. A expectativa é iniciar a produção na fábrica própria em meados do ano que vem. O primeiro lote de aparelhos de ar-condicionado, com 30 mil unidades, foi produzido nos dois últimos meses, por uma empresa terceirizada de Manaus.

Quando estiver à plena carga, a expectativa é que a nova fábrica produza 300 mil aparelhos de ar-condicionado por ano. Serão fabricados aparelhos split entre 9 mil e 36 mil BTUs (unidade que indica a capacidade de refrigeração do equipamento), voltados para população de menor renda.

Há dez anos fabricando itens de informática, como computadores, notebooks, tablets, entre outros produtos, e há quatro anos em TVs com fábrica em Minas Gerais, a empresa deve faturar este ano R$ 1,5 bilhão.

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Costa diz que a companhia decidiu ingressar na fabricação de ar condicionado para aproveitar a experiência que tem com os canais de venda, uma vez que a empresa atua na distribuição de outras marcas de aparelhos de ar-condicionado. “A Bel Micro não está entrando no mercado por causa do calor”, afirma.

Ar-condicionado será a nova geladeira?

De toda forma, a perspectiva das mudanças climáticas e, sobretudo, a baixa presença do ar condicionado nos domicílios brasileiros têm atraído novas fabricantes. Segundo a Abrava, hoje apenas 20% das residências têm pelo menos um aparelho em operação, ante 60% na Europa e 70% nos Estados Unidos.

“O ar condicionado vai cair no gosto popular, com certeza”, prevê Arnaldo Basile, presidente da Abrava. Ele compara a importância do produto hoje com a da geladeira 100 anos atrás. Nessa época, o eletrodoméstico não estava presente nas casas dos brasileiros. Atualmente, mais de 90% dos domicílios têm refrigerador. “Daqui a dez, vinte anos mais pessoas vão colocar aparelhos de ar-condicionado nas residências. Por isso, esse é um mercado em expansão.”

Disputa acirrada

A Bel Micro e Frioviz vão concorrer com 13 companhias que produzem aparelhos de ar-condicionado na Zona Franca. As gigantes mundiais do setor, como Gree, Midea Carrier, LG, Samsung, Daikin já têm fábrica no Brasil. Elas foram atraídas pelo grande potencial de crescimento de venda do produto num País tropical, com o clima marcado por grandes oscilações de temperatura.

Um dos traços desse segmento no País é a pulverização da produção. José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, que reúne a indústria de eletroeletrônicos de consumo, observa que, enquanto no mercado de TVs a produção anual de 10 milhões de aparelhos está com cinco indústrias, no ar condicionado são 13 fabricantes para 3,6 milhões de aparelhos (total produzido no ano passado).

Neste ano, as fábricas devem produzir um pouco mais de 3 milhões de aparelhos e o mercado vai vender 4,5 milhões provavelmente, diz Basile. A diferença vem dos estoques que os distribuidores tinham. Por causa da seca, agora a produção de Manaus está muito afetada pela falta de componentes e peças para montar os equipamentos.

Passado esse momento de restrição, a perspectiva, segundo o presidente da Abrava, é que, com a chegada de novas empresas e a reação das fábricas existentes, os volumes produzidos cresçam num ritmo de 10% ao ano. De janeiro a setembro, foram fabricados 2,858 milhões de aparelhos, 17% a mais ante o mesmo período de 2022, segundo a Eletros.

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Universidade do ar-condicionado

A japonesa Daikin, por exemplo, empresa que fatura no mundo US$ 22 bilhões, está no País desde 2010 e com fábrica desde 2014. Como atua no segmento premium, tem apenas 5% de mercado residencial brasileiro. Mas a intenção é ampliar essa fatia, conta o diretor comercial, Júlio Passos.

“O plano até 2030 é estar com a fábrica completamente ocupada”, prevê o executivo. A unidade de Manaus tem capacidade para produzir 500 mil aparelhos por ano e hoje usa 40% do potencial. A companhia pretende lançar produtos com preço médio menor e ampliar a linha, a fim de aumentar a sua fatia num mercado.

A Philco é outra fabricante que planeja aumentar a produção de aparelhos de ar-condicionado. A empresa prevê a contratação de mais de 200 trabalhadores em Manaus, a partir do mês de janeiro de 2024, informa a companhia.

Centro de capacitação

Passos, da Daikin, mede o potencial de crescimento do mercado de ar-condicionado pela grande procura por capacitação sobre os aparelhos. Antes da pandemia, a companhia abriu em São Paulo uma espécie de universidade do ar condicionado.

Numa área de 2 mil metros quadrados no bairro da Barra Funda funciona um centro que ensina tudo sobre o produto. O público alvo é arquitetos, projetistas e instaladores. Já foram treinadas mais de 1.600 profissionais desde o início de funcionamento do projeto.

Apesar de ser um centro da marca, o conteúdo ensinado vale para os produtos de maneira geral, ressalta o executivo. “Este ano a procura (por treinamento) cresceu bastante, tanto é que vamos abrir mais dois centros fora de São Paulo: inauguramos um no Rio de Janeiro no mês passado (novembro) e vamos abrir outro em março em Salvador.”

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