Brasil tem uma janela de 5 anos para ocupar seu espaço na economia verde, diz Pedro Wongtschowski

Segundo empresário, para aproveitar as oportunidades existentes, o governo deve garantir a saúde acroeconômica do País, garantir segurança pública e jurídica e investir em ciência e tecnologia.

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Por Beatriz Bulla
Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Entrevista comPedro WongtschowskiEmpresário e presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp

As pré-condições naturais do Brasil para ocupar o protagonismo mundial na transição energética e na economia verde são favoráveis, mas há uma janela de tempo curta para que o País assuma esse posto. “Temos os próximos cinco anos para ocupar esse espaço”, avalia o empresário Pedro Wongtschowski, um dos nomes mais respeitados da indústria química no País.

Nas últimas décadas, o empresário esteve em posições de comando do Grupo Ultra, tendo deixado a presidência do Conselho de Administração da companhia em meados deste ano. Em 2022, chegou a ser convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior (Mdic), mas negou a oferta. O posto é ocupado desde janeiro pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin. Atualmente, Wongtschowski é presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade da Fiesp e membro do conselho de administração e consultor de diversas empresas.

Em entrevista ao Estadão, Wongtschowski afirma que, para aproveitar as chances existentes, o governo deve garantir a saúde macroeconômica do País, segurança pública e jurídica e investir em ciência e tecnologia.

“A humanidade e as condições objetivas do Brasil são tão favoráveis quando comparados aos outros países… A biodiversidade, disponibilidade de terras em grande volume, nós estamos falando de 110 milhões de hectares de terras degradadas disponíveis, água, energia, sol, uma população empreendedora. As precondições são tão fortes que se o governo regulamentar as coisas de maneira adequada, der suporte, prover segurança jurídica, segurança pública, investir em educação, em ciência e tecnologia, eu acho que o resto vem”, afirma o empresário.

Sobre a macroeconomia, ele avalia que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem se movimentado na direção correta, mas há pressão por aumento de gastos no Congresso. “A tendência é positiva, mas não é claro se o ministro vai conseguir atender os seus objetivos”, afirma.

Pedro Wongtschowski acredita que Brasil tem potencial para ocupar protagonismo em agenda de economia verde Foto: Nilton Fukuda/Estadão

O setor empresarial, segundo ele, tem se posicionado para se beneficiar do que ele vê como um salto no volume de investimentos sustentáveis no Brasil. “Essa consciência e essa preocupação nas empresas existe e é provocada principalmente por razões de mercado, porque isso é uma demanda dos clientes e uma demanda do consumidor, da sociedade. E as empresas abertas têm também uma pressão muito grande dos seus acionistas, nacionais ou estrangeiros, por melhoria dos índices ambientais das companhias.”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

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Como o sr. vê o cenário empresarial no Brasil em termos de preparação e implementação de uma agenda de economia verde?

As empresas estão olhando com enorme interesse essa agenda. Na maioria dos casos, ainda estamos na fase de preparação, de análise de cenários, de escolha de alternativas, estudos preliminares de viabilidade. Evidentemente, tem muita coisa que já se faz no Brasil tradicionalmente e que hoje é classificado como sendo a economia verde. Isso vai desde fontes de energia como a eólica, biogás, a solar e PCH, até grandes grandes usinas hidrelétricas - o que ambientalmente hoje ficou muito complicado. Minha impressão é que vai acontecer um salto grande no volume desses investimentos nos próximos anos e as companhias estão se posicionando nessa direção. No primeiro momento, o que eu acho que vai prevalecer é o que já está comprovado e conhecido numa escala maior, mais ampla, porque a própria expressão de economia verde é um pouco imprecisa.

Ela inclui desde energias limpas até produção de uma agricultura sustentável, regeneração florestal. Tem uma série de negócios convencionais que podem ser feitos de outra maneira, se encaixando, portanto, no que se chama de economia verde e se beneficiando do tratamento diferenciado que a economia verde provavelmente terá no futuro. Isso vai desde um tratamento tributário diferente, a um tratamento regulatório mais favorável e à disponibilidade de financiamento. O volume de oportunidades vai ser muito grande no Brasil e a maioria das empresas está ou acelerando as políticas tradicionais que já tem para usá-las como sendo verdes ou estudando como é que se encaixam nessa mesma tendência. Até porque isso, crescentemente, é uma demanda da sociedade, dos consumidores.

Esse arcabouço que o sr. menciona, de tratamento diferenciado regulatório, tributário e financeiro, está em qual estágio no Brasil?

Esta moldura está toda em construção. A legislação sobre créditos de carbono está sendo negociada e já há um começo de financiamentos verdes em condições mais favoráveis e prazos mais longos disponíveis. Mas você ainda tem muitas questões não resolvidas como, por exemplo, toda a legislação relativa à geração de energia eólica offshore; todo o sistema de rastreabilidade do gado. Tudo isso está em construção. São coisas que ainda têm muitos obstáculos e, para que desabrochem, há algumas precondições que o Brasil vai ter de atender.

Que precondições são essas?

Primeiro, a questão da higidez macroeconômica. Especialmente para os investidores estrangeiros, as condições objetivas da economia brasileira são importantes. É higidez macroeconômica significando estabilidade de câmbio, estabilidade fiscal e uma política monetária moderada.

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Tenho participado em particular de um esforço muito grande na área de ciência e tecnologia. O investimento em ciência e tecnologia nos últimos anos foi muito negligenciado. Esse governo (Lula) tem reforçado muito o volume de recursos disponíveis para financiamento em geral. Então, de repente, você tem R$ 10 bilhões disponíveis por ano para financiar ciência e tecnologia e uma parte considerável disso vai ser dedicada a áreas que preparam ou que criam precondições para a economia verde deslanchar.

E isso diz respeito, por exemplo, à Amazônia. A Amazônia tem uma infraestrutura de ciência e tecnologia muito pobre e o conhecimento que se tem sobre a biodiversidade brasileira é extremamente limitado. Então, desde a exploração dos recursos fluviais dos rios, piscicultura, agricultura de baixo carbono, regeneração florestal, são áreas todas que ainda demandam muito investimento em conhecimento.

Uma terceira questão que preocupa muito o investidor estrangeiro é a questão da segurança. Tanto segurança física como segurança jurídica e especialmente nas áreas do Norte do País. Há uma crescente preocupação com a segurança das pessoas, o respeito à lei, com a validade dos títulos de terras. Você não vai fazer o plantio se você não tem o domínio legal da área e se você está num ambiente contaminado com mercúrio. O governo tem de voltar a funcionar no que tange à proteção ambiental dessas áreas e em assegurar a obediência à lei e à segurança jurídica básica.

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Para Wongtschowski, preocupação 'verde' nas empresas existe e é provocada principalmente por razões de mercado Foto: Nilton Fukuda/Estadão

O sr. cita três requisitos: macroeconomia, investimento em ciência e tecnologia e segurança (pública e jurídica). E falou um pouco sobre como estamos, neste ano, em relação à ciência e tecnologia. Sobre a macroeconomia, qual a leitura do sr. do País hoje?

Há uma tentativa do ministro Fernando Haddad de encaminhar essas coisas corretamente. Ele tem defendido o déficit primário zero. Quando se fala do déficit primário zero, só o custo do serviço da dívida ocupa 7% ou 8% do PIB. Então, se você tiver um déficit primário de zero, você tem um déficit fiscal da ordem de 7%, 8% do PIB já contratado.

O ministro tem feito um esforço enorme para equilibrar as contas no ano que vem e eu tenho esperanças que ele consiga chegar perto. E, do outro lado, há um Congresso pródigo em distribuir benesses para os mais diversos grupos de interesses. Diga-se de passagem, os próprios congressistas interessados nisso. Então, é uma luta difícil e, ao mesmo tempo, o Brasil demandando investimentos novos em uma série de áreas que competem ao governo... A tendência é positiva, mas não é claro se o ministro vai conseguir atender os seus objetivos.

E na área de segurança?

Na área de segurança pública, acho que a preocupação crescente é com a influência dos grupos organizados, que começam a trazer riscos para a atividade econômica empresarial. Então, para alguém estabelecer um empreendimento muito especial, sustentável, na Amazônia, ele tem de ter certeza primeiro de que tem terra adequadamente titulada. E, segundo, que ele vai conseguir operar sem ser refém de grupos criminosos.

Hoje há uma insegurança jurídica muito grande em muitas regiões do País, mas é uma questão de todo o País. É uma preocupação crescente dos investidores locais e internacionais o controle da segurança pública pelo Estado brasileiro. Então é também uma precondição para que uma economia verde desabroche no Brasil na próxima década. O resto o Brasil tem. O Brasil tem água, tem sol, tem uma população empreendedora.

Muito se fala sobre esse potencial brasileiro em termos de recursos naturais, até de recursos humanos, para ocupar o lugar de um grande player mundial na agenda verde. Estamos nos movendo em um ritmo suficiente para assumir esse papel ou, enquanto estamos batalhando para criar essas estruturas, já estamos ficando para trás no cenário global?

Eu sou otimista. A humanidade do Brasil e as condições objetivas do Brasil são tão favoráveis quando comparados aos outros países… A biodiversidade, disponibilidade de terras em grande volume, nós estamos falando de 110 milhões de hectares de terras degradadas disponíveis, água, energia, sol, uma população empreendedora. As precondições são tão fortes que se o governo regulamentar as coisas de maneira adequada, der suporte, prover segurança jurídica, segurança pública, investir em educação, em ciência e tecnologia, eu acho que o resto vem. Então, sim, eu sou otimista. Agora, é uma janela que temos nos próximos cinco anos para ocupar esse espaço.

Qual a opinião do sr. sobre subsídios para incentivar essa agenda? Esta tem sido uma pauta do BNDES, por exemplo.

As linhas centrais de financiamento a custos razoáveis vão cumprir a maior parte do papel. Complementarmente, o governo pode, por exemplo, usar o poder de compra do Estado como um instrumento muito poderoso e, na minha opinião, muito subutilizado, para viabilizar empreendimentos novos. Então, eu não acredito que, talvez com exceção da ciência e tecnologia, subsídios vão ser indispensáveis. Acho que eles vão ser úteis e vão ser complementares. Mas, no essencial, o sistema novo do BNDES de financiamento é adequado para financiar esses projetos de risco mais alto e prazo mais longo de retorno.

E pela experiência que o sr. tem como empresário, onde está o nosso maior desafio dentro das empresas? O senhor vê a alta cúpula concretamente engajada com esse tema?

Essa consciência e essa preocupação nas empresas existe e é provocada principalmente por razões de mercado, porque isso é uma demanda dos clientes e uma demanda do consumidor, da sociedade. E as empresas abertas têm também uma pressão muito grande dos seus acionistas, nacionais ou estrangeiros, por melhoria dos índices ambientais das companhias. Por pressão múltipla, por pressão para, primeiro, cumprir os seus próprios compromissos ambientais. Segundo, por uma demanda da sociedade como um todo. Terceiro, dos seus acionistas e, finalmente, dos seus clientes.

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Temos visto a grande discussão sobre como conciliar - e por quanto tempo - a exploração de petróleo e o uso de combustíveis fósseis, com a transição para uma economia descarbonizada. Qual a leitura do sr. sobre essa essa fase que se diz de transição e qual o caminho que deve ser percorrido aí ao longo dos próximos anos em termos de uso, exploração e consumo de petróleo, em meio a todo esse debate?

O petróleo vai continuar. É uma transição longa. O que será abandonado mais rápido vai ser o carvão. O petróleo talvez seja o segundo na lista (de produtos que deixarão de ser usados) ao longo dos próximos 30 anos.

No caso brasileiro, temos a oportunidade única pela existência de etanol, que acho vai ser cada vez mais barato. O custo de produção do etanol vai cair pelo aumento da produtividade da cana no Brasil, o custo do etanol de cana vai cair. O custo do etanol de milho tende a cair pelo avanço da tecnologia. Não é possível, por exemplo, que na área de mobilidade o modelo brasileiro seja diferente do de outros muitos países. Então, tem um pessoal na Universidade de São Paulo estudando um motor elétrico rodando a etanol - o etanol é reformado e se produz hidrogênio a partir do etanol. O hidrogênio alimenta uma célula de combustível e produz energia elétrica, que alimenta o motor elétrico. É a eficiência de um motor elétrico usando como combustível o etanol.

É uma solução brasileira compatível com a solução mundial, porque você não tem de mudar a infraestrutura de abastecimento no Brasil agora. Não vai ter solução única para isso. Vai ser um cardápio e o consumidor, ao longo do tempo, vai escolher um ou outro elemento do cardápio, e isso vai evoluindo ao longo do tempo. O petróleo estará conosco há muito tempo e vai continuar sendo para o Brasil uma fonte importante de receita, inclusive de receita pública, para financiar também a transição energética.

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