Envio de dinheiro dos brasileiros ao exterior chega a US$ 2,1 bi em 2023 e supera pré-pandemia

Proteção contra risco político e econômico do Brasil é o principal motivo para mandar recursos para fora, afirmam especialistas; popularização de carteiras digitais internacionais acelerou envio de capital

PUBLICIDADE

Foto do author Lucas Agrela
Por Lucas Agrela
Atualização:

Os brasileiros enviaram mais dinheiro ao exterior em 2023, superando o patamar do período pré-pandemia. De acordo com dados do Banco Central, o volume subiu no ano passado e chegou a US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,4 bilhões), o maior da série histórica.

PUBLICIDADE

Os Estados Unidos continuam sendo o principal destino do capital do brasileiro, tendo recebido US$ 487 milhões (R$ 2,4 bilhões) no ano passado, ante US$ 426 milhões (R$ 2,1 bilhões) em 2022. Portugal e Reino Unido integram o ranking dos principais países para os quais os brasileiros mais enviaram dinheiro em 2023.

Segundo especialistas, os motivos das transferências de pessoas físicas para outros países são proteção do capital contra incertezas no cenário político-econômico brasileiro, gastos com turismo e educação, investimentos, mudança de país e transferências de valores para parentes que moram no exterior.

Tudo pelo app: C6 Bank, Inter e Nomad estão entre opções já disponíveis ao cliente brasileiro Foto: Daniel Teixeira/Estadão

“De 2016 para agora, vivemos um regime de incerteza. Tivemos o impeachment da Dilma (Rousseff, ex-presidente), o caso da J&F, a pandemia de covid-19 e uma disputa ideológica de grupos políticos. Isso incentiva as pessoas a tirar o dinheiro do Brasil“, afirma Alexandre Chaia, economista e professor do Insper. “A tributação de investimentos no exterior é um problema para essa tendência, porque é uma forma de fechar o cerco no sistema tributário brasileiro.”

Desde 2014, o brasileiro enviou US$ 17,5 bilhões (R$ 87 bilhões) ao exterior. “Na década anterior, as pessoas estavam com maior confiança porque o Brasil estava crescendo. Com a instabilidade política, o volume de transferências aumentou. Para resolver isso, precisamos ter estabilidade no Brasil”, diz Chaia.

Carteiras digitais

Parte da explicação para a aceleração de envio de capital ao exterior é a popularização de carteiras digitais internacionais, como Wise, Avenue, Revolut, Nomad e BS2. Fabiano Nagamatsu, diretor da aceleradora Osten Moove, diz que a facilidade de uso de carteiras multimoedas agiliza a movimentação de valores para fora do País.

“Hoje, a carteira digital de bancos do Brasil que tem extensão para fora, com conversão automática, tem facilitado bastante, pois se a pessoa coloca o valor em real, já é feito o câmbio, e pode ser usado em dólar com o cartão no exterior”, diz.

Publicidade

Para Renato Nobile, gestor e analista da Buena Vista Capital, o mercado esperava um forte crescimento das transferências internacionais de pessoas físicas neste ano, o que acabou não se concretizando. “No começo do ano passado, com parte da população temendo o novo governo, houve um forte movimento de investidores mandando dinheiro para o exterior”, afirma Nobile.

“Conforme o tempo passou, observou-se muita estabilidade no Brasil, uma queda da taxa de juros e esse movimento de envio de capital ao exterior caiu. A taxação de investimentos internacionais também foi um ponto que causou um crescimento menor do que esperado pelo mercado no montante enviado ao exterior no ano passado”, diz ele, destacando que, apesar do valor recorde em 2023, o mercado esperava um valor ainda maior.

No final do ano passado, o presidente Lula sancionou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional sobre a taxação de fundos de investimentos no exterior, chamados de offshore. A medida faz parte do esforço do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para aumentar a arrecadação e perseguir a meta de zerar o déficit das contas públicas em 2024.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.