Conheça as ‘chaebol’, famílias que comandam a economia da Coreia do Sul

Grandes conglomerados que se espalham por toda a sociedade têm raízes na ascensão da nação como potência mundial e são rigidamente controlados há gerações

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Por Victoria Kim e Daisuke Wakabayashi

THE NEW YORK TIMES, SEUL - Durante décadas, a economia da Coreia do Sul tem sido dominada por um punhado de conglomerados familiares que detêm riqueza e influência extraordinárias e estão presentes em quase todos os aspectos da vida no país.

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Por conta do seu peso político, as “chaebol”, como essas famílias são conhecidas, há muito tempo são um assunto de imenso interesse público. Os casamentos, as mortes, as separações e os problemas legais dessas famílias são relatados frequentemente na imprensa sul-coreana.

Famílias chaebol fictícias foram retratadas em dramas coreanos (os doramas). A família Lee, da Samsung, os Koos, da LG, os Cheys, da SK, os Shins, da Lotte, e os Chungs, da Hyundai, são nomes conhecidos que controlam as empresas que estão entre os maiores empregadores do setor privado do país.

Lee Jae-yong, presidente da Samsung, é neto do fundador da empresa Foto: Jeon Heon-Kyun/Pool via Reuters

Seu poder tem sido cada vez mais analisado - dentro e fora da Coreia do Sul - como uma vulnerabilidade econômica, aprofundando as desigualdades e promovendo a corrupção no país.

Gerações

O sistema chaebol é um legado da história da Coreia do Sul. Depois que um armistício encerrou a Guerra da Coreia, em 1953, os ditadores militares do país ungiram algumas famílias para obter empréstimos especiais e apoio financeiro para reconstruir a economia. As empresas se expandiram rapidamente e passaram de um setor para outro, até se transformarem em grandes conglomerados.

Mesmo quando as empresas cresceram em tamanho, riqueza e influência, e venderam ações nas bolsas de valores, elas permaneceram sob o controle familiar - geralmente dirigidas por um presidente que também era o chefe da família. As mudanças geracionais de liderança às vezes perturbam as famílias chaebol, forçando as empresas a se dividirem ou a se separarem em grupos menores.

Há mais de duas décadas, durante uma luta familiar, a Hyundai foi dividida entre os seis filhos do fundador. O filho mais velho assumiu o controle da Hyundai Motor, hoje uma das maiores empresas da Coreia do Sul. Sob o comando de Chung Eui-sun, neto do fundador, a família ainda está à frente da montadora global.

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Chung Eui-sun, neto do fundador da Hyundai, comanda a montadora  Foto: Steve Marcus/Reuters

Conglomerados

A rápida ascensão da Coreia do Sul da pobreza do pós-guerra para uma importante economia desenvolvida em poucas décadas esteve intimamente ligada à ascensão das empresas chaebol. Seus sucessos iniciais aumentaram os salários e os padrões de vida, além de impulsionar as exportações do país.

As vendas totais dos cinco maiores conglomerados representaram consistentemente mais da metade do produto interno bruto da Coreia do Sul nos últimos 15 anos, chegando a 70% em 2012, de acordo com o livro “Republic of Chaebol”, do economista Park Sang-in. Seus negócios também permeiam a vida sul-coreana - de hospitais a seguros de vida, de complexos de apartamentos a cartões de crédito e varejo, de alimentos a entretenimento e mídia, sem mencionar os eletrônicos.

Lideranças políticas

O patrocínio dos líderes políticos foi crucial para a transformação das empresas chaebol em conglomerados industriais, principalmente durante o regime de Park Chung-hee, que chegou ao poder por meio de um golpe e governou o país por duas décadas até seu assassinato, em 1979. Para Park, as chaebol eram parte fundamental de sua ambição de enriquecer e industrializar a Coreia do Sul. Para isso, seu governo direcionou fundos para empresas que cooperavam com sua agenda, protegendo-as da concorrência e poupando-as da responsabilidade pública.

Embora os laços estreitos entre o governo e as empresas tenham diminuído nas últimas décadas, os líderes políticos ainda recorrem frequentemente a elas em busca de apoio ou aconselhamento. Por sua vez, as empresas têm sido, às vezes, protegidas como sendo vitais demais para a economia para serem desmembradas ou investigadas - algo que os críticos têm atacado como um problema do tipo “grande demais para ser preso”.

Neste verão, os líderes das chaebol foram com o presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol, em uma viagem à Europa como parte da candidatura da Coreia do Sul para sediar a Expo Mundial. Eles também o acompanharam em sua visita aos Estados Unidos para se reunir com o presidente Biden e estavam entre os convidados em um jantar de Estado na Casa Branca.

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Escândalos

As empresas Chaebol se envolveram em casos de corrupção política. Um dos maiores escândalos políticos da Coreia do Sul nos últimos anos demonstrou os laços estreitos entre os líderes políticos e os conglomerados familiares.

Park Geun-hye, ex-presidente do país, foi destituída do cargo em 2017 e posteriormente sentenciada à prisão, após ser condenada por suborno, abuso de poder e outras acusações criminais. Descobriu-se que a sra. Park e um confidente de longa data coletaram ou exigiram subornos de três conglomerados chaebol: Samsung, SK e Lotte. A ex-presidente Park foi perdoada em 2021, após cumprir quase cinco anos de uma sentença de 20 anos de prisão.

Lee Jae-yong, presidente da Samsung Electronics, a maior chaebol do país, também foi condenado a dois anos e meio de prisão por seu papel nesse escândalo. Ele recebeu liberdade condicional e mais tarde foi perdoado pelo presidente Yoon em 2022, uma medida que lhe permitiu voltar a administrar a empresa.

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