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Economia e políticas públicas

Opinião|Acordos de Lula visam voto e governabilidade

Analista Ricardo Ribeiro, da Ponteio Política, acredita que por enquanto favoritismo de Lula se mantém, e seu desafio, caso vença, é implantar agenda mais à esquerda sem assustar mercado e empresários.

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Atualização:

Para Ricardo Ribeiro, sócio da consultoria Ponteio Política, o favoritismo de Lula nas eleições presidenciais permanece por enquanto.

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É verdade que há sinais de alguma melhora na avaliação do governo de Bolsonaro, possivelmente ligada à parcela do eleitorado mais pobre que recebe o Auxílio Brasil.

Mas o analista político nota que essa pequena reação não foi capaz até agora de mexer com os números agregados das pesquisas que, nesta semana e na anterior, mostraram variação na intenção de votos dos candidatos dentro das margens de erro.

"As mudanças na margem favoráveis ao Bolsonaro são insuficientes até agora para se dizer que está estabelecida um tendência expressiva de crescimento", ele diz.

Na verdade, algum aumento de intenção de votos em Bolsonaro deve ocorrer até o final de agosto e início de setembro, como efeito da entrada em vigor do Auxílio Brasil de R$ 600 e dos benefícios para taxistas e caminhoneiros, assim como os impactos da redução dos preços de combustível e da economia e do mercado de trabalho um pouco mais aquecidos.

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Ainda assim, para o analista, "parece improvável que o crescimento seja significativo e coloque em risco a liderança de Lula no primeiro e segundo turno".

Na análise de Ribeiro, o candidato petista, bem consciente desse favoritismo, está na fase de amarrar acordos explícitos e de bastidores com outras forças políticas, para - entre outros objetivos - tentar liquidar a fatura no primeiro turno.

"Não me parece o cenário mais provável, que é o de que haja segundo turno, mas também não acho que se possa descartar a vitória no primeiro", avalia o sócio da Ponteio Política. O possível esvaziamento da candidatura de Ciro Gomes com a proximidade do primeiro turno, e a consequente transferência de votos para Lula, ajudaria nesse cenário.

Segundo Ribeiro, o movimento mais ousado de Lula até agora na estratégia de alianças políticas foi a conversa com Luciano Bivar, do União Brasil (ao qual Sergio Moro é filiado). Bivar desistiu de sua candidatura a presidente, mas a ideia de ter uma aliança com o PT no primeiro turno, o que traria um substancial tempo adicional de propaganda eleitoral, não vingou.

Para o analista político, a esperada retirada da candidatura presidencial de André Janones (Avante) também não deve ser significativa em termos eleitorais diretos - o candidato tem cerca e 2% das intenções de voto, mas nada garante que esses iriam todos para Lula. No entanto, a forte presença de Janones nas redes sociais pode ser um trunfo para Lula.

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Para além da política partidária, Ribeiro considera que os recentes manifestos pró-democracia - com participação de expressiva parcela da elite econômica, empresarial e financeira - criam ambiente propício para Lula exercitar o seu argumento de que é preciso tirar o atual presidente do poder para defender a democracia.

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O analista vê nas costuras políticas de Lula, reforçadas pelos manifestos pró-democracia, uma preocupação do candidato de construir um quadro de governabilidade para o seu eventual governo.

Na avaliação de Ribeiro, há sinais de que Lula neste momento está mais disposto a dialogar com empresários e pessoas de mercado financeiro, e sinalizar que a suaagenda econômica, mesmo que bem distinta do liberalismo de Paulo Guedes, será implementada com pragmatismo e moderação.

Ele vê alguns pontos dos quais Lula não deve abrir mão: alteração no teto de gastos, aumento do investimento público - esses dois primeiros estão interligados -, mudança da política de preços da Petrobrás, paralisação das privatizações e alguma revisão da reforma trabalhista.

Ampliar gastos sociais também faz parte, mas o aumento para R$ 600 e a extensão do público beneficiário do Auxílio Brasil já é uma alta tão grande na despesa que será difícil Lula ir muito além num primeiro momento.

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Segundo Ribeiro, "o grande desafio de Lula seria implementar essa agenda mais à esquerda e desenvolvimentista sem provocar reação forte e negativa do mercado e do empresariado".

Para tanto, o candidato petista, se vencer, tem que usar do gradualismo e evitar medidas que pareçam radicais e assustadoras para as forças mais ao centro e à direita que se tornaram favoráveis ou menos refratárias à sua candidatura.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/8/2022, quinta-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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