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Economia e políticas públicas

Opinião|Direita populista está viva

Cientistas políticos apontam intenção de curto prazo de Bolsonaro de escorar sua defesa com sucesso da manifestação na Paulista no domingo, 25/2, mas tentativa pode não dar certo. Por outro lado, ato mostra que polarização entre direita populista e petismo persiste, e possivelmente dará a tônica da próxima eleição presidencial.

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Foto do author Fernando Dantas

A reunião de uma enorme multidão de apoiadores de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista no domingo passado (25/2) mostra que o bolsonarismo, apesar de todos os percalços legais por que passam o ex-presidente e civis e militares do seu círculo mais próximo, está vivo na sociedade brasileira. Governadores e prefeitos importantes que compareceram confirmam a resiliência do populismo de direita no Brasil.

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Em termos mais de curto prazo, a manifestação foi percebida por analistas como uma peça de defesa por parte de Bolsonaro, que já perdeu o direito de se candidatar e corre o risco de ser preso.

Na visão de Rafael Cortez, cientista político e sócio da consultoria Tendências, o ato da Paulista sinalizou percepção de risco mais elevada por parte de Bolsonaro em relação a uma possível condenação relacionada à tentativa de golpe de 2023-24. Isso ficou claro nas referência do ex-presidente, em seu discurso na manifestação, à "pacificação" e "anistia". Cortez pensa que a tentativa é de fazer com que a centro-direita no Congresso se mobilize nessa direção.

Claudio Couto, cientista político da EAESP-FGV, considera que, nesse sentido, a manifestação não vai funcionar, já que o Supremo e a Polícia Federal não devem, nem minimamente, aliviar sua ofensiva legal contra Bolsonaro e os golpistas. E tentativas de anistia que circulam no Congresso, na sua visão, dificilmente terão sucesso.

Numa perspectiva mais de médio e longo prazo, porém, a capacidade de mobilização de Bolsonaro - que Couto pensa ser talvez maior neste momento mesmo que a da esquerda que apoia o governo Lula - indica que o grande adversário do PT, no horizonte que se pode enxergar,  é a direita e extrema-direita populistas. A antiga rivalidade do PT com o centro-liberal é hoje apenas um evento secundário no palco da política nacional.

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Couto nota ainda que Bolsonaro aplicou um "teste de fidelidade" a políticos que foram impulsionados ao estrelato nacional nas suas asas, como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, ou que pretendem nele se alavancar nas eleições deste ano, como Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo.

"Bolsonaro mostrou que, mesmo todo enrolado com a Justiça, ainda é uma liderança determinante neste campo", diz o cientista político da EAESP.

Cortez, da Tendências, reflete que, mesmo diante de um desempenho econômico relativamente satisfatório neste primeiro ano de governo Lula, com taxa de crescimento mais elevada, o bolsonarismo resiste como ao representante mais relevante e competitivo da oposição.

"A despeito da perda de direitos políticos por Bolsonaro, penso que se deve antecipar uma eleição muito competitiva em 2026, mesmo que ainda não tenha surgido com clareza o nome que vai ocupar esse espaço", pondera Cortez.

Na visão desta coluna, parece claro que a pauta de valores e comportamento que adentrou violentamente a política brasileira com a vitória de Bolsonaro em 2018 veio para ficar. São questões ligadas à moralidade religiosa, à posse e ao uso de armas, ao combate ao crime e à corrupção (apesar de todas as evidências de ilegalidade com o patrimônio público de Bolsonaro, como o apoderamento de relógios de luxo e joias presenteados por potentados do Oriente Médio) etc. Embalado nesses temas, o populismo de direita - mesmo sem que Bolsonaro, seu principal líder, possa concorrer à presidência - deve sobreviver pelos próximos anos.

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Mas será que isso quer dizer que a economia por si só não será mais suficiente para ganhar eleições no Brasil no futuro à frente? Na verdade, a economia sempre ganhará eleições, mas provavelmente será preciso doses maiores de bem estar socioeconômico para obter as mesmas parcelas do eleitorado que se conquistava antes de a polarização entre esquerda e direita populista substituir a polarização entre esquerda e centro-direita, que se dava mais em cima de temas econômicos.

O risco econômico dessa nova realidade é que o atual governo seja tentado a produzir um boom econômico eleitoreiro para reforçar sua competitividade em 2026, diante do temor de que uma economia apenas razoável não seja suficiente para se contrapor à extrema-direita estridente e seu discurso agressivo em temas fora da pauta econômica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/2/2024, quarta-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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