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Economia e políticas públicas

Opinião|O jogo de pôquer da crise grega

Minha coluna da AE-News/Broacast, da 4ª feira, 23/5/12. De uma hora para outra, a maioria dos analistas passou a considerar que a saída da Grécia do euro era mais provável do que a sua permanência. Poucos se arriscam a prever quanto tempo a agonia pode durar, mas não é incomum ver quem diga que um desfecho pode acontecer em questão de meses, até de semanas. Mas nem todo mundo está tão convencido assim. Segundo algumas análises, a eventual saída da Grécia pode demorar mais do que o projetado pelo consenso atual. No extremo, poderia nem acontecer.

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Atualização:

O blogueiro e analista político americano Matthew Yglesias, por exemplo, escreveu em recente artigo que os dois lados dessa queda de braço - o governo alemão e o líder da coalizão da esquerda radical na Grécia, Alexis Tsipras - estão blefando.

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Os alemães, embora não admitam nenhuma alteração no programa de austeridade grego, que dá suporte à ajuda financeira do país, sabem que levar esta atitude às últimas consequências, e expelir a Grécia do euro, pode causar uma crise de enormes proporções que levaria de roldão Portugal, Espanha e Irlanda. Nesse caso, a conta da ajuda financeira dos países saudáveis do Norte europeu para a periferia certamente iria aumentar, o que é exatamente aquilo que a Alemanha mais quer evitar.

Muitos analistas, aliás, chamam a atenção para a importância que a zona do euro tem para a Alemanha. A moeda comum evita as desvalorizações competitivas dos parceiros europeus em relação ao país economicamente mais forte. Além disso, a peculiaridade desta crise faz com que o euro se desvalorize, impulsionando as exportações alemães para fora da sua própria zona monetária, e derrubando os juros do país - à medida que os capitais das nações periféricas fogem para a segurança da economia central.

A Grécia, por sua vez, no raciocínio de Yglesias, também não teria interesse num desfecho dramático, com calote total da dívida pública e saída do euro, por duas razões. A primeira é que o país ainda tem déficit primário, e, portanto, mesmo parando totalmente de pagar sua dívida, não teria como fechar as contas e dependeria da ajuda externa.

A segunda razão é que faltaria à Grécia um setor exportador que fosse fortemente suscetível ao câmbio e que puxasse a economia do país depois da desvalorização - como aconteceu, por exemplo, com as commodities agrícolas argentinas depois do fim da conversibilidade em janeiro de 2002.

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Um fator adicional, mencionado por outros analistas, é que o calote e a desvalorização da Argentina foram seguidos, pouco depois, por uma fase de reaquecimento da economia global (que inclusive deu início ao boom das commodities), enquanto as perspectivas mundiais para o eventual pós-calote grego não são nada boas.

O economista Mario Blejer, ex-presidente do Banco Central da Argentina, também está entre os que acham que a Grécia não deveria deixar o euro. Em recente artigo no Financial Times, ele apresenta um argumento similar ao de Yglesias, e até mais embasado em termos econômicos. Para Blejer, tanto a Alemanha quanto a Grécia teriam a ganhar evitando a solução mais drástica da ruptura da zona do euro.

"Os gregos querem permanecer na zona do euro, mas não querem fazer o que é necessário para isto, já que o que é necessário é demasiado. Os alemães querem que o euro sobreviva, mas estão relutantes em pagar o preço. Se os dois buscassem um compromisso, o euro teria uma chance melhor de sobreviver", escreveu Blejer.

Essas análises devem ser levadas a sério, pois trazem à baila um aspecto às vezes um pouco negligenciado da atual crise: a partida de pôquer entre os antagonistas, na qual se joga, de parte a parte, com as armas da ameaça implícita, mas não necessariamente para valer. Há muito cálculo político por detrás de cada posicionamento aparentemente intransigente ou radical dos principais atores políticos desse drama.

Por outro lado, como mostrou o colapso do Lehman Brothers em 2008, esse jogo arriscado pode acabar mal, e os fatos podem sair do controle dos protagonistas. Além disso, há a questão de fundo da perda de competividade da Grécia, que parece quase impossível de ser contornada sem uma desvalorização cambial, impossível enquanto o país permanecer no euro.

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Assim, se de fato a saída iminente da Grécia da moeda única, prevista por muitos analistas, pode ser uma visão ingênua que não leva em conta a capacidade das partes envolvidas de "tocar com a barriga" mais um pouco o problema, por outro lado não há como imaginar uma solução definitiva para a terrível crise econômica grega com o atual status quo. Cedo ou tarde, a hora da verdade da zona do euro vai chegar.

Opinião por Fernando Dantas
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