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Brasileiros não confiam em governos e empresas para liderar resposta às mudanças climáticas

Crise de confiança se repete em outros países; união entre organizações e comunicação com as pessoas são desafios, aponta pesquisa global

Foto do author Luis Filipe Santos
Por Luis Filipe Santos

Os consumidores brasileiros e de outros países não têm a confiança de que governos e empresas agirão da forma esperada para lidar com as mudanças climáticas e de que poderão liderar a resposta aos problemas. Já as organizações não-governamentais (ONGs) são consideradas confiáveis pela maioria. A conclusão é do Relatório Especial da pesquisa Trust Barometer 2022, realizada pela empresa de comunicação Edelman.

A pesquisa ouviu 14 mil pessoas em 14 países diferentes para analisar os temores em relação ao clima, a percepção sobre as respostas institucionais e as formas de superar as barreiras à ação. O relatório aponta ainda os problemas na comunicação com as pessoas comuns e o que pode ser feito para evoluir na questão, orientando o trabalho para as questões ESG (ambientais, sociais e de governança corporativa, na sigla em inglês).

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A preocupação climática continua alta em todos os países e em todos os grupos sociais, com recortes por gênero, renda e idade. O Brasil apareceu em segundo lugar na classificação geral - 86% dos consumidores afirmaram se preocupar que as mudanças climáticas ocasionem secas, aumento do nível do mar e outros desastres. O México foi o líder, com 90% de respostas preocupadas.

Além disso, 79% dos brasileiros afirmam que o combate às mudanças climáticas precisa ser acelerado (acima da média global de 71%) e 63% acham que pouco ou nenhum progresso foi feito (a média em todos os países foi de 57%). As maiores preocupação são de que os mais pobres sejam os mais prejudicados - 63%, um crescimento de quatro pontos percentuais em relação ao ano anterior - e de uma crise de refugiados (81%).

Em relação às instituições, as ONGs (65%) são a única instituição em que os brasileiros confiam para atuar corretamente. Empresas (48%) e Governo (49%) não têm a confiança dos brasileiros e a Mídia (52%) aparece no patamar de neutralidade. “Tem que ter parcerias entre as instituições, entre empresas, ONGs e governos para fazer o trabalho de conscientização ambiental”, avalia Ana Julião, gerente geral da Edelman Brasil.

“As parcerias aumentam a confiabilidade das instituições. Precisa ter comunicação de marca das grandes empresas associada ao conhecimento científico. E o governo deve buscar legislações mais adequadas e cuidar de acompanhar o cumprimento delas”, completa.

“Há um aumento na conscientização da população, que está mais exigente e atenta. No caso das empresas, um aspecto fundamental é a necessidade de melhorar a comunicação de suas ações sustentáveis, com informações mais consistentes e transparentes”, avisa Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

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Consumidores não confiam nas empresas em temas ambientais Foto: Pixabay

Os governos nacionais são a instituição mais cobrada para assumir a liderança (54%), mas a maior parte dos brasileiros acredita que as decisões relativas às mudanças climáticas são tomadas por questões políticas e não científicas (63%) e duvidam que o governo esteja disposto a aprovar legislação rígida para forçar empresas e pessoas a fazerem mudanças relativas ao clima (62%).

Já as empresas vivem uma situação paradoxal: 65% dos brasileiros acreditam que elas atuarão corretamente de forma geral, mas apenas 48% dão a mesma resposta quando a pergunta é específica sobre a crise climática. “A percepção é de que elas buscam o lucro mais do que agir no combate aos problemas, e que não estão adotando a liderança”, afirma Julião. Explicar porque um produto sustentável é mais caro é outra necessidade. “Quando não há informações claras, parece para o consumidor que ele pode estar pagando mais caro por algo que não é realmente mais sustentável”, comenta Julião.

As empresas precisam não só agir, mas também demonstrar com clareza como essas ações são benéficas para todos. “Às vezes, as companhias esquecem o potencial que elas têm de incentivar e convencer outras organizações a adotar novas práticas. Elas precisam criar movimentos inspiradores para de fato atuar sobre a percepção dos consumidores, e têm o desafio de trazer todos juntos, inspirando as pessoas a fazerem o certo”, comenta a gerente geral da Edelman.

“Hoje, a maior parte do setor empresarial sabe que a adoção de práticas sustentáveis atrai investimentos e impacta positivamente na imagem. Qualquer ação em direção oposta significa perda de competitividade, represálias comerciais e prejuízos”, lembra Grossi. Ainda assim, estamos longe de cumprir a meta do Acordo de Paris de limitar o aumento na média da temperatura global a 1,5ºC . “Empresas e governos têm que acelerar o ritmo, seja na forma de fazer negócio, seja criando políticas públicas que favoreçam esta transformação”, comenta.

Barreiras para a ação

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O estudo também buscou entender o quanto as pessoas estão dispostas a alterar seus hábitos em prol das mudanças climáticas. Entre os brasileiros, 39% concordaram com a afirmação de que “há limites para o que empresas e governos podem fazer para combater as mudanças climáticas, as pessoas vão precisar mudar seus hábitos drasticamente”. O número representa um crescimento de 2% em relação a 2021, mas foi o mais baixo entre todos os países - os líderes foram os sul-coreanos, com 80% de concordância.

Por outro lado, 85% admitem que há uma distância entre o estilo de vida atual e o que gostariam de adotar que fosse ambientalmente correto. “Há uma sensação de ‘deixa que eu deixo’, o consumidor entende que ele também precisa ter um papel mas coloca uma série de obstáculos. E não confia que governos e empresas assumam a liderança e façam, então ele não faz”, explica Julião.

Questionados sobre o que já fazem para reduzir o impacto pessoal, 32% relatou que não faz nada, ou apenas coisas que economizam dinheiro ou são obrigatórias; 38%, que fazem algumas coisas que não são inconvenientes ou não custam muito, e 30% dos brasileiros, coisas que requerem muito gasto, inconveniências ou mudanças de estilo de vida. Entre as principais barreiras para um estilo de vida sustentável, 79% citaram custos acima do que estão dispostos a pagar, 78% que não há opções onde moram e que tem dúvidas sobre opções com menos impacto.

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Pessoas temem que os mais pobres sofram mais com as mudanças climáticas, mas ainda não tem certeza sobre como agir Foto: Clayton de Souza / Estadão

“Tem a barreira da compreensão de que precisa fazer um trabalho conjunto, e também a barreira financeira. Existem dúvidas sobre quais opções têm menos impacto climático em alguns assuntos, exige um aprofundamento”, diz Julião. Como exemplo, ela cita que muita gente não sabe dizer se é mais adequado ambientalmente usar papel toalha ou o secador de ar quente para as mãos no banheiro.

E isso ocorre apesar das pessoas já notarem impactos das mudanças climáticas no seu dia, com chuvas e secas prolongadas, por exemplo. “Elas não têm a compreensão do detalhe que precisam fazer no dia a dia para esse combate, mas tem a percepção genérica do que estão passando. Tem um nível de consciência mas não de profundidade”, afirma Julião. “Para virar esse jogo, precisamos levar a compreensão de forma educativa”, completa.

Grossi reforça que as empresas e governos podem agir de diversas formas: tornando os produtos e serviços sustentáveis mais acessíveis e com informações claras, com políticas públicas capazes de escalonar as melhores práticas empresariais, com programas envolvendo temas como descarte correto, logística reversa, embalagens retornáveis e uso consciente de recursos e com campanhas de conscientização sobre as pequenas ações do dia a dia que podem fazer a diferença. “As pessoas querem ter certeza de que estão comprando produtos e consumindo serviços ambiental e socialmente responsáveis. E as empresas precisam se adaptar a essas exigências”, diz.

Informação

A transmissão da informação que engaje as pessoas e una as organizações é um dos principais desafios. Mas quem são as pessoas adequadas para essa comunicação? De acordo com os brasileiros, nem as de empresas, nem as de governos. Os porta-vozes considerados de confiança foram cientistas e especialistas em clima (83%), “uma pessoa como eu” (75%) e diretores de ONGs (63%). Por outro lado, autoridades ambientais nacionais (59%), ativistas/defensores climáticos (57%), jornalistas (49%), CEOs (37%) e líderes governamentais (33%) não são tão bem vistos.

“A informação não precisa ter um direcionamento exclusivamente técnico, ela precisa ‘contaminar’ de uma forma mais pessoal. Precisamos de cientista sim, embasando essa informação, mas que a mensagem seja multiplicada por pessoas comuns, para ‘contaminar’ a sociedade”, alerta Julião. Segundo ela, os dados e instruções precisam ser de fácil assimilação, e o trabalho principal é transformar o que é complexo em simples.

Entre os setores industriais avaliados, apenas três de 13 foram considerados confiáveis: Agricultura (65%), Tecnologia (73%) e Energia Renovável (84%). Já os de Carvão (32%), Bancos (38%), Óleo e gás (39%), Moda (42%), Fast food (42%), Automotivo (45%), Transporte (45%), Varejo (48%), Companhias elétricas (55%) e Alimentos e bebidas (55%) despertam desconfiança.

O sucesso das três vem tanto de características próprias - o de energia renovável, por exemplo, deve crescer com a luta contra as mudanças climáticas - quanto de ações tomadas. “O agronegócio tem investido mais na comunicação, tem a questão do esclarecimento das ações realizadas e da forma como as relações se dão. O setor de tecnologia tem investido bastante, mostrado inovações e mudanças de comportamento”, nota a gerente da Edelman.

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Assim, para evitar uma sensação de derrota e imobilidade, é necessário esclarecer as ações e mostrar ao público que é possível combater as mudanças climáticas, e que todos têm seu papel a realizar. O Brasil, como um dos países com mais florestas e maior biodiversidade do mundo, tem muito a contribuir. No entanto, poucas pessoas acham que o País está atuando corretamente no tema: somente 38% dos estrangeiros e 39% dos próprios brasileiros. “Se não adotar uma política ambiental séria, o futuro está comprometido. A gente precisa mostrar para o mundo que está fazendo o certo”, opina Ana Julião.

“É preciso deixar cada vez mais claro o papel que cada um destes atores possuem nesta transformação. O primeiro passo é mostrar às pessoas que elas são parte da solução, junto com governos e empresas, que têm um papel fundamental na questão”, conclui Marina Grossi.

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