Índia, sudeste asiático e México despontam como potências globais com desaceleração da China

Transformação estrutural chinesa e mudanças na cadeia de produção mundial no pós-covid estão por trás de possíveis alterações nas forças econômicas

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Foto do author Luiz Guilherme  Gerbelli
Foto do author Luciana Dyniewicz
Por Luiz Guilherme Gerbelli e Luciana Dyniewicz
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Uma potência em expansão no Oriente (a Índia), próxima a outros países com crescente poder econômico (como Vietnã e Indonésia), além de uma força pujante na América Latina (o México). Nas próximas décadas, o mundo deve ver o fortalecimento de novos atores globais.

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Debatida e estudada por economistas de todo o mundo, essa migração tem como pano de fundo três importantes fatores: a transformação estrutural da economia chinesa, a mudança nas cadeias produtivas como herança da pandemia e os impactos da guerra na Ucrânia. “Já estamos vendo algumas evidências de que a China é um ator menos dominante no comércio global”, afirma Robert Sockin, economista global do Citi.

Os países do Sudeste Asiático, com uma estrutura de produção parecida com a chinesa, a Índia, pelo tamanho da sua população, e o México, diante da proximidade com os Estados Unidos, são candidatos a ganhar espaço no cenário mundial. Nas próximas semanas, o Estadão traz reportagens que discutem a capacidade de esses países se tornarem protagonistas.

Nesse novo cenário que se desenha para os próximos anos, o Brasil, porém, não é visto como um dos principais beneficiados, mas, ainda assim, terá oportunidades. O País tem a seu favor uma base industrial e uma economia de escala, mas problemas já conhecidos, como alta carga tributária e deficiências em infraestrutura, impedem um ganho maior.

“É também uma economia extraordinariamente fechada ao comércio internacional”, afirma Alberto Ramos, diretor de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs.

Na análise de Welber Barral, consultor na área de comércio internacional e secretário de Comércio Exterior entre 2007 e 2011, entre os fatores que não favorecem o Brasil, além da distância do País a um importante centro consumidor como os EUA, está o fato de não haver um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, ao contrário do México.

Para Barral, no entanto, outro fator pode ajudar o Brasil nos próximos anos: a transição energética. O consultor destaca que o País pode ser beneficiar da demanda global crescente por hidrogênio verde e crédito de carbono, produtos que o Brasil tem capacidade de ser um grande fornecedor.

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O que acontece na China?

Beneficiada por milhões de trabalhadores que deixaram o campo e migraram para a cidade, a China angariou, nas últimas décadas, uma mão de obra barata que ajudou a dar base para uma indústria competitiva e capaz de exportar para todo o mundo.

Em um ritmo que deve ser lento, mas ininterrupto, esse papel da China de grande fábrica do mundo deve começar a perder força. O grande nó se dá porque esse modelo que garantiu um crescimento robusto para o país — seu PIB chegou a avançar mais de 10% — parece ter se esgotado.

A economia chinesa enfrenta problemas estruturais que ajudam a explicar o crescimento mais fraco. A saúde financeira de parte das empresas do setor imobiliário preocupa e o desemprego é alto entre os jovens — a taxa de desocupação para a população de 16 a 24 anos supera 20%.

Mão de obra chinesa está ficando mais cara Foto: China Daily/Reuters

Além disso, para tirar o país da renda média, o governo passou a orientar um crescimento com base no consumo, seguindo um caminho trilhado por boa parte dos países ricos.

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“A gente está sempre acostumado a uma China exportando bens, mas o mundo vai ter de se acostumar com uma economia chinesa importando bens”, diz Laura Pitta, economista do banco Itaú.

Nos últimos anos, também ficou mais difícil investir na China por causa dos conflitos geopolíticos com os Estados Unidos. Na gestão de Donald Trump, os dois países deflagraram uma guerra comercial com a imposição de tarifas para diversos produtos de importação.

A China também foi afetada por uma nova estratégia das empresas. Elas passaram a reorganizar suas produções após a pandemia e a guerra entre Ucrânia e Rússia desorganizarem cadeias produtivas espalhadas pelo mundo. O objetivo, agora, é produzir mais perto do mercado consumidor em potencial, o que ficou conhecido como “nearshoring”.

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Nos últimos meses, importantes companhias já transferiram parte da produção da China. Em setembro do ano passado, a Apple decidiu fabricar o iPhone 14 na Índia. A companhia justificou a decisão por causa de questões geopolíticas e pelos problemas na cadeia de produção detonados pela pandemia.

A HP também decidiu transferir parte da sua produção de computadores da China para a Tailândia e o México, segundo informações do jornal japonês Nikkei. O objetivo da companhia é justamente ter uma cadeia de suprimentos mais diversificada.

A China ainda pode perder fábricas devido ao encarecimento da mão de obra. Conforme o país tem enriquecido, o custo do trabalho vem aumentando. Além disso, após anos de controle de natalidade, o país começou a ver, em 2022, sua população encolher. A mudança demográfica significa que menos jovens serão colocados no mercado de trabalho no futuro, o que também deve elevar o preço da mão de obra, destaca o economista-chefe da Santander Asset, Eduardo Jarra.

Desempenho frustrante

Os últimos números do PIB chinês revelaram uma economia que tem crescido abaixo do esperado. No segundo trimestre, o PIB do país avançou 6,3% na comparação anual. O resultado ficou abaixo do esperado pelos economistas, que projetavam alta de 6,9%.

No início do ano, os economistas chegaram a apontar um otimismo com o crescimento chinês após o fim da política de covid zero. No auge da pandemia, o governo local adotou uma dura política de restrições de mobilidade para evitar a propagação da doença.

“No pós-reabertura, quando a gente compara o que aconteceu nos Estados Unidos e até o no Brasil, não houve um boom de consumo na China, uma vez que não houve a transferência de renda do governo para as famílias”, afirma Laura, do Itaú. “Tem havido essa decepção de parte do consumo.”

A última projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o PIB chinês deve crescer 5,2% em 2023, e recuar para um ritmo pouco superior a 3% até o fim da década.

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“A China continuará a enfrentar uma série de desafios nos próximos anos. O desemprego entre jovens continua alto, o país está envelhecendo rapidamente, as incertezas para o setor imobiliário são persistentes e as tensões geopolíticas são uma preocupação para as empresas”, diz Sockin, do Citi.

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