IPCA-15 fica em 0,69% em março, menor para o mês desde 2020

Alta acumulada nos últimos 12 meses foi de 5,36%, ante taxa de 5,63% até fevereiro, segundo dados do IBGE

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Por Daniel Tozzi Mendes, Daniela Amorim e Italo Bertão Filho
Atualização:

RIO E SÃO PAULO - Apesar da pressão provocada pelo encarecimento da gasolina e da conta de luz, a prévia da inflação oficial do País desacelerou em março. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) subiu 0,69% em março, após ter avançado 0,76% em fevereiro, informou nesta sexta-feira, 24, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este foi o menor resultado para o mês desde 2020, quando houve elevação de 0,02% em meio ao choque inicial provocado pela covid-19 no Brasil.

O desempenho ficou dentro das estimativas dos analistas do mercado financeiro consultados pelo Estadão/Broadcast, que esperavam uma alta de 0,58% a 0,81%, mas um pouco acima da mediana positiva de 0,67%. O resultado fez a taxa do IPCA-15 acumulada em 12 meses descer de 5,63% em fevereiro para 5,36% em março, o menor patamar desde fevereiro de 2021.

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“Esse comportamento deve ser observado até meados do ano, momento em que o IPCA deve beirar os 4%. No entanto, o indicador volta a subir na segunda metade de ano, quando o efeito da redução de impostos de 2022 sair da base do IPCA”, previu Claudia Moreno, economista do C6 Bank, em comentário. “Nossa projeção é o IPCA termine o ano em 6%. Para 2024 esperamos que a inflação desacelere para 5%.”

A desaceleração vista na prévia de março surpreende positivamente, mas não é suficiente para ensejar uma mudança no rumo da taxa básica de juros, a Selic, avaliou Gustavo Arruda, diretor de Pesquisas para a América Latina do banco BNP Paribas.

“Quando paramos para pensar a política monetária e como o Banco Central iria olhar esse número, ele traz uma grata surpresa, mas sem grande empolgação”, afirmou Arruda.

Ele projeta um IPCA de 6,5% em 2023, acima da mediana para o ano registrada pelo último boletim Focus (5,95%), do Banco Central, por entender que existem diferentes pressões altistas no horizonte.

“Temos vários componentes novos: a meta de inflação, a desancoragem de expectativas, além de novos componentes de demanda como a introdução do Novo Bolsa Família, perspectiva de mudança de atuação do BNDES, uma postura de maior expansão no crédito, reajuste do funcionalismo, entre outras coisas”, enumerou Arruda.

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Para o banco Citi, o resultado do IPCA-15 indica o começo de um alívio da inflação, mas essa análise deve ser tratada com cautela. “Embora a queda mensal possa parecer substancial, vale ressaltar que a leitura de fevereiro costuma ser contaminada pelo aumento anual das mensalidades escolares”, ponderou o banco, em relatório.

Em março, oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram alta. O destaque foi o aumento no gasto com transportes. A gasolina subiu 5,76%, item de maior impacto individual no IPCA-15, 0,26 ponto porcentual. O etanol ficou 1,96% mais caro. As famílias também gastaram consideravelmente mais com transportes por aplicativo (9,02%), ônibus intermunicipais (0,88%) e trem (17,34%), os dois últimos por influência de reajustes no Rio de Janeiro.

O segundo maior impacto no bolso do consumidor em março foi do encarecimento da conta de luz. A energia elétrica residencial subiu 2,85%, uma contribuição de 0,11 ponto porcentual para o IPCA-15 do mês. As variações nas contas de luz se estenderam desde uma queda de 1,13% no Rio de Janeiro, onde houve redução de PIS/COFINS, até um aumento de 11,66% em Belo Horizonte, onde as tarifas de uso dos sistemas de transmissão (TUST) e distribuição (TUSD) foram incluídas novamente na base de cálculo do ICMS, movimento que também ocorreu em Porto Alegre (10,76%), Curitiba (10,42%) e em uma das concessionárias de São Paulo (1,12%). No Rio de Janeiro, houve reajustes de 7,49% e 6,00% nas duas concessionárias pesquisadas, ambos a partir de 15 de março, último dia do período de referência do IPCA-15, ou seja, serão captados majoritariamente na leitura de abril.

IPCA-15: alta acumulada nos últimos 12 meses foi de 5,36% Foto: Wilton Junior/Estadão

Já os gastos com alimentação e bebidas subiram menos, especialmente os de produtos para consumo no domicílio, com nova ajuda da queda nos preços de proteínas como carnes e frango.

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Houve reduções em março na batata-inglesa (-13,14%), tomate (-6,34%), cebola (-12,13%) e óleo de soja (-2,47%). Quanto às proteínas, as carnes ficaram 0,91% mais baratas, com destaque para a redução no contrafilé (-2,04%). O preço da picanha diminuiu 1,43%. O frango em pedaços caiu 1,94%, e o frango inteiro reduziu 0,02%. Por outro lado, o ovo de galinha aumentou 8,00% em março.

Em Artigos de residência, único grupo com queda de preços (-0,18%), houve reduções nos televisores (-1,89%) e nos computadores pessoais (-1,68%). A queda de 5,32% nos preços das passagens aéreas ajudou a impedir uma alta ainda mais acentuada nos gastos com Transportes, que já estavam sob pressão pelo encarecimento da gasolina.

Apesar da trégua em itens importantes da cesta de consumo, Gustavo Arruda, do banco BNP Paribas, crê que os questionamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a atuação do Banco Central contribuem para a elevação do custo e o atraso do processo de desinflação do País. “O fato de se questionar a autoridade monetária para trazer essa inflação para baixo só deixa o custo de inflação mais alto”, opinou Arruda.

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