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Inflação vira ‘sonho de consumo’ no Japão; veja como país tenta espantar o fantasma da deflação

Razões para o cenário são também culturais: população do país evita repassar elevação de custos em salários, aluguéis e preços e resiste até mesmo a gastar

Foto do author Eduardo Gayer
Por Eduardo Gayer

ENVIADO ESPECIAL A TÓQUIO - Pesadelo para a maioria dos países, incluindo o Brasil, a inflação é um “sonho de consumo” no Japão. Enquanto o mundo luta contra a alta de preços e aplica o remédio amargo de aumentar os juros, o país asiático ainda enfrenta o problema inverso, e igualmente desafiador: a dificuldade em manter uma inflação sustentada ao redor da meta de 2%.

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Mas a política ultra-estimulante do Banco do Japão (BoJ, o banco central local), associada ao ambiente inflacionário global, parece estar surtindo efeito ao forjar um novo momento para a dinâmica de preços no país. A virada pode deixar para trás o fantasma da deflação (queda de preços), que há décadas assombra o arquipélago.

As razões para o caso peculiar do Japão quando o assunto é economia chegam aos fatores culturais, com uma população resistente a repassar elevação de custos em salários, aluguéis e preços. Resistem até mesmo a gastar, mesmo que guardar dinheiro no banco, em um cenário de juro negativo, signifique perder capital.

“As empresas japonesas economizam dinheiro e não gastam com seus funcionários”, explica ao Estadão/Broadcast o estrategista-chefe do MUFG para Japão, Takahiro Sekito.

População no Japão é resistente a repassar elevação de custos em salários, aluguéis e preços  Foto: Eugene Hoshiko/AP Photo

Nas ruas de Tóquio, a população reclama da alta de preços dos alimentos sem a contrapartida do aumento de salários. No Japão, quem ganha menos de US$ 2 mil por mês tem uma vida apertada, já que mesmo as escolas do governo são pagas. Isso explica a dificuldade do país em fomentar a natalidade da população e evitar um envelhecimento precoce — os cidadãos pensam duas vezes antes de planejar um filho, devido ao elevado custo de vida.

Uma mudança de ventos na seara dos preços, no entanto, ganhou força, sobretudo, com o choque inflacionário da guerra na Ucrânia, e dá sinais de que pode ter sustentabilidade. Não há, contudo, consenso de que o movimento é firme a ponto de clamar por uma alta de juros imediata do banco central japonês. “Mesmo no Japão, reconhecemos a pressão inflacionária, embora tenhamos temido a deflação no passado”, diz Sekito.

Nova fase

O núcleo da inflação no Japão foi de 3,2% em março na comparação anual — acima, portanto, da meta de 2%. Apesar disso, o índice representou uma desaceleração dos 4,2% registrados em janeiro, a maior alta em 41 anos. É o ponto nevrálgico das dúvidas sobre se o movimento é sustentável ou não.

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Para o Bank of America, trata-se, sim, de uma nova fase na economia japonesa. “As perspectivas para o Japão estão mudando de forma fundamental. O Japão pode ainda não ter alcançado uma inflação sustentável de 2%, mas claramente está começando a escapar da armadilha de inflação zero ou deflação em que está preso”, defende a instituição, que aposta em mudanças em breve no controle da curva de juros.

O BofA não espera que haja tão cedo, no entanto, uma elevação nos juros, instrumento mais comum dos bancos centrais para conter a inflação.

Na mais recente decisão de política monetária, a primeira sob a presidência de Kazuo Ueda, o BC japonês manteve a taxa de depósito de curto prazo em -0,1% e a meta de rendimento do título público de 10 anos (JBG) entre -0,5% e 0,5%, para seguir estimulando a inflação e o crescimento.

Um cenário absolutamente diverso de outras economias, como os Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) subiu os juros básicos para o intervalo entre 5% e 5,25% ao ano, o mais alto desde 2007, justamente para conter a inflação.

Parte do mercado ainda aposta em uma inflação abaixo da meta em 2024, perto de 1,4% — abaixo, portanto, da meta de 2%. O BofA contesta: fala em 2,7% no próximo ano, porque a escassez de mão de obra no setor de serviços — o desemprego está ao redor de 2% no Japão — criaria pressões inflacionárias.

“O aumento do crescimento da renda ajudará a sustentar os gastos — e, portanto, os aumentos de preços —, mesmo depois que o " empurrão " da inflação das importações desaparecer”, argumenta o banco, em relatório distribuído a clientes.

Nas ruas de Tóquio, a população reclama da alta de preços dos alimentos sem a contrapartida do aumento de salários Foto: Thomas Peter/Reuters

Para Sekito, do MUFG, a dinâmica do crescimento salarial no Japão, ainda não é suficiente para o banco central do país “passar para a próxima fase”. “Olhando para o futuro, o BoJ continuará a facilitar o ambiente monetário”, diz à reportagem, ressaltando a existência de “expectativas positivas de inflação” no Japão.

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Por que deflação pode ser ruim?

A queda generalizada de preços pode parecer algo bom no curto prazo, mas, se prolongada, pode gerar efeitos danosos na economia. É um sinal de que a oferta supera a demanda, ou seja, quando existe mais itens ou serviços à venda do que as pessoas querem ou são capazes de comprar.

Esse quadro desestimula investimentos, resultando em fechamento de empresas, aumento do desemprego, diminuição da renda da população e, consequentemente, ampliação da desigualdade.

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