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Economista

Opinião|Zeitgeist: o espírito do tempo pede o imposto sobre grandes riquezas

Nobel de 2019, Esther Duflo sugere a taxação de 2% do patrimônio dos super-ricos

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Há evidências de que a parcela do produto que fica nas mãos dos trabalhadores no mundo tem caído. O crescimento vem sendo desigual. O mundo cresce, mas menos fica com os trabalhadores.

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Economistas explicam parte deste aumento da desigualdade por um aumento do poder de mercado das empresas resultado do aumento de tecnologia. Há também hipóteses sobre aumento do poder de lobby de grupos de interesse que acabam por induzir políticas que facilitem a concentração de renda.

Outra questão são os efeitos deletérios de mudanças climáticas, que impactam nosso bem-estar e podem ameaçar nossa própria sobrevivência. Além disso, estes efeitos são diferentemente sentidos por ricos e pobres, reforçando que a distância entre ambos pode aumentar ainda mais por esse fator. A desigualdade é multidimensional.

Pensando nestes dois problemas de forma conjunta, a economista ganhadora do Nobel em 2019, Esther Duflo, sugere a taxação de 2% do patrimônio dos super-ricos. Isto seria o equivalente a tributar 40% da renda deste grupo – similar ao que trabalhadores pagam sobre seus salários. O recurso arrecadado seria usado para mitigar o efeito das mudanças climáticas nos mais pobres. A ideia é de que os super-ricos são não apenas potencialmente os maiores responsáveis pelos impactos humanos no clima, mas também contribuem menos comparativamente ao restante da população.

Países do G-20 tentam chegar a acordo para imposto global sobre super-ricos Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Economistas costumam reagir negativamente a propostas de taxação de “retornos sobre o capital”, ou retornos sobre investimentos produtivos. A ideia é de que taxando se criam incentivos perversos ao investimento. Se taxar demais, investimentos migram ou simplesmente não acontecem.

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Esse argumento pode ser secundário em um contexto em que o poder de mercado das empresas se intensifica. À medida que a concentração de renda aumenta, surgem não apenas desigualdades mais profundas, mas também insatisfações sociais e políticas que podem abalar os pilares da democracia.

Assim, a adoção de medidas como a proposta de taxação dos super-ricos por Esther Duflo pode ser vista não apenas como uma ferramenta para redistribuição de riqueza, mas também como um passo necessário para mitigar esses efeitos colaterais do poder corporativo e garantir a sustentabilidade do ambiente e da sociedade.

Esther Duflo, em entrevista recente à Folha de S. Paulo disse que está no espírito do tempo esta discussão. O Brasil ajudou a normalizar este debate. É o zeitgeist da redução da desigualdade e da contenção dos danos ao nosso meio ambiente.

Opinião por Laura Karpuska

Professora do Insper, Ph.D. em Economia pela Universidade de Nova York em Stony Brook

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