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‘Mercado aquecido e inflação atrapalharam contratações no IBGE’, diz Eduardo Rios Neto

O Censo é atrasado, segundo Rios, mas é de qualidade; Ele diz que o problema estrutural está na cobertura

RIO - Embora o orçamento do Censo Demográfico 2022 tenha sido o possível diante da “economia política” do momento, não foi só a falta de recursos a vilã por trás dos atrasos na principal pesquisa populacional do País, prevista para ser feita a cada dez anos, disse o demógrafo Eduardo Rios Neto, que comandou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na maior parte da operação censitária.

Segundo ele, o principal gargalo, a escassez de trabalhadores dispostos a assumir as vagas temporárias de recenseador, ocorreu em razão do aquecimento do mercado de trabalho, ao excesso de trabalho e a reverberação, nas redes sociais, de problemas que ocorreram no início do trabalho de campo, em agosto. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O ex-ministro Paulo Guedes começou o governo pedindo um Censo mais enxuto para economizar recursos. Isso atrapalhou?

Quando houve a questão das perguntas, a narrativa era de que o corte no questionário era para economizar. Eu sempre neguei isso. Sempre advoguei que o ponto era a cobertura, que é o problema que estamos tendo hoje. A saturação com a extensão do tempo. O problema continua sendo a cobertura. Um questionário mais ágil poderia ajudar nisso. O enxugamento mais importante foi no questionário básico. O questionário está super eficiente, ao ponto de que tem gente que acha que está rápido demais. A função precípua do Censo é contar a população com uma boa cobertura. O questionário básico cumpriu sua função.

O orçamento foi suficiente?

O orçamento baixou para um patamar próximo de R$ 2 bilhões. Depois do corte do orçamento em 2021, houve a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Este é o único Censo que está sendo realizado sob uma decisão judicial, por uma liminar. E na liminar foi feita uma proposição de que o IBGE determinasse quanto seria necessário para realizar o Censo. Fizemos um projeto rigoroso propondo R$ 2,3 bilhões.

Em entrevista ao Estadão, ex-presidente do IBGE aponta os principais fatores que impactaram as contratações no órgão brasileiro.  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - 28/05/2019

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À época, o Ministério da Economia tentou reduzir para R$ 2 bilhões, e fomos rigorosos, dizendo que tinha de ser R$ 2,3 bilhões. Então, não é que foi na bacia das almas. Talvez pudesse ter tido uma gordura maior? Talvez pudesse, mas tem a economia política do momento. Agora, não antecipávamos uma inflação tão grande como houve em combustíveis.

O projeto não tinha contemplado isso. E, dada a crise generalizada desde a pandemia, não esperávamos um mercado de trabalho tão aquecido quanto foi no ano passado. Fomos surpreendidos por isso. A remuneração que estava no projeto que determinou o valor que pedimos ficou aquém do que seria o mais efetivo para o momento do mercado de trabalho no segundo semestre do ano passado, mas, mesmo isso, há uma flexibilidade. No fim, fomos adaptando e fomos aumentando (a remuneração dos recenseadores). É importante dizer que houve problema de atratividade, mas o dinheiro não acabou. Quase R$ 500 milhões foram transferidos em restos a pagar para este ano.

Dá para garantir a qualidade do Censo 2022?

O Censo está atrasado, mas é de qualidade. Se tem alguma tragédia nesse Censo é a tragédia da deslealdade e do oportunismo. O IBGE teve um norte, que nunca foi ideológico, sempre com a missão de retratar a realidade. Fizemos, inclusive, um “dashboard” que acompanha a operação do Censo diariamente e compara com os censos de 2010 e de 2000. Quando detectamos problemas, corrigimos a tempo. Recebemos 20 países observadores em setembro. Chamei a autoridade estatística do Reino Unido para vir aqui. O problema da qualidade é a transparência e a correção. Existe ciência para isso. Temos controle sobre tudo. O ótimo é inimigo do bom, mas estou muito tranquilo.

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