‘Doação não é caridade, é investimento’, diz diretora executiva do Movimento Bem Maior

O importante, diz Carola Matarazzo, não é só ajudar: é integrar a ajuda na economia e promover o 3.º setor

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Por Sonia Racy
Atualização:
Foto: IARA MORSELLI/ESTADÃO
Entrevista comCarola MatarazzoDiretora executiva do Movimento Bem Maior

Por vocação, a administradora Carola Matarazzo se diz “uma sonhadora que conhece de perto a realidade”. Sua ocupação, ela própria define: “Minha vida e minha carreira se misturam com a filantropia”. Depois de 22 anos na Liga Solidária, com direito a passagem pela Liga das Senhoras Católicas e hoje como diretora executiva do Movimento Bem Maior, ela comanda uma luta para ampliar a capacidade de doação do PIB brasileiro. Tendo, no horizonte, uma certeza: “Doar não é caridade, é investimento”.

Não é cruzada fácil. A partir de uma iniciativa do empresário Elie Horn, da Cyrella, num grupo que reúne 11 executivos – entre eles, Jayme Garfinkel, Eugênio Mattar, Marcelo Kalim, Rubens Menin, André Laporte e Luciano Hulk –, o Movimento conseguiu em 2021 nada menos do que R$ 7 bilhões em doações entre pessoas físicas e jurídicas (número que, com a pandemia, encolheu para R$ 1,5 bilhão em 2022). O esforço do grupo, acrescenta, trouxe às pessoas um forte grau de consciência “sobre as desigualdades inaceitáveis do País”. Mas ela vê pela frente um duro desafio, que é criar normas legais, estímulos, como já fazem tantos outros países, para induzir pessoas de alta renda a ampliar essa ajuda. Nesta conversa com o Estadão, Carola faz uma comparação: o terceiro setor “é responsável hoje por 5,88% dos empregos no País, cerca de 6 milhões de pessoas” – ante 500 mil empregadas pelo setor automotivo. A seguir, os principais pontos da conversa:

Como você começou a trabalhar efetivamente no terceiro setor?

Depois de 22 anos na Liga Solidária, onde trabalhei muito com as demandas da periferia paulistana, o empresário Elie Horn, fundador da Cyrela, me propôs criar uma organização social de fomento à filantropia. Assim, há quatro anos fundamos o Movimento Bem Maior, que hoje conta com 11 associados, todos grandes empresários, que fazem doações do próprio bolso, visando melhorar a filantropia no País em favor de causas centrais como a questão ambiental e racismo, entre outras.

Qual o volume de recursos que vocês movimentam?

Nos últimos quatro anos, cerca de R$ 120 milhões. Na pandemia lideramos – com o Instituto de Desenvolvimento de Investimento Social (Idis) e a B Social – uma plataforma de captação. Montamos um fundo emergencial para a saúde que movimentou aproximadamente R$ 60 milhões, beneficiando 70 hospitais do País. Foram mais de 11 mil doadores em 6 meses.

Carola Matarazzo é diretora executiva do Movimento Bem Maior Foto: IARA MORSELLI/ESTADÃO

De que modo a pandemia afetou as doações?

Na pandemia, as doações estouraram. Em 2021, tivemos um recorde, registramos R$ 7 bilhões, entre empresas, pessoas físicas e movimentos da sociedade civil. No ano seguinte, R$ 1,5 bilhão, um declínio absurdo. Mas o que ganhamos durante esse período foi a ampliação de consciência quanto à interdependência e vulnerabilidade das pessoas. Ficaram evidentes as desigualdades do País.

Por que as doações diminuíram tanto?

Porque foi uma situação de emergência social no País, uma urgência de busca de acesso a direitos e garantia de direitos. Era um caso de vida ou morte. Também uma coisa de cenário político. Depois da pandemia, veio a mudança de governo, com um olhar para o social e estruturas mais eficientes, como a volta dos conselhos de participação.

Como funciona o Movimento Bem Maior?

Ela trabalha visando a filantropia estratégica, que difere da caridade. Você se vale de metodologias e mudanças sistêmicas, tudo ligado e interdependente. Por isso, é estratégica. Temos 11 associados, todos empresários grandes, e um braço muito forte de educação em inclusão produtiva. Por exemplo, fizemos advocacy na implantação da nova Base Nacional Curricular, para que ela tenha um impacto nacional. A filantropia estratégica parte de um princípio da filantropia colaborativa. Ela é sempre de coinvestimento.

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Como você avalia, nisso, a situação do terceiro setor?

Acabamos de cofinanciar uma pesquisa que foi elaborada pela Fipe sobre a importância do terceiro setor no PIB nacional. Atualmente, ele tem seis milhões de pessoas empregadas – isso significa 5,88% dos empregos no Brasil. Em 2022, o setor automotivo empregou 500 mil, uma contribuição para o PIB de 4,27%. Para efeitos comparativos, a agricultura entra com 4,57%. Muita gente acha que o terceiro setor são só organizações assistencialistas que fazem caridade. Não encaram esse setor como algo altamente profissional, que gera recursos, soluções e empregos para muita gente.

O que falta para que iniciativas assim ganhem força no País?

Primeiro, um arcabouço fiscal que as valorize. O Movimento Bem Maior, junto com outras grandes organizações, e escritórios renomados de advocacia do País fizeram advocacy na reforma fiscal. A primeira coisa é mudar o ITCMD, o Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação – que é o mesmo imposto para doação de heranças. Se taxássemos no Brasil entre 10% e 15% do patrimônio, já seria um número relevante, poderia fazer a diferença na área social. Também acredito que a taxação sobre heranças pode ajudar muito. Por que os Estados Unidos têm um volume de doações tão grande? É que lá tem uma taxação, então, eles doam em vida. E precisamos de um marco regulatório bancário, porque as organizações sociais têm uma dificuldade tremenda de abrir conta em banco.

Como criar aqui uma cultura de doação mais sólida?

Acho que existem alguns gatilhos. É preciso entender que a garantia de acesso a direitos é algo constitucional. Que temos de diminuir as desigualdades, como o problema racial e a questão do meio ambiente. São demandas urgentes. Sem elas, não vai ter planeta para se viver, nem estaremos aqui para conversar sobre isso.

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