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‘Brasil tem de dar incentivos agressivos a veículos elétricos’, defende vice-presidente da BYD

Executiva da maior fabricante global de carros a bateria e híbridos plug-in, com sede na China, Stella Li está no País para finalizar detalhes da compra da fábrica da Ford na Bahia

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Por Cleide Silva
Atualização:
Foto: Taba Benedicto/Estadão
Entrevista comStella LiVice-presidente global da BYD

Prestes a confirmar a compra da antiga fábrica da Ford na Bahia, a montadora chinesa BYD quer trazer para o País um ecossistema voltado à eletrificação, e não apenas a produção de carros híbridos e elétricos.

A vice-presidente global da companhia, Stella Li, de 53 anos, afirma que o valor a ser investido no mercado brasileiro vai depender de medidas a serem adotadas pelos governos para incentivar o consumo de modelos a bateria. “Não é preciso dar subsídios ao produtor, mas ao consumidor”, diz. “Só assim o mercado vai crescer e atrair mais fabricantes e mais investimentos em tecnologia.”

Um protocolo de intenção assinado com o governo da Bahia prevê investimentos de R$ 3 bilhões para três unidades no Estado, incluindo uma para ônibus e caminhões elétricos e outra para beneficiamento de lítio. Mas o grupo tem pelo menos R$ 10 bilhões reservados para projetos locais.

Stella Li está no Brasil para concluir as negociações com a Ford que se arrastam há mais de um ano e para participar, nesta quarta-feira, 27, do lançamento de um novo carro elétrico da marca, o Dolphin, por enquanto importado. O modelo é um hatch médio e custa R$ 150 mil.

Na BYD há 26 anos e desde 2010 à frente da área automotiva, foi ela que comandou as instalações das três fábricas do grupo no País entre 2015 e 2020, sendo duas em Campinas e uma em Manaus (AM).

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.

Por que a BYD decidiu produzir automóveis elétricos no Brasil?

Nós amamos o Brasil. É um país amigo do meio ambiente e tem uma grande indústria automotiva. A BYD atualmente é a maior fabricante global de veículos verdes. Foi a primeira empresa automobilística a interromper, em março de 2022, a produção de carros a combustão e passou a produzir apenas elétricos e híbridos plug-in. Não há chances de o carro a combustão continuar. Introduzimos nossos negócios aqui em 2012. Em 2015, inauguramos uma fábrica de chassis para ônibus elétricos em Campinas (SP). Dois anos depois abrimos uma unidade de módulos fotovoltaicos no mesmo local. Em 2020, iniciamos uma terceira operação em Manaus (AM) para baterias de fosfato de ferro-lítio. Somos um provedor de soluções tecnológicas para o meio ambiente e queremos trazer todo um ecossistema para o mercado brasileiro. Nosso sonho é realmente trazer tecnologia confiável e acessível para eletrificar o transporte no Brasil.

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Além da BYD, outros grupos chineses do setor automotivo estão vindo para o Brasil. Várias das montadoras que estão instaladas aqui há muitos anos costumam reclamar que perdem dinheiro no País. Por que, então, esse interesse agora?

Com base em nossos dados, acho que muitas montadoras fazem um bom lucro aqui. Acreditamos que o mercado brasileiro deveria se mover em direção à eletrificação e, portanto, queremos colocar nossa manufatura aqui. O mundo inteiro caminha para a eletrificação. Na China, a penetração de vendas de carros elétricos está acima de 25%. Na Europa está em torno de 22% a 28%. No Brasil, é menos de 1%. Mas, se todos os lugares estão apressando a adoção de veículos elétricos, por que não o Brasil? Como pioneira no negócio de energia verde, a BYD quer trazer o que há de mais avançado em alta tecnologia, construir uma fábrica avançada e permitir ao cidadão brasileiro desfrutar de um futuro de alta tecnologia acessível e muito bacana de veículos elétricos.

Para Stella Li, governo tem dar incentivos 'de forma agressiva' para apoiar o consumo de carros elétricos Foto: Taba Benedicto/Estadão

O que é preciso fazer para ampliar mais rapidamente o mercado local de elétricos?

Acho que o governo realmente tem de dar incentivos de forma agressiva para apoiar e fazer esse mercado crescer. Todos os países estão se movendo para atingir rápida participação de 10%, 12%, 20% de elétricos nas vendas totais. Portanto, esperamos que o governo brasileiro possa implementar algumas políticas fortes para impulsionar a indústria, pois assim o mercado passaria rapidamente para 20%, 30% de eletrificação. Isso beneficiaria o consumidor, ajudaria o País e a cidade (de São Paulo) a reduzir as emissões de CO₂. Esta manhã (segunda-feira, 26), quando vinha do aeroporto para o centro, tinha muito trânsito e observei a poluição do ar e sonora. Você olha lá fora e vê essa camada cinza no céu. Eu vim ao Brasil pela primeira vez em 2012 e voltei mais de 20 vezes. Cada vez descubro que há mais poluição. É preciso parar com essa poluição, mas sem o incentivo e apoio do governo aos elétricos esse índice não se moverá.

Que tipo de incentivo seria necessário?

Esperamos que o novo governo realmente se esforce para criar um plano de incentivo muito forte para subsidiar carros elétricos e torná-los mais acessíveis a todos. Não é preciso dar subsídios ao produtor, mas ao consumidor. Outros países também oferecem taxas de juros especiais para isso. É algo que o governo pode apoiar, em vez de dar dinheiro para subsidiar a gasolina.

Sem subsídios o mercado não cresce?

Se não houver subsídio para carros elétricos, a taxa de adoção dessa tecnologia será lenta e isso deixará o Brasil muito atrás de outros países. A China, por exemplo, deu muito incentivo ao consumidor no início das vendas de elétricos. As vendas aumentaram e os incentivos começaram a diminuir. O governo também deu incentivos para construir a infraestrutura e até instalou carregadores nas casas, gratuitamente. Caso isso ocorra no Brasil, empresas como a BYD e outras, incluindo fornecedoras, terão interesse em investir aqui e trarão mais tecnologia. O Brasil já tem uma matriz energética bastante limpa, o que é um grande trunfo. Um país que conta com todo esse recurso natural deve realmente apoiar a eletrificação.

A BYD teve algum encontro com o atual governo para discutir esse tema?

Teremos algumas reuniões em Brasília, mas ainda aguardamos a confirmação da agenda. Mas não falamos de incentivo apenas do governo federal, mas de todos os entes. Governos estaduais, por exemplo, poderiam ajudar com a infraestrutura de carregamento.

Se o governo brasileiro não fizer o que outros países estão fazendo, ficará para trás. O Brasil quer ser um líder na batalha de mudança climática ou não?

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Se não tiver incentivos, em parte porque o governo alega outras prioridades, a BYD pode alterar seus planos de investimento? Há informações de que pode chegar a R$ 10 bilhões.

Se não tiver nenhum incentivo ao consumo, talvez atrase nosso investimento total. Ainda vamos investir no Brasil, mas o aporte ocorrerá em pequenos passos. Mas, se o governo brasileiro não fizer o que outros países estão fazendo, ficará para trás. O Brasil quer ser um líder na batalha de mudança climática ou não?

As montadoras que já estão aqui tendem a partir primeiro para os híbridos flex e mais futuramente para os elétricos. Como a senhora vê essa opção?

A indústria e o mundo todo estão na transição da indústria convencional para a iniciativa verde. O Brasil precisa definir se quer ser competitivo, se quer participar dessa corrida ou quer ficar com um tipo de tecnologia antiga e perder a oportunidade de atrair empresas com tecnologia inovadora.

Quando será concluída a compra da fábrica da Ford?

Estamos no processo de finalização das discussões. Teremos novidades em breve. Assim que confirmarmos, vamos apresentar um plano mais detalhado de quanto vamos investir, quantos empregos vamos criar, que modelos vamos produzir. Mas nossa fábrica será preparada para modelos híbridos plug-in, elétricos e estudamos também os híbridos flex.

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Se não der certo a compra da planta da Ford, o que o grupo fará?

Temos um plano B.

A senhora vai se reunir nos próximos dias com representantes do governo baiano?

Sim, na próxima semana. Temos vários temas a tratar, por exemplo, o da instalação do VLT em Salvador.

Primeira unidade da BYD aberta em Campinas em 2015 produz chassi de ônibus elétricos Foto: Denny Cesare/Estadão

Qual sua avaliação sobre a situação econômica brasileira?

Quando um país enfrenta um desafio, é o melhor momento para impulsionar e recuperar a economia. A situação atual não é exclusividade do Brasil. Outros países, como os EUA, por exemplo, enfrentam inflação alta. Um grande empecilho hoje é o custo do financiamento. É importante que o governo encare o desafio como uma oportunidade para reiniciar o crescimento da indústria. Vejo que o novo governo está se concentrando em impulsionar a economia local. Portanto, lembre-se do que acabei de mencionar: apoiar a eletrificação pode parecer que o governo está dando subsídio, mas esse dinheiro será transferido para outros setores que poluem menos, vai desencadear uma cadeia de abastecimento local, o País vai se tornar menos dependente do petróleo e usar seu recurso natural como hidrelétricas ou energia solar. Isso impulsiona a economia local.

Os chineses vão liderar o mercado brasileiro de elétricos?

Até agora, acho que as montadoras chinesas estão acreditando mais que o futuro é a eletrificação. Aliás, se investirmos aqui seremos uma empresa brasileira. Nós queremos fazer do Brasil uma base da marca e podemos exportar para outros países próximos.

Sua principal concorrente será a GWM?

Acho que nosso maior concorrente são os carros convencionais.

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