‘O Brasil está na frente da fila para receber recursos de estrangeiros’, diz presidente do UBS/BB

Daniel Bassan acredita que os IPOs voltarão em 2024 e vão ajudar a melhorar outras transações, como fusões e aquisições

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Foto do author Altamiro Silva Junior
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Por Altamiro Silva Junior e Cynthia Decloedt
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Com duas guerras no mundo, desaceleração da China e juros altos nos países desenvolvidos, os investidores internacionais estão arredios com mercados emergentes. Mas a América Latina tem andado em direção contrária, e recebido recursos estrangeiros, especialmente o Brasil e o México.

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Só em novembro, até o último dia 22, já entraram R$ 15 bilhões na bolsa brasileira e mais capital externo pode chegar por aqui em 2024, na avaliação do presidente do banco de investimento UBS BB, Daniel Bassan. “O que tiver de fluxo de estrangeiro para emergente, eu diria que o Brasil está na frente da fila, o primeiro ou segundo lugar”, disse em entrevista ao Estadão/Broadcast.

A diferença desta vez em relação a outros momentos de atração de fluxo estrangeiro é que o Brasil ocupa a dianteira num momento em que os juros sobem nos Estados Unidos e Europa. Por isso, os recursos internacionais disponíveis podem ser menores que no passado, já que os investidores preferem aplicar nesses mercados mais seguros. Mesmo assim, Bassan afirma que “tem dinheiro para vir” e que não acha “que os estrangeiros vão ficar fora”.

O executivo está no comando do UBS BB no Brasil há três anos, quando foi fechada a parceria com o Banco do Brasil. Nesse momento, o banco atravessa uma nova fase, com a fusão, às pressas, do UBS com o Credit Suisse, costurada pelo governo suíço e que ainda está em curso.

Daniel Bassan, presidente do banco de investimento UBS BB Foto: daniela b motta

O ano de 2023 foi difícil para os bancos de investimento, com o escândalo contábil de Americanas fechando o mercado de capitais para novas captações por praticamente quatro meses no início de 2023. O ano é marcado ainda pelo prolongamento da seca de novas aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) na B3 e que já dura dois anos e meio.

Bassan acredita que os IPOs voltarão em 2024 e vão ajudar a melhorar outras transações, como fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), com as empresas captando recursos para bancar estes negócios. A expectativa do UBS BB é que as ofertas de ações dobrem no ano que vem. Este ano, as empresas captaram via bolsa, por meio de ofertas subsequentes, R$ 29,5 bilhões até outubro, boa parte entre junho e setembro, de acordo com dados da Anbima. Abaixo os principais trechos da entrevista.

Com juros em queda, e ao mesmo tempo aprovação da reforma tributária, ainda que com desidratação, como vê o cenário para investimento estrangeiro em 2024?

No terceiro trimestre, os números de investimento estrangeiro foram bastante positivos. Temos um estudo que mostra que Brasil e América Latina estão praticamente no nível mais alto da história de investimentos de estrangeiros. Isso está acontecendo já que, dentro dos mercados emergentes, Brasil e Índia talvez sejam lugares melhores para ficar. O movimento global é de saída de dinheiro de mercados emergentes, mas temos visto uma entrada em América Latina. O fluxo hoje tem saído da Ásia e entrado na América Latina. O Brasil está perto dos níveis mais altos dos últimos cinco anos e México tem subido também, até passou o nível mais alto da história.

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O que está ajudando o Brasil a receber esses fluxos? São mais razões internas, da economia brasileira, ou externas?

O volume de dinheiro em emergentes se reduziu e está indo para o mercado americano e europeu, por causa do aumento da taxa de juros. Os investidores estão querendo deixar o dinheiro nesses dois centros globais em detrimento dos mercados emergentes. Mas dentro do que sobrou nos emergentes, o dinheiro tem fluído mais para o Brasil, a Índia e até um pouco para o México. Comparado com o ano passado, é um fluxo pequeno, por causa da atração que a oferta da Eletrobrás teve em 2022 (que movimentou R$ 34 bilhões). Mas tivemos três grandes notícias positivas localmente. A primeira com o PIB (Produto Interno Bruto), que veio acima do previsto, muito puxado pelo agronegócio, com números muito expressivos. O segundo é a dívida pública em relação ao PIB, que está caindo.

A questão fiscal e da meta de 2024 tem sido muito debatida. Ela pode pesar na decisão dos estrangeiros?

Claro que a gente quer ter uma questão fiscal resolvida no curto prazo, mas esse é um problema global, não é um problema do Brasil. Se olhar de 2019 a 2023, o Brasil é uma das poucas economias que teve queda da dívida líquida em relação ao PIB. É claro que a dívida é alta, comparada com a maioria dos emergentes, mas a gente talvez tenha sido o que mais fez o dever de casa. Foi o País que teve maior queda nos últimos cinco anos. É normal ter essa discussão sobre o fiscal e estamos caminhando pelo lado positivo.

E qual o terceiro fator positivo que você vê na economia brasileira?

É a inflação, a última surpresa positiva da economia. Depois de uma expectativa de aumento da inflação, já vemos uma queda maior. Minha impressão é que o Brasil está um passo à frente dos outros países. Estou otimista, mas é claro que a gente não vive numa ilha, depende do que está acontecendo no resto do mundo, que não está no melhor dos momentos agora né? Discussão sobre crescimento da China, taxa de juros e inflação e a própria questão fiscal nos Estados Unidos, a questão geopolítica. O mundo está em um mar revolto, mas nosso barco está mais estável.

O fluxo de estrangeiros para 2024 ainda não está dado?

Não está dado, mas não por questões locais, mas sim globais. O que tiver de fluxo de estrangeiro para emergente, eu diria que o Brasil está na frente da fila, o primeiro ou segundo lugar. É uma pena estar na frente da fila em ano que os juros americanos estão subindo, então talvez haja menos fluxo. Este ano já tivemos um primeiro semestre muito bom de investimento estrangeiro, com o Ibovespa subindo e o dólar caindo. Tem dinheiro para vir, não acho que os estrangeiros vão ficar fora.

O ano de 2023 começou com o caso da Americanas e foi difícil para as captações no mercado de capitais. Como foi para o UBS BB, considerando que o UBS ainda teve a fusão lá fora com o Credit Suisse?

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As receitas (’fee pool’, pelo jargão do mercado financeiro) caíram, em torno de 30% a 40% no mercado. Nos produtos que o banco trabalha, melhoramos em relação ao que tivemos em 2022. O que teve queda foi em M&A e emissões de dívida (DCM, em inglês). O mercado de ações (ECM, em inglês), apesar de não ter tido novas aberturas de capital, foi melhor do que o ano passado, mas ainda significativamente pior que em 2021, ano muito forte.

O Sr. acha que os IPOs voltam em 2024?

Acho que voltam. Tem uma correlação histórica entre taxa de juros e o mercado de ações, por causa do fluxo de investimentos. Quando você tem a queda da taxa de juros historicamente abaixo dos 10%, você começa a ver fluxo maior dos fundos de renda fixa para a renda variável. Com a captação, esses fundos de renda variável precisam alocar e voltam ao mercado e, uma vez que as ações de empresas que já estão listadas ficam mais caras, há oportunidade de fazer IPO, de ações novas. O fluxo de gringo do primeiro semestre do ano foi muito bom, não teve o fluxo de brasileiro.

E porque o investidor brasileiro ficou de fora?

Basicamente porque teve resgate dos fundos, com um pico de saques em janeiro e fevereiro, depois foi melhorando e chegou a um ponto que agora está neutro, parou de ter resgates. E, por causa de histórias como a das Lojas Americanas, aconteceu movimento parecido também com fundos de crédito. A gente espera uma migração para ações no começo do próximo ano, permitindo maior volume de IPO. Nossa expectativa é que o mercado pode praticamente dobrar, em termos de emissão desse ano para o ano que vem.

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Dobrar o mercado de emissões de ações como um todo (IPOs e os follow-ons - ofertas subsequentes)?

As ofertas de ações como um todo em 2024. Esse ano, tivemos em torno de 20 ofertas. Acho que para o ano que vem pode ter algo como 35 a 40 transações. Haverá uma diferença significativa, pois em 2021 vimos que majoritariamente as ofertas que aconteceram foram direcionadas para crescimento. Em 2022 e 2023, 50% das ofertas foram direcionadas para redução de endividamento e um pedaço significativo foi para privatização, como a Copel. E esse movimento acaba afetando outros produtos, como M&A, que teve um volume de transações menor esse ano. Com a volta da captação para crescimento, conseguiremos melhorar outros produtos, porque a empresa pode captar em ações e dívida para investimentos ou aquisições.

Então a perspectiva para M&A fica mais positiva para 2024?

Fica mais positiva. O fato de ter tido muita emissão para reduzir a alavancagem em 2023, não ajudou nos outros produtos. Esperamos que as transações de M&A aumentem. Estamos com o pipeline (carteiras de novos negócios) grande, mas o ritmo das transações está mais lento este ano.

E qual o cenário para o mercado de dívida?

Também estamos otimistas. Esse ano vai ser um volume menor do que em 2022. Os volumes melhoraram já no terceiro trimestre e acho que vão melhorar mais ainda no quarto trimestre. Normalmente, tem um volume de 60% de emissões no segundo semestre de cada ano e 40% no primeiro. E esse ano talvez seja muito mais que isso, por causa do efeito da crise de crédito no primeiro trimestre, teve muito resgate dos fundos de crédito e o mercado ficou parado. O mercado esse ano deve encerrar com R$ 250 bilhões em volume. Em 2024, podemos ter uns 20% a mais. O mercado pode fazer entre R$ 300 bilhões, pelo lado conservador, a R$ 350 bilhões, pelo lado mais otimista.

Essas projeções incluem as debêntures incentivadas?

O que muda para o ano que vem são as emissões de dívida focadas em debêntures incentivadas, que tivemos muito esse ano porque os prazos e as taxas estavam melhores. Como teve muito volume nesse instrumento, estamos vendo agora e para o ano que vem o mercado voltar também a ter as operações focadas nos investidores institucionais. Em 2024, deve ter movimento mais balanceado entre renda fixa para incentivado e renda fixa para institucional.

E qual a perspectiva de captações no exterior para empresas brasileiras?

Historicamente em ano de eleição o volume de captações é menor. Esse ano, sem eleição, era para ter volume maior. Historicamente, temos um volume de US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões de emissões externas. Esse ano, estamos na metade disso e para 2024 vemos uma melhora, talvez chegando um volume total de US$ 20 bilhões.

Mas o custo de captação no exterior deve ser maior, considerando que o mercado americano está oferecendo retornos maiores?

Naturalmente o custo de emissão vai aumentar. O custo nominal em dólar pode ficar maior. Esse ano poderia ter volume maior, mas o fator custo é talvez o principal motivo de não ter havido um volume grande esse ano. Uma vez que se tenha uma visibilidade maior de até onde os juros vão subir nos EUA, aí sim vai começar a ter mais emissões.

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