Queda da renda vai tirar R$ 32 bilhões da economia de seis capitais até 2016

Após uma década de crescentes ganhos reais, 2015 será marcado pelo encolhimento dos salários, processo que deve se prolongar até o ano que vem

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Por Mário Braga
Atualização:

Pelo menos R$ 32 bilhões deixarão de circular nas economias das seis principais regiões metropolitanas do País deste ano até o fim de 2016 devido à retração da massa de rendimentos dos trabalhadores. Especialistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de informações da Agência Estado, projetam que, depois de uma década de crescentes ganhos reais na renda, 2015 será marcado pelo encolhimento dos salários, processo que deve se prolongar até o ano que vem, em meio a um ambiente de inflação alta, corte de vagas e remunerações mais baixas. Isso significa que, ao fim de 2016, o total de salários pagos aos trabalhadores brasileiros voltará ao nível de 2012.

Cálculos do economista Thiago Biscuola, da RC Consultores, apontam para uma retração de 4,5% na massa de rendimentos efetivos em 2015 na comparação com 2014, o que representa R$ 27 bilhões deixando de ser pagos aos trabalhadores das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre. "Isso seria, em média, R$ 2,2 bilhões a menos por mês rodando na economia dessas regiões neste ano", afirmou. Pelos cálculos do especialista, 2016 vai registrar um encolhimento adicional de 1% na massa de rendimentos, diminuindo em R$ 5 bilhões o total de salários e os recursos disponíveis para a economia.

Há dois conceitos de marketing que precisam estar equilibrados para não achatar a margem de lucro. Um deles é o WTP, ou willingness to accept, que diz qual é a pré-disposição que o cliente tem para pagar por determinado produto. Já o CTS, Cost to Serve, significa custo para servir, em outras palavras, qual será o gasto para produzir o que o consumidor deseja adquirir Foto: Fábio Motta/Estadão

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O pesquisador e professor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) Rodrigo Leandro de Moura avalia que esta quantia menor de renda disponível afeta a economia de maneiras distintas. "Se os trabalhadores não tivessem deixado de receber esse dinheiro, iriam usá-lo de diversas formas. Fosse poupança, consumo, tomada de crédito ou pagamento de dívidas, esse dinheiro iria circular na economia", disse.

Para se ter uma ideia da dimensão deste processo, levantamento feito pelo Broadcast revela que R$ 7,7 bilhões já deixaram de circular nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre desde fevereiro, quando a Pesquisa Mensal do Emprego (PME) começou a registrar quedas na massa de rendimento real das pessoas com alguma ocupação, seja formal ou informal. Este montante representa a diminuição da massa de rendimentos habituais acumulada entre fevereiro e maio de 2015 na comparação com igual período de 2014.

A última vez que a PME, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia registrado queda real da massa de rendimentos na comparação com igual mês do ano anterior foi em abril de 2004. Para Moura, no entanto, a situação agora é diferente porque além da inflação elevada, comum aos dois períodos, em 2015 o mercado de trabalho enfrenta o aumento do desemprego, que passou de 6,4% para 6,7% entre abril e maio, e passa também por uma fase de cortes de vagas.

A diminuição de dinheiro em circulação prevista contrasta com a forte expansão registrada desde 2004. Com base em dados do IBGE, o Broadcast apurou que em 2010, por exemplo, R$ 37,1 bilhões entraram em circulação nas economias das seis regiões cobertas pela PME, representando um aumento real de 7,46% sobre o total da massa real de rendimentos de 2009, de R$ 497,2 bilhões. Mesmo com uma desaceleração, ainda houve acréscimo de 3% em 2014, representando um aumento de R$ 18,4 bilhões em circulação na forma de salários.

Todo o País. Um levantamento paralelo feito pelo Broadcast, com base desta vez em dados compilados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), aponta que a mesma tendência pode ser percebida no mercado de trabalho de todo o Brasil. Em janeiro de 2015 houve a primeira retração na massa de rendimentos dos trabalhadores com carteira assinada desde setembro de 2002. Até abril, o dado mais recente, apenas em fevereiro o resultado não foi negativo.

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Com base no total depositado pela Caixa Econômica Federal nas contas vinculadas ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a Fipe calcula o valor mensal da folha de pagamento dos trabalhadores com carteira assinada de todo o País. Entre janeiro e abril, eles receberam R$ 1,2 bilhão a menos que em igual período de 2014.

A queda no rendimento real verificada em 2015 se deu após um processo de desaceleração iniciado em 2011, quando, a massa de rendimentos avançava mensalmente a um ritmo superior a 10% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Em 2012, o ritmo de avanço caiu para a casa dos 8%, passando a cerca de 6% em 2013. No ano passado, com a exceção de janeiro, quando o acréscimo foi de 8,4%, entre fevereiro e dezembro o aumento da massa real de rendimento desacelerou de 3,8% para 0,41% na base interanual. Neste ano, o ritmo se aprofundou de -0,90%, em janeiro, para -1,60%, em abril.

Moura avalia que a tendência é que este processo se intensifique pelo menos até o fim deste ano. "O desemprego vai continuar aumentando e a renda média vai continuar diminuindo ainda mais porque a inflação ainda não chegou a um nível mais baixo", afirmou. 

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