Soja criada no País com técnica de Prêmio Nobel usa menos água no cultivo

Variedade não é considerada transgênica e deverá estar disponível ao mercado mais rapidamente

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Por José Maria Tomazela
Atualização:

Com a demanda por água para a agricultura cada vez maior em razão das mudanças climáticas e a previsão de secas mais frequentes nas próximas décadas, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) acaba de obter um importante avanço tecnológico. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou um cultivar desenvolvido pela instituição brasileira resistente ao estresse hídrico, ou seja, a planta precisa de menos água para se desenvolver. Melhor do que isso: a variedade foi aprovada como soja convencional e não transgênica.

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De acordo com o pesquisador Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja, o cultivar foi criado com técnicas de edição genômica sem a necessidade de transgenia, ou seja, não houve inserção de gene de outra espécie. A Embrapa foi buscar em seu acervo genético uma planta lá do passado, provavelmente “arquivada” por não ser muito produtiva, mas que tinha em seu genoma a característica de se desenvolver com pouca água. Esse gene foi editado na outra planta.

O aprimoramento genético sem usar o DNA de outras espécies é possível a partir do método Crispr, sigla inglesa que, traduzida para o português, significa Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas. A técnica permite que se identifique em um material mais antigo uma característica que pode ser copiada em uma cultivar mais moderna. O método de edição gênica deu o prêmio Nobel de Química 2020 para as duas inventoras, a francesa Emmanuelle Charpentier e a americana Jennifer Doudna.

As equipes da Embrapa envolvidas no projeto comemoraram o veredicto da CTNBio. “A gente vive uma revolução tecnológica na genética de sementes. Por ser um processo não transgênico, a tecnologia estará disponível de forma muito mais rápida e a um custo menor para o produtor”, disse Nepomuceno.

Variedade precisa de menores volumes de água para se desenvolver Foto: Germano Rorato/Estadão

Antes de chegar ao produtor, a variedade será multiplicada em unidades de pesquisa e passará por testes no campo em várias regiões, inclusive em áreas mais secas.

De forma didática, ele explicou que na transgenia é utilizado o gene de outra espécie para obter determinada característica desejada para a planta. “Na soja transgênica, por exemplo, pegamos uma bactéria resistente ao glifosato e colocamos no cultivar esse gene tolerante ao glifosato. Assim, o produto usado para matar mato, não mata a soja transgênica. Hoje, com essa técnica do Crispr, conseguimos alterar a sequência do genoma usando o DNA da própria soja”, disse.

Para isso, não basta ter uma ferramenta de edição gênica, a tesoura molecular para trabalhar o DNA, se não souber exatamente onde a intervenção precisa ser feita. “É preciso ter todo o conhecimento da genética da planta. A soja tem uma variedade genética enorme e existem bancos de germoplasmas que armazenam a diversidade da espécie. Na Embrapa temos mais de 60 mil tipos de soja, o terceiro maior do banco de germoplasmas do mundo, após China e Estados Unidos.”

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Evolução tecnológica

Aquilo que Nepomuceno qualificou como “uma tremenda evolução tecnológica” propiciou esse avanço. “Há 20 anos, para sequenciar o genoma das primeiras sete pessoas, demorou-se mais de dez anos e custou US$ 2,4 bilhões (por volta de R$ 11,6 bilhões). Hoje para sequenciar o meu DNA inteiro, gasto de US$ 500 (R$ R$ 2,4 mil) a US$ 1 mil (R$ 4,8 mil) e faço isso em 4 horas. O mesmo vale para a soja. O DNA da soja, apresentado em 2010, demorou 15 anos e custou mais de US$ 100 milhões (R$ 486 milhões). Hoje consigo sequenciar o DNA de um tipo de soja em poucas horas e custa US$ 500″, comparou.

Ele explica que a nova tecnologia revoluciona o melhoramento genético. “Até então, se aparecia uma doença nova, era preciso ir ao banco de germoplasmas e fazer cruzamentos dessas sojas até conseguir uma variedade mais resistente. Esse processo de melhoramento demora de dez a 12 anos. Com a edição gênica, sequenciamos o DNA, vemos a sequência de genes que transmitem a característica que desejamos e, usando essa ferramenta, fazemos a alteração igualzinha à que está na planta. Ganhamos tempo, eficiência, precisão e reduzimos custo, pois é muito mais rápido.”

Países como a Argentina, Estados Unidos e Canadá têm a mesma legislação no sentido de que um cultivar quando não tem DNA de outra espécie não é transgênico, segundo o pesquisador. “Isso reduz de forma drástica os custos. São mais de US$ 100 milhões para se colocar uma variedade transgênica no mercado. Só as grandes multinacionais têm dinheiro para fazer esse processo. Na edição gênica isso está mudando. Instituições públicas como a Embrapa e pequenas empresas podem fazer isso.”

Nepomuceno revelou que a Embrapa já trabalha em um novo cultivar de soja com maior índice de ácido oleico, que pode colocar o óleo de soja culinário e o biodiesel de soja em outro patamar. “Atualmente 80% do nosso biodiesel é feito com óleo de soja, que tem baixo índice de ácido oleico, o que não é bom para a saúde, nem para o bom funcionamento dos motores. Na Embrapa a gente conhece as rotas metabólicas do óleo de soja. Vamos fazer uma variedade para produzir a soja com mais ácido oleico, capaz de produzir bem em todas as regiões de cultivo.”

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