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Taxa baixa de investimentos por muito tempo é um fator de preocupação, diz Galípolo

Segundo diretor do BC, redução da safra agrícola deve ser responsável pela desaceleração da atividade econômica em 2024

Foto do author Eduardo Laguna
Foto do author Francisco Carlos de Assis
Por Eduardo Laguna (Broadcast) e Francisco Carlos de Assis (Broadcast)

O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, avaliou nesta quinta-feira, 22, que efeitos defasados dos juros, junto com a redução da safra agrícola, apontam para uma desaceleração da atividade econômica neste ano. Porém, ele considera que a perda de tração econômica representa uma situação mais conjuntural, já que forças estruturais seguem sustentando a demanda.

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Entre as forças que geram resiliência do consumo, Galípolo citou a nova política de reajustes do salário mínimo e o reforço do Bolsa Família, além da contribuição positiva à renda vinda da queda da inflação e dos juros. “Pode ter redução (de crescimento) conjuntural, mas com forças que apresentam resiliência do ponto de vista estrutural”, declarou o diretor do BC durante evento na capital paulista da Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil.

Na avaliação de Galípolo, o setor externo pode contribuir menos ao crescimento, porém o saldo comercial, em especial a posição do Brasil de exportador líquido de petróleo, segue favorecendo uma situação privilegiada das contas externas no enfrentamento de choques internacionais, se comparada ao quadro de três ou quatro décadas atrás.

O ponto de maior atenção, pontuou o diretor do BC, está no baixo nível, já há anos, dos investimentos, que refletem as incertezas do cenário internacional e também os efeitos do ciclo anterior de aperto monetário. A preocupação é como dinamizar investimentos privados para ganhar produtividade para o País. “Esse é um ponto de preocupação e atenção”, frisou o diretor do BC.

Gabriel Galípolo diz que Brasil tem vantagens para atrair investimentos relacionados à transição energética Foto: Felipe Rau/Estadão

Apesar disso, Galípolo considerou que, em meio à reorganização das cadeias de produção, o Brasil, por suas vantagens comparativas na transição energética, está em situação privilegiada para atrair investimento, aumentar seu estoque de capital fixo e ganhar produtividade.

Em paralelo, Galípolo voltou a dizer que o diferencial da Selic frente aos juros dos Estados Unidos, ainda que em patamar historicamente baixo, segue atrativo na comparação com outras alternativas de investimento em mercados emergentes, permitindo uma menor volatilidade do câmbio.

O diretor do BC observou que US$ 6 trilhões tendem a sair dos Estados Unidos quando o país começar a cortar seus juros. “Cabe ao Brasil se apresentar como uma oportunidade atrativa”, salientou Galípolo.

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“Mesmo se o cenário internacional ficar mais adverso, o Brasil fica mais interessante frente a seus pares. Se não temos muita coragem de dizer que o pior já passou, estamos mais confiantes em dizer que estamos em situação melhor do que estávamos e se imaginava no passado”, concluiu.

Parcimônia nos juros

Galípolo destacou também que a cautela da autarquia na condução dos juros se deve a motivos positivos, ao apontar mais uma vez ao paradoxo, pouco usual, entre o desempenho resiliente da atividade econômica e o comportamento da inflação, em queda.

Usando a linguagem empregada nos documentos do BC, Galípolo ressaltou que a autoridade monetária tem defendido serenidade e parcimônia justamente por os indicadores econômicos estarem vindo melhores do que o esperado.

A correlação incomum entre variáveis econômicas leva a uma cautela em relação ao futuro pelos bancos centrais não só do Brasil mas também do resto do mundo. As autoridades monetárias se tornaram mais “data dependent” - ou seja, preferem aguardar a divulgação dos dados e reação do mercado para tomar decisões.

Durante o evento, ele comentou que há um consenso de que essa posição cuidadosa dos bancos centrais é menos nociva.

Galípolo assinalou que o mercado pode fazer apostas, porém o BC, diante das incertezas sobre como as variáveis vão se comportar, joga “na defesa” para causar o “mínimo de dano ao paciente”. Ponderando as dificuldades em acertar previsões, o BC tem preferido reagir à medida que os indicadores são revelados. Nesse sentido, ele voltou a destacar que, até a próxima reunião, entre 19 e 20 de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) contará com mais três medições do IPCA.

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