PUBLICIDADE

‘Antes, viramos robôs. Com IA, temos de focar nas habilidades humanas’, diz professor de Stanford

Pesquisador de tecnologias na educação, Li Jiang diz que ‘nova era’ exige que escolas mudem; para ele, não faz sentido pais incentivarem filhos a fazer cálculos ou memorizar conteúdos

Foto do author Renata Cafardo
Por Renata Cafardo
Foto: Divulgação
Entrevista comLi JiangProfessor da Universidade de Stanford

Estamos na era da inteligência artificial e a educação precisa mudar. É o que acredita o professor da Universidade de Stanford Li Jiang, responsável pela primeira disciplina da instituição - que fica no Vale do Silício, na Califórnia (EUA) - juntando IA, robótica e ensino. Para ele, não faz sentido escolas e pais ainda esperarem que as crianças aprendam por repetição ou memorizando conteúdos.

“Se você está incentivando seus filhos a fazer muitos cálculos, muito rápido e com muita precisão, isso não está certo. É o equivalente a uma mãe ou pai, sabendo que seu filho corre muito rápido, treiná-lo para vencer um carro”, afirmou Jiang, ao Estadão. “A IA e os robôs são muito melhores nisso.”

Por outro lado, diz, é preciso focar nas “habilidades humanas”, como criatividade, comunicação e inovação, que podem ser despertadas nas crianças ao aproximá-las das descobertas científicas.

“O que aprendem na sala de aula geralmente não é muito inspirador, são conhecimentos antigos. São importantes, mas não devem ser a única coisa. Deveriam ter canais para se expor a novidades da pesquisa, de universidades, laboratórios”, diz o professor, que frequentemente leva os dois filhos, uma criança e um adolescente, para assistir suas aulas em Stanford.

Jiang trabalha com programas de realidade virtual nas escolas, como o uso de óculos como o Apple Vision Pro, e acredita que eles trazem outra dimensão para a educação. “No futuro do trabalho, competiremos com o ser humano mais a inteligência artificial. Precisamos treinar as crianças para aprender a usar a IA, nós coexistimos com ela agora”, afirma.

“Ela é uma das ferramentas mais poderosas que já inventamos. Você não pode se recusar a usá-la.”

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Publicidade

Óculos Vision Pro, da Apple, permitem navegar na web com olhos e mãos e assistir a filmes em telas infinitas Foto: Guilherme Guerra/Estadão - 8/3/2024

Como vê o futuro da educação com novas tecnologias, como a inteligência artificial?

Nosso sistema educacional se concentrou apenas em treinar pessoas, mas no futuro do trabalho estaremos competindo com o ser humano mais a inteligência artificial. Então, quando você for para uma empresa, quando você estiver inserido em uma sociedade, o que as pessoas vão observar é sua habilidade de usar a IA para realizar tarefas. Portanto, nosso sistema educacional precisa mudar, precisamos treinar essas crianças para aprender a usar a IA e não devemos ter medo dela.

Mudar como?

O sistema educacional atual em todo o mundo é semelhante, há diferenças aqui e ali, mas é um sistema estabelecido na década de 1890. Era a época da revolução da eletricidade, quando ela começou a ser usada, substituindo a força muscular.

Empresas precisavam de novos tipos de trabalhadores, que tivessem conhecimento em várias áreas e pudessem operar máquinas de forma repetitiva. Foi então sugerido que começássemos a ensinar Química e Física no ensino médio, por exemplo, estabeleceu-se um currículo que até hoje seguimos.

Em certa medida, seguimos um sistema projetado para a era da eletricidade. Precisávamos de gente que pudesse operar máquinas de forma repetitiva ou que tivesse capacidade mental para trabalhar dessa forma. Os robôs são realmente bons nisso.

PUBLICIDADE

Mas, naquela época, não tínhamos robôs. O que fizemos? Nós viramos em robôs. Tudo isso mudou porque agora é a era da IA. Ela pode fazer muitas coisas que costumávamos pensar que apenas humanos poderiam fazer. Por isso, precisamos agora nos concentrar mais nas habilidades humanas.

Por que essa nova era da IA é tão diferente?

Finalmente, temos robôs com IA capazes de fazer todos os tipos de trabalhos. Agora, se o robô real está pronto, os falsos, que somos nós, precisamos devolver o trabalho porque eles realmente são melhores. Os humanos não são bons nisso. Assine seu nome 200 vezes e veremos quantas vezes você vai errar. Depois de assinar cerca de 50 vezes, você se questiona se é mesmo sua assinatura.

Por natureza, não somos realmente projetados para fazer esse tipo de trabalho. Mas os robôs não vão cometer nenhum erro. A IA e os robôs podem nos libertar de muitos desses trabalhos repetitivos para que possamos começar a fazer trabalhos mais criativos. É por isso que o sistema educacional agora precisa mudar.

Publicidade

O que é importante aprender hoje?

Nos velhos tempos, o conhecimento era a chave. Se você sabia algo e eu não, você tinha mais chances. Você poderia ir às bibliotecas, encontrar livros, memorizar conhecimentos. E, se alguém precisasse encontrar as informações, deveria ir à biblioteca, pegar todos esses livros. Hoje está tudo ao alcance de todos. Não competimos no conhecimento existente e em quão rápido você chega neles porque todos podem fazer isso.

É a inovação que importa, como usar o conhecimento e criar algo novo. É importante ensinar criação e inovação de modo mais humanizado, já que toda a IA ainda está presa ao anterior.

O jeito que você se comunica com a IA também é importante. Se derem a você um assistente humano novo que não te conhece bem e você der a ele uma tarefa, mas com pouca orientação, é provável que ele não produza o que você quer. A mesma coisa ocorre com a IA: ela não vai dar o que você quer.

Já vi empresas de IA aqui no Vale do Silício que colocaram anúncio de emprego para engenheiro de prompt, dizendo que não era necessário diploma em Ciência da Computação, mas, sim, boas habilidades de comunicação.

Fora inovação e comunicação, o que mais considera importante?

Você precisa ter a habilidade de diferenciar a capacidade humana da capacidade da máquina. Basicamente, se você está incentivando seus filhos a fazerem muitos cálculos, isso não está certo. É como pedir pra ele calcular mais rápido e com mais precisão do que uma máquina. Não tem sentido.

É o equivalente a uma mãe ou pai, sabendo que o filho corre muito rápido, treiná-lo para vencer um carro. É preciso saber como usar a IA como ferramenta; nós coexistimos com ela agora. E ela é uma das ferramentas mais poderosas que já inventamos, você não pode se recusar a usá-la.

Consegue dar exemplos do que precisa ser mudado nas salas de aula?

Precisamos começar a explorar. Ninguém sabe qual é a solução perfeita ainda. Mas hoje as crianças só podem aprender conceitos muito avançados após se formarem na faculdade, por exemplo. E esses conceitos são inspiradores e podem iluminá-las nas suas aspirações.

Publicidade

O que aprendem na sala de aula geralmente não é muito inspirador, são conhecimentos antigos. Não estou dizendo que o conhecimento antigo não é bom. Eles são importantes, mas não devem ser a única coisa que aprendemos no ensino fundamental e médio.

Eles deveriam ter canais para se expor às novidades que ocorrem na pesquisa, nas universidades, nos laboratórios nos últimos anos. Os cientistas deveriam dedicar algum tempo para ensiná-las de alguma forma.

Podem dizer que as crianças não sabem Matemática de alto nível, cálculo, álgebra linear, então como ensinar conceitos avançados? Mas as equações matemáticas têm significados de fundo, você não precisa se aprofundar nelas, mas pode ensinar o conceito e elas entenderão.

E o que o acha do argumento de que a IA impede as crianças de fazer reflexões que as levem ao aprendizado?

Temos de descobrir qual é a melhor maneira de aprender, mas isso não é motivo para dizer não à IA, ou dizer não aos celulares, ou aos computadores, porque já estamos nessa era. Apenas precisamos encontrar a melhor maneira de lidar com eles, de acompanhar o ritmo. Não podemos simplesmente manter essa coisa fora da sala de aula.

Quando chegamos a uma nova fase da humanidade, coisas novas surgem e sempre há resistência, as pessoas dizem: ‘não estamos aprendendo como antes’. Nada é puramente bom. Sempre há dois lados, precisa encontrar um equilíbrio. A calculadora foi um grande tópico no passado, se falava em banir da sala de aula.

Hoje, nos escritórios, nas empresas e fábricas, alguém confia em resultado calculado manualmente? Se eu trouxer um monte de resultados, e dizer que muitas pessoas juntas fizeram à mão, por dias, você vai dizer: pode verificar no computador se é isso mesmo? E você quer ficar incentivando seu filho a calcular, fazer algo 100% sem erros?

Com relação às outras tecnologias, há escolas nos EUA e nos Brasil que estão banindo os celulares. O que acha dessas medidas?

Minha sensação é que bloquear a tecnologia é como bloquear a água, acumula e acaba vazando…Ok, se proíbe celulares em todas as escolas, será que você realmente pode proibi-los depois da escola ou nas universidades? Claro que notamos que o tempo de atenção dos alunos é mais curto na universidade por causa das distrações causadas por mensagens de texto, eles olham para o telefone a cada minuto. É um problema. Mas em países asiáticos, os pais proíbem celulares e jogos de computador antes da faculdade. Depois que vão para a faculdade e os pais não estão por perto, eles começam a faltar às aulas. Eles só jogam no computador dia e noite, não conseguem mais se controlar, não têm a capacidade de lidar com isso, de dizer não.

Publicidade

O que preciso fazer então?

É preciso treinar as crianças, colocar alarmes para que aprendam que é hora de parar de usar, por exemplo. Depois de vários anos desse tipo de treinamento, quando o tempo acaba, eles simplesmente entregam para os pais o celular. É um treinamento para lidar com o forte desejo deles e isso também é importante na vida. Quando você realmente quer algo, mas simplesmente não pode fazer agora.

O jogo é uma coisa que pode ajudar a treinar as crianças nessa habilidade. Neste momento, não podemos apenas dizer ‘nao’. Qual é a maneira absolutamente certa de fazer isso? Qual é a maneira absolutamente errada de fazer isso? Está em algum lugar no meio, temos de encontrar o equilíbrio e descobrir qual a melhor estratégia para usar essas coisas na aprendizagem.

Não é zero ou um, usa ou não usa. É como misturar isso na educação para torná-la melhor. Francamente, a tecnologia revolucionou a sociedade e você quer afastar as crianças disso? Imagine se não tivesse um celular ou um computador, você conseguiria trabalhar ou fazer qualquer coisa hoje em dia, se comunicar com amigos, achar um endereço? Já faz parte dos seres humanos, conhecemos a importância dessas coisas e queremos proibi-las na escola. É melhor ensinarmos como gerenciá-las.

Você já afirmou que o Apple Vision pro, óculos da Apple de realidade virtual, deveria ser usado por crianças e até em escolas. Como?

Colaboramos com escolas de verão ao redor do mundo, com uma educação que usa realidade virtual. As crianças aprendem muito mais rápido do que os professores. Normalmente, temos de pedir às crianças que ajudem os professores a entenderem. É diferente de um computador, um tablet. É como se, por natureza, as crianças adorassem isso. Podem ver dinossauros, aprender sobre o sistema solar.

Por exemplo: se quiser desenhar o Sol e a Terra na proporção correta no papel, não tem como fazer, porque se diminuir o tamanho do Sol para o tamanho de uma bola de basquete, então a Terra é mais ou menos como um grão de sal e está a 24 metros de distância. Não há como você desenhar isso. Acho que mais de 90% das crianças têm a impressão errada do Sistema sSlar.

Com realidade virtual, você pode ver na proporção correta. Além disso, um grupo de crianças nos EUA e outro no Brasil podem trabalhar juntos, usando realidade virtual. É muito poderoso. Pode reduzir a distância, não importa onde você esteja. Desde que você esteja na Terra, podemos trabalhar juntos.

Que tipo de aprendizagem a IA pode oferecer?

Acho que é a primeira vez na história humana que podemos realmente impulsionar uma aprendizagem orientada pelo interesse. Sou professor, mas meus filhos sempre vêm com perguntas que não consigo responder. Eu digo: vá perguntar para o Chat GPT. Ele provavelmente tem mais de 99% de chance de ter alguma resposta. Pelo menos para guiá-los e dizer “você quer isso, pesquise aqui”. Porque se você me fizer um monte de perguntas em uma área que não conheço, eu nem sei para que lado apontar.

Publicidade

Mas você pode confiar nessas respostas?

Vai ficar muito melhor, claro. Toda vez que você obtém alguns resultados desses grandes modelos de linguagem, tem de fazer uma verificação dupla, mas pelo menos tem uma informação ou direção de onde verificar. Se o Chat GPT não te der isso, você nem saberá por onde começar. Ele já ajuda a reduzir o escopo. E o Chat GPT foi lançado há cerca de um ano e meio: ainda vai melhorar muito.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.