Como universidade no agreste nordestino virou líder em patentes no setor acadêmico

Federal de Campina Grande está nas primeiras posições de lista divulgada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Parcerias e conexão com problemas reais impulsionam desempenho

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Por Roberta Jansen
Atualização:

De todas as instituições de ensino superior do País, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) é a maior depositante de patentes de invenção, segundo o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). No ranking geral, a instituição do agreste da Paraíba figura em 2º lugar, atrás apenas da Petrobrás.

Não se trata de fato isolado. Desde 2017, a UFCG está entre os maiores depositantes de patentes de invenção do Brasil. A receita, segundo a própria universidade, está em dar treinamento técnico e científico para seus pesquisadores, além fazer parcerias com grupos estrangeiros e a iniciativa privada.

  • Na lista geral deste ano, com dados referentes a 2023, a universidade soma 101 depósitos, 60 a mais do que no ano anterior. A Petrobras teve 125.
  • Dentre os destaques estão biomateriais, próteses, princípios ativos da Caatinga para uso medicinal e máscaras de proteção feitas a partir da quitosana, substância extraída da casca do camarão.
  • Fica à frente de outras federais grandes, como a UFMG (4ª), e das estaduais paulistas, como Unicamp (7ª) e USP (18ª).
Conhecida por suas pesquisas tecnológicas, Federal de Campina Grande tem cursos em várias áreas; radiotelescópio, em parceria com cientistas estrangeiros, é um dos principais projetos Foto: Josemar Gonçalves/Estadão

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“Podemos facilmente constatar que as empresas que ladeiam a UFCG (como Petrobras e Fiat) têm orçamentos milionários para atividades de pesquisa e inovação”, afirma o reitor, Antônio Fernandes, que já coordenou os cursos de Medicina e Enfermagem.

“Em contrapartida, a UFCG, universidade federal pública situada no interior do semiárido nordestino, desenha uma trajetória de recomposição de orçamento, após anos de contingenciamentos e de atividades temporariamente interrompidas em virtude do período pandêmico.”

O bom desempenho da UFCG é atribuído à atuação do Núcleo de Inovação e Transferência Tecnológica (NITT), cuja função é, justamente, auxiliar cientistas no processo de inscrição de patentes, prospecção tecnológica, assessoria jurídica para contratos de transferência de tecnologia e procedimentos de proteção e propriedade intelectual.

“Por meio de conscientização e treinamento, o objetivo é proteger o conhecimento gerado nas nossas pesquisas, proteger antes de publicar”, afirma o professor Aldre Morais Barros, coordenador do NITT, citando um remédio contra hipertensão desenvolvido com base no veneno da jararaca e patenteado por uma farmacêutica estrangeira.

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“Outras instituições esperam que o pesquisador busque a patente, enquanto nós promovemos oficinas, estimulamos o treinamento, ensinamos a fazer”, diz Barros. “Costumo dizer para os alunos que é mais fácil do que escrever um artigo para uma revista científica”, compara.

Esse acompanhamento começa ainda nos cursos de graduação, não apenas no mestrado e no doutorado, justamente para criar uma cultura de depósito de patentes.

Um os principais projetos científicos da UFCG é o novo radiotelescópio brasileiro, que deve entrar em funcionamento em 2025 e o promete ser o maior da América Latina. O principal objetivo do instrumento é estudar a misteriosa energia escura, que forma a maior parte do universo, mas que ninguém sabe de que é feita.

O equipamento está sendo desenvolvido em colaboração internacional com universidades de China, Inglaterra, África do Sul, Coreia do Sul, Itália, Alemanha e Estados Unidos. As obras para a instalação já começaram na cidade de Aguiar, na Serra do Urubu, interior paraibano.

Professor Amílcar Rabelo de Queiróz, da UFCG, dá aula no câmpus de Campina Grande  Foto: Josemar Gonçalves/Estadão

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Embora a UFCG seja mais conhecida por seus cursos nas áreas tecnológicas, a instituição oferece formação em todas as áreas. Somente na graduação, são 77 cursos, distribuídos pelos sete câmpus da universidade: Cajazeiras, Sousa, Pombal, Patos, Sumé, Campina Grande e Cuité (todos na Paraíba)

“O processo de ensino precisa ser desenhado de forma diferente, baseado na solução de problemas e avaliando invenções para saber se é relevante, se pode ser reproduzida em larga escala, se é competitivo e também como escrever uma patente”, diz o físico Adalberto Fázzio, integrante da Academia Brasileira de Ciência (ABC).

“Muitas universidades não conseguem reestruturar seus cursos de graduação dessa forma, com técnicas pedagógicas diferenciadas ligadas a problemas reais”, afirma ele, diretor da Ilum Escola de Ciência, do Centro Nacional de Pesquisa em Materiais, graduação interdisciplinar em Ciência, Inovação e Tecnologia

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De fato, essa é uma das orientações da UFCG. “Fazemos pesquisa de ponta em sintonia com as necessidades que a sociedade impõe”, ressalta o reitor da UFCG.

“Muitas coisas nos chegam por meio das empresas também, projetos de arquitetura, de design, de próteses médicas; e geramos estímulo para os grupos de pesquisa mais atentos às novas imposições dos nossos tempos. A universidade precisa estar atenta a esse dinamismo.”

Não por acaso, a universidade tem diversos projetos em parcerias com empresas das mais diversas, caso da própria Petrobrás e da Microsoft, além projetos em conjunto com instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).

Baixa presença da indústria no ranking acende alerta, diz especialista

Presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader diz que a colocação da UFCG não é surpresa. Ela chama a atenção para o fato de, dentre as 50 instituições ranqueadas, 35 serem universidades e apenas 15 indústrias.

“Eles são espetaculares; vêm crescendo em colaboração com a indústria, transformando conhecimento em produtos”, afirma Helena Nader, ao se referir à UFCG.

“O que é espantoso nesta lista é termos poucas indústrias depositando patentes. Essa deveria ser a função maior da indústria e só mostra como o nosso setor produtivo está mal em inovação. De forma geral, a indústria brasileira não tem pesquisa; compra de fora’, alerta.

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