Competências socioemocionais podem ser um antídoto à violência nas escolas?

Pesquisadores acreditam que essas habilidades são capazes de promover a cultura de paz a longo prazo, garantindo a construção de uma sociedade mais plural

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Por Sofia Lungui
Atualização:
7 min de leitura

A partir da onda de ataques que atingiram diferentes instituições de ensino nas últimas semanas, muito se tem falado sobre a necessidade de ser disseminada a cultura da paz. Na última semana, diversos colégios no Estado de São Paulo passaram a realizar atividades para promover a paz e a tolerância dentro do ambiente escolar, com ações como manifestações e rodas de conversa. Uma estratégia também usada para essa finalidade é o desenvolvimento das competências socioemocionais, e especialistas acreditam que isso pode contribuir no combate à violência.

Desde 2020, a formação dessas habilidades está normatizada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tornando sua abordagem obrigatória nos planos pedagógicos escolares de todo o País. O documento prevê dez competências gerais que devem ser promovidas por meio da educação, incluindo aspectos cognitivos, culturais, éticos e socioemocionais. Essas diretrizes envolvem eixos como abertura ao novo, autogestão, engajamento com os outros, amabilidade e resiliência emocional.

As competências socioemocionais começaram a ser mais valorizadas no âmbito de políticas públicas a partir da preocupação com a incidência de casos de bullying Foto: Escola Gracinha

As competências socioemocionais começaram a ser mais valorizadas no âmbito de políticas públicas a partir da preocupação com a incidência de casos de bullying, violência nas escolas e suicídio de adolescentes. Para muitos educadores, essas habilidades são um antídoto para esses problemas.

Para o professor Cesar Nunes, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), trata-se de uma solução preventiva, para ser pensada a longo prazo. “Para convivermos de forma harmoniosa dentro da pluralidade, temos de aceitar as diferenças e entender que alguns conflitos são naturais. Isso ocorre por meio do cuidado com o outro, do acolhimento, de espaços de escuta. Temos uma sociedade permeada pela polarização e por discursos de ódio, e isso acaba vindo para dentro da escola. Vai demorar para reverter esse quadro, mas a educação tem papel importante em configurar o que temos na sociedade”, explica.

Polícia realiza patrulhamento em frente à escola Thomazia Montoro, na zona oeste de São Paulo Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO - 20/04/2023

Segundo o pesquisador, os recentes casos de violência mostram que as estratégias que estão sendo usadas não são suficientes. Para ele, o desenvolvimento das competências socioemocionais deve ser pensado com o intuito de garantir uma sociedade mais plural, com foco no coletivo, e não só no desenvolvimento individual e desempenho de cada sujeito. “Falta pensar no contexto social e nas diferenças. Temos de levar em consideração que os alunos estão inseridos em diferentes realidades e culturas”, diz o integrante do grupo de trabalho “Ética, democracia, e diversidade”, do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp.

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DIAGNÓSTICO

O Instituto Ayrton Senna tem conduzido diversos estudos sobre o impacto das competências socioemocionais na educação. De acordo com Ana Crispim, gerente de projetos do eduLab21, laboratório de ciências da instituição, o desenvolvimento desse conjunto de habilidades pode ajudar a mitigar a violência. “Desconexão com os pares e dificuldade de lidar com os sentimentos são alguns dos problemas enfrentados por estudantes que partem para esses ataques extremos. É importante construir um ambiente em que os alunos possam pedir ajuda quando sentirem a necessidade, saberem que podem contar com aquelas pessoas”, afirma.

Para Ana, esse trabalho deve ser realizado conjuntamente com outras áreas, para que tenha efeito sistêmico. Segurança, saúde, assistência social e educação devem atuar em conjunto. “Quando falamos de prevenção, temos de trabalhar três macrocompetências: autogestão, amabilidade e resiliência emocional. Essa estratégia deve ser acompanhada de ações preventivas, elaboração de protocolos e ajuda de profissionais qualificados para lidar com casos psiquiátricos. Por fim, devemos ter políticas públicas que garantam acesso a tudo isso”, comenta a psicóloga e pesquisadora.

Quando falamos de prevenção, temos de trabalhar três macrocompetências: autogestão, amabilidade e resiliência emocional. Essa estratégia deve ser acompanhada de ações preventivas, elaboração de protocolos e ajuda de profissionais qualificados para lidar com casos psiquiátricos

Ana Crispim, gerente de projetos do eduLab21

Em 2021, o Instituto Ayrton Senna realizou um mapeamento socioemocional em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. O estudo de autorrelato investigou como os estudantes percebiam as suas competências, olhando também para saúde mental, desempenho escolar, pertencimento escolar e violência. Realizada com 694 mil estudantes da rede paulista de mais de 7 mil escolas, a pesquisa buscou também compreender os efeitos do período de ensino remoto, comparando dados de 2021 com os de 2019, período anterior à pandemia.

Houve quedas em todas as competências socioemocionais para todos os anos escolares analisados, sendo que amabilidade e autogestão foram as habilidades mais afetadas. Conforme os dados de 2021, 36,5% dos alunos se percebiam pouco ou nem um pouco capazes de praticar a empatia, e 49,2% deles acreditavam não serem capazes de exercer a persistência.

EXEMPLOS PRÁTICOS

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No Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo, todos os professores e gestores passaram por uma formação de dois anos voltada para estratégias de desenvolvimento de competências socioemocionais, o que levou à criação de um projeto autoral de convivência ética. Além de ter sido implementada uma disciplina específica desse conteúdo para os alunos na grade curricular, foram planejadas diversas atividades permanentes, como rodas de conversa, espaços de mediação de conflitos e assembleias semanais.

Outro exemplo é a criação das equipes de ajuda. Trata-se de um grupo de alunos cujos integrantes são escolhidos pelos próprios colegas, em uma iniciativa mais voltada para o acolhimento. Esses jovens passam por uma formação e atuam como mediadores, ouvindo os problemas e relatos de outros estudantes, e dando o encaminhamento adequado para essas questões, contando com a orientação dos professores, quando necessário.

O grupo foi pensado para ser um espaço de escuta mais próximo e confortável para os alunos, formado somente por estudantes. “Fomos percebendo que, se a gente não cuidasse dessas questões socioemocionais, de nada adiantaria o ensino-aprendizagem. Se os estudantes não estão seguros e confortáveis no ambiente escolar, todo o processo é comprometido. Queremos que nossos alunos sejam agentes de transformação”, afirma Irma Akamine Hiray, diretora da instituição na Vila Clementino, zona sul paulistana.

Fomos percebendo que, se a gente não cuidasse dessas questões socioemocionais, de nada adiantaria o ensino-aprendizagem. Se os estudantes não estão seguros e confortáveis no ambiente escolar, todo o processo é comprometido

Irma Akamine Hiray, diretora

Na Escola Nossa Senhora das Graças (Gracinha), no bairro do Itaim-Bibi, na mesma região, também estão sendo desenvolvidas diversas atividades para construir um ambiente democrático para os alunos. Daniel Cerqueira, orientador pedagógico do colégio, observa que um dos frutos desse trabalho é a excelente capacidade de argumentação que os estudantes apresentam. Para ele, isso é resultado dos espaços de diálogo que a escola proporciona.

A Gracinha tem diversos coletivos e núcleos conduzidos pelos estudantes, como um grupo feminista, um voltado para questões LGBT+ e outro que está sendo formado com foco no combate ao racismo. “São espaços de protagonismo dos jovens. Acreditamos que o desenvolvimento das competências é algo atrelado ao processo de aprendizagem”, afirma Cerqueira.

Para trabalhar a questão das diferenças, a escola Tarsila do Amaral, por sua vez, tem realizado projetos especiais, com o olhar voltado para as competências socioemocionais na infância. “O tempo todo promovemos brincadeiras com as crianças para apresentar a diversidade cultural brasileira, compartilhando cultura e hábitos de diversas regiões, de modo a mostrar que o diferente não é ruim, para aproximá-los de outros contextos”, diz Maria Veima de Almeida, diretora pedagógica do colégio, localizado na Água Fria.

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Com uma abordagem transversal, por fim, a Carandá Educação tem o desenvolvimento das competências socioemocionais como foco. Essas questões passam por todo o processo de planejamento das disciplinas, até os momentos dentro e fora da sala de aula. Além disso, também são realizadas ações voltadas especialmente para essa finalidade, como orientação educacional, aula de projetos, rodas de conversa e assembleias.

Para Ana Cristina Bortoletto Dunker, mantenedora e diretora geral da escola, um dos resultados mais palpáveis desse trabalho é que o colégio forma cidadãos com perfil de transformação social. “Quando perguntamos para ex-alunos por que escolheram determinada profissão, eles sempre dizem que é para resolver algum problema no mundo, alguma questão que está posta. Criamos as condições para que desenvolvessem essa responsabilidade social. Isso é papel da escola, contribuir para construirmos um mundo melhor, mais diverso e inclusivo.”

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