SP lança programa de alfabetização: modelo funciona? Especialistas comentam

Programa de alfabetização do governo de São Paulo promete alfabetizar 90% das crianças com 7 anos de idade até 2026

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Por Caio Possati
Atualização:

O governo de São Paulo promete alfabetizar 90% das crianças com 7 anos de idade até 2026, e pretende atingir esse objetivo por meio do programa educacional Alfabetiza Juntos SP, lançado pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) nessa terça-feira, 20.

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A proposta prevê uma parceria do Estado com os municípios, e a eficácia da política do governo paulista será testada por meio de provas que serão aplicadas três vezes ao ano. Esses exames avaliarão a fluência leitora dos alunos do 2º ano do Ensino Fundamental.

A fluência leitora, na prática, é a habilidade de ler corretamente um total de 45 a 60 palavras por minuto, e servirá de indicador para avaliar o nível de alfabetização dos alunos paulistas.

Programa do governo de São Paulo pretende promover alfabetização em 90% das crianças até 2026. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Uma avaliação feita em dezembro do ano passado com estudantes do 2º ano do ensino fundamental de 600 municípios paulistas identificou que 64% dos alunos têm o índice de fluência leitora adequado para a idade. Os outros 36%, porém, foram enquadrados como pré-leitores, ou seja, não atingiram o nível de alfabetismo esperado para esta fase da escolaridade.

As fases de introdução ao letramento e alfabetização das crianças costumam ficar a cargo das prefeituras, por envolver as fases da pré-escolas e dos primeiros anos do fundamental. Especialistas ouvidos pelo Estadão consideram importante o movimento que o Estado faz de articular uma política com os municípios.

Eles apresentam, porém, ressalvas ao Alfabetiza Juntos SP. Uma delas é relativa ao foco na avaliação da fluência leitora, uma vez que a alfabetização engloba outros aspectos, como escrita, interpretação de texto e construção de sentido a partir da leitura.

“Tem pontos do Alfabetiza Juntos SP que são importantes e acertados, principalmente no que diz respeito à articulação da política com o Ministério da Educação e governo federal, e a colaboração do Estado com os municípios”, afirma a pedagoga Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec, entidade que atua na área de educação.

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“Há cidades mais estruturadas como São Paulo, as do ABC Paulista, Ribeirão Preto. Esses locais têm universidades, pesquisadores, e mais tradição”, observa Anna Helena. “Mas existem municípios muito pequenos que não têm capacidade técnica e financeira para desenvolver os próprios programas (de alfabetização). E essa pode ser a realidade da maioria das mais de 600 cidades do Estado.”

Na opinião dela, entretanto, o governo se equivoca ao usar a fluência leitora como único parâmetro para avaliar sucesso do programa. Ela acredita que, ser aprovado em provas que testam a capacidade do estudante de apenas decodificar o que está escrito não dá, ao aluno, a garantia de uma alfabetização adequada para a continuação na escolaridade.

Governador Tarcísio de Freitas durante lançamento do programa Alfabetiza Juntos SP. Foto: Francisco Cepeda / Governo do Estado de SP

“Me preocupa uma política que seja muito centrada em apenas um dos aspectos da alfabetização, que é a fluência leitora, e desconsidera outros aspectos que são importantes da leitura e da própria produção escrita”, afirma. “Se a alfabetização focar apenas na decodificação, até pode gerar bons resultados em testes, mas não vai garantir que o aluno, na sequência, consiga ler e compreender (um texto), construir sentido, e interpretar o que está lendo”, acrescenta.

Ela sugere também que avaliação seja mais abrangente e não fique restrita somente aos estudantes de de 7 anos, uma vez que alunos que foram alfabetizados durante a pandemia, há três, quatro anos, podem apresentar uma defasagem nas habilidades de leitura e escrita.

“(O programa) Tem foco muito grande no 2º ano, mas é necessário olhar para os estudantes que estão mais adiantados, que são alunos que estavam no 1º e no 2º durante a pandemia, e agora estão no 5º e 6º ano”, diz.

Qualificação do ensino infantil

Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, entende que o lançamento do Alfabetiza Juntos SP é uma amostra de que o governo de São Paulo assumiu “papel fundamental” na articulação com as demais esferas administrativas e entende que o programa tem acertos por considerar as idades corretas de alfabetização.

Para ela, porém, ainda é necessário que o governo avance na qualificação da educação infantil e na conexão desses processos de aprendizagem nas demais etapas educacionais”.

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“É impossível falar de alfabetizar o 1º e 2º anos sem conectar isso a todo um processo de desenvolvimento que começa na gravidez e segue na primeira infância — que é a fase da creche (do nascimento aos 3 anos e) e também a fase da pré-escola (etapa de 4 a 5 anos e 11 meses)”, diz a especialista.da creche (do nascimento aos 3 anos e) e também a fase da pré-escola (etapa de 4 a 5 anos e 11 meses)”, diz a especialista.

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