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(Viramundo) Esportes daqui e dali

Libertem a alegria!*

A caretice domina o futebol. Não demora, e tudo será proibido, porque sempre tem alguma coisa politicamente incorreta dentro ou fora de campo. É faixa de protesto de torcedor que não pode ser exibida na arquibancada, pois o juiz se sente ofendido. É jogador que não deve dar declaração polêmica, porque assim desrespeita o rival. Divididas são reprimidas com cartão, de preferência o vermelho, como aconteceu com Neymar, em Porto Alegre. E, absurdo maior, é autor de gol que não pode comemorar com a torcida, por infringir o regulamento.

Por Antero Greco
Atualização:

Este último pecado é dos mais frequentes e se repetiu no Pacaembu, ontem à tarde, nos 3 a 0 do Corinthians sobre o Sport. Paulinho fez o primeiro gol, no começo da etapa final, e na sequência se dependurou no alambrado para festejar. Subiu, dedicou o lance para alguém, desceu, foi abraçado pelos companheiros e voltou para o gramado.

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Como reagiu sua senhoria Jean Pierre Gonçalves Lima? Mostrou o amarelo, pois o rapaz descumprira a regra. Está escrito que não se pode chegar perto do público para vibrar, assim como não é permitido levantar ou tirar a camisa. Só se pode no máximo fazer alguma dancinha, uma coreografia qualquer, mesmo ridícula, e receber os cumprimentos dos colegas, dentro dos limites do área de jogo. Ou, concessão suprema, abraçar a turma do banco de reservas. Comportem-se, diz o conselho de sábios da International Board que elabora as regras do jogo. Sejam comedidos, rapazes!

O furor justicialista prevaleceu no momento sublime do futebol e num gesto singelo, quando Paulinho homenageava amigo, parente, a mãe, a namorada, sei lá. Sei que foi bonito, nada espalhafatoso, nem desrespeitoso. Paulinho é dos jogadores mais discretos que há por aí.

A comemoração não demorou, sequer emperrou o jogo. Paulinho, na explosão de contentamento, recebeu punição semelhante a uma botinada dele que resultasse em fratura na perna de um adversário. Não há meio-termo ou bom senso. O árbitro, frio, não interpreta, não pondera; só aplica a regra.

É preciso acabar com essa distorção. Não se pode punir jogador que apenas tentou compartilhar gol com os fãs. Não houve humilhação, muito menos provocação, nem de longe aquilo soou como cera. Só sincera felicidade. Os mais velhos curtiram estripulias de César Maluco nos anos 1970, que chacoalhava os gradis e se jogava nos braços do povo. Quantas vezes Viola não fez algo parecido? Ronaldo, ao marcar o primeiro gol pelo Corinthians, derrubou alambrado em Presidente Prudente e ganhou placa.

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Neymar expulso. Outra cruzada estapafúrdia se revela na distribuição de cartões, sob a alegação de que se pretende coibir a violência. Ótimo, jogo desleal deve cair fora. Mas há exagero: muitos esbarrões ou empurrões seculares no futebol ganham peso de crimes hediondos. Às vezes, o sangue ferve, como na troca de pontapés e no pisão de Neymar em Pará. O mediador, no lugar de chamar os jogadores e conversar, já distribui vermelho. Como se dessa forma mostrasse pulso e autoridade. Faria melhor se captasse a adrenalina da jogada. Perceberia, então, que o lance morreu no ato, pois ambos, amigos antigos, se deram as mãos.

Em Curitiba. Mas essas trapalhadas viram café pequeno diante do comportamento estarrecedor de um grupo de torcedores do Coritiba. Um bando de covardes pressionou e ameaçou agredir um homem e a filha, no Couto Pereira, porque a garota cometeu o erro de ganhar uma camisa de Lucas, após o jogo com o São Paulo. Detalhe: a mocinha tem 12 anos de idade. É o fim.

 *(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 1/10/12.)

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