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‘Viver no Catar era uma tortura mental’, diz primeiro homem do país a se assumir publicamente gay

Relações entre pessoas do mesmo sexo é crime no país da Copa, e ONG afirma que há casos de LGBTs sendo presos sem direito à defesa; governo diz que todos são bem-vindos

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Foto do author Luciana Dyniewicz
Por Luciana Dyniewicz
Atualização:

“É difícil ouvir o governo do Catar dizer: ‘Claro, todos serão bem-vindos no país’, quando eu não sou bem-vindo na minha própria casa”, diz Nasser Mohamed, o primeiro catariano a se assumir gay publicamente. Médico, Mohamed vive desde 2015 em São Francisco, nos EUA, país que lhe concedeu asilo por entender que ele corria risco no Catar simplesmente por ser gay. No país que recebe a Copa 2022 a partir deste domingo, é crime ser gay, lésbica, bissexual ou transgênero, e sexo extraconjugal, incluindo entre pessoas do mesmo sexo, pode ser punido com até sete anos de prisão.

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Mohamed anunciou ao mundo sua orientação sexual em maio deste ano por estar incomodado com a imagem que o Catar vinha tentando vender em sua preparação para o Mundial. “Tem um marketing sendo feito para a Copa que não está passando a imagem real do que acontece com as pessoas LGBT+ no país”, diz ele.

“Falei publicamente sobre mim para dar voz à nossa comunidade, trazer nossa perspectiva, porque temos medo até de falar. No começo do ano, soava como se pessoas LGBT+ não existissem lá. Eles (o governo catariano) falam que gays serão bem-vindos, que a sociedade é tolerante. Isso não é verdade. É uma sociedade violentamente homofóbica. Isso precisa ser conhecido.”

Nasser Mohamed vive nos EUA desde 2015; em 2017, conseguiu asilo no país Foto: Arquivo pessoal

Desde que começou a conceder entrevistas sobre sua orientação sexual para veículos internacionais, Mohamed passou também a ser alvo de ataques na internet, conta. “Eles variam de ameaças de morte a bullying online.”

O médico catariano diz temer também que o governo de seu país faça algo contra ele, sobretudo depois do Mundial. “Honestamente, não sei o que eles podem fazer. Os movimentos deles são imprevisíveis e o alcance é grande. Eles estão conectados com políticos e pessoas ricas em todos os lugares, pessoas que estão dispostas a fazer qualquer coisa por eles.”

Mohamed, entretanto, acredita que, enquanto a Copa durar, ele estará relativamente seguro. Isso porque, ao falar com a imprensa internacional, ele começa a se tornar conhecido globalmente. “O Catar se preocupa muito com sua imagem. Como tem muita gente prestando atenção em mim agora, eles não vão me machucar. Meu desafio é conseguir continuar seguro depois da Copa, quando as pessoas pararem de falar do país. Aí acho que poderei ser um alvo.”

A preocupação de Mohamed pode parecer exagerada para pessoas que não conhecem o Catar, mas, segundo a ONG Human Rights Watch (HRW), há denúncias de casos no país em que o Departamento de Segurança Preventiva prendeu e espancou arbitrariamente pessoas LGBT+. Uma mulher trans afirmou à HRW que apanhou até perder a consciência. Outra, que foi mantida em uma solitária por dois meses. Cinco pessoas reportaram à ONG que, entre 2019 e 2022, foram vítimas de assédio sexual enquanto estavam presas. Foi Mohamed quem ajudou a HRW a entrar em contato com parte dessas pessoas.

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Esses catarianos, ainda de acordo com a HRW, tiveram de se comprometer a participar de sessões de “terapia de conversão” e assinar documentos em que afirmavam que cessariam “atividades imorais”. Eles não tiveram direito a defesa e não receberam nenhum tipo de registro de que haviam sido presos. A ONG aponta que suas detenções podem ter sido baseadas em uma lei de Proteção à Comunidade, que permite prisões por até seis meses sem acusação ou julgamento se existirem “razões bem fundadas de que houve violação da moralidade pública”.

Uma mulher trans que contou sua história para a ONG afirmou que foi detida em uma rua de Doha, com policiais a acusando de “imitar mulher”. Um homem gay disse ter sido preso após ser vigiado pela polícia na internet.

“As vítimas dizem que o governo prende pessoas com base em suas atividades online, uso de aplicativos de relacionamento, mensagens . Não sabemos a extensão e a capacidade de vigilância, mas tudo indica que é ampla”, diz a diretora da HRW no Brasil, Maria Laura Canineu. Segundo ela, os relatos apontam que, após realizar uma prisão, a polícia vai atrás também dos que mantinham contato, por telefone, com a pessoa detida.

Por e-mail, um oficial do governo afirmou ao Estadão que “nunca houve relatos de violência contra pessoas com base em seus antecedentes ou crenças”. Disse também que o país é “relativamente conservador” e valoriza “a privacidade e o respeito, valores que são estendidos a todos”. “O sistema legal do Catar protege os direitos de todas as pessoas e garante procedimentos jurídicos de acordo com a lei. Isso inclui aconselhamento jurídico e julgamento justo para todos”, destacou.

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Também afirmou que as denúncias da HRW são falsas, que a entidade não procurou o governo antes de publicar o relatório e que os procedimentos no país são “sustentados por um compromisso de direitos humanos para todos”. “O governo do Catar não opera ou licencia quaisquer ‘centros de conversão’. A clínica de reabilitação mencionada no relatório apoia indivíduos que sofrem de condições comportamentais, como dependência, transtornos alimentares e transtornos do humor, e opera de acordo com normas médicas internacionais.”

‘CASA’

Nasser Mohamed admite que, apesar da “homofobia da sociedade catariana”, gostaria de voltar para “casa”. Ele, porém, diz que isso jamais seria possível e conta que apenas o fato de conversar com a reportagem do Estadão poderia ser visto como um crime. “Falar com a imprensa sobre opiniões diferentes das do governo pode ser considerado crime cibernético. Eu teria problemas por isso também.”

Longa de “casa”, o catariano tentou contato com sua família pela última vez quando pediu asilo aos EUA. “Disse para eles que não voltaria para casa. Ao menos dei a eles a chance de me aceitarem. Eu sabia que eles não iriam, mas eu queria ver a reação deles. Eu estava certo. Eles não me aceitaram, e esse foi o fim da nossa relação.”

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Mohamed, no entanto, achou que, quando tornou sua orientação sexual pública, seus parentes iam ligar para brigar com ele. Nada aconteceu. “O medo que eles têm do governo é maior do que a raiva deles. Eles têm medo hoje de estabelecer contato comigo por causa do governo. Então não me ligaram nem para brigar.”

Me sinto ameaçado e exposto, mas senti que precisava falar. O fato de nenhum outro catariano falar disso publicamente deve dar uma ideia do quão perigoso é fazer isso

Nasser Mohamed

O médico conta que, enquanto viveu no Catar, nunca se relacionou com ninguém nem falou sobre sua orientação sexual, o que lhe impedia de criar conexões “autênticas” com as pessoas. Quando deixou o país, fez sua primeira tatuagem, que, em árabe, diz: “Agradei os outros com uma vida que me levou à morte. Agora é hora de outros me verem renascer vitorioso”.

Segundo Mohamed, ser um adolescente gay no Catar era uma “tortura mental”. Ele não podia se expressar como realmente era e não se sentia uma “pessoa inteira”. Apesar de Mohamed não ter tido relações enquanto vivia em seu país, ele diz que, obviamente, as pessoas encontram um jeito para se conhecer, seja por aplicativo ou em pequenos grupos LGBT+.

“Eu não me sentia seguro lá, não sabia para quem podia ou não contar. Aplicativos são muito arriscados, porque você nunca sabe se tem alguém da polícia neles. Algumas pessoas se relacionam quando saem do país, mas, quando voltam, não se arriscam. Outros conhecem pequenos grupos de pessoas LGBT+. É basicamente um mercado ilegal. Ninguém sabe de verdade o que todo mundo está fazendo.”

Mohamed afirma que, se para homens gays, a situação é difícil, para mulheres lésbicas, é ainda pior. Elas sofrem uma pressão maior para se casarem, conta. Algumas tentam se casar com homens gays. “Elas não têm voz”, diz o médico.

Mohamed criou uma ONG que está arrecadando recursos para dar apoio à população LGBT+ do Golfo Pérsico Foto: Arquivo pessoal

A situação da população LGBT+ no Catar fez Mohamed criar uma campanha de conscientização. Durante a Copa, ele contará, em suas redes sociais, uma história por dia de um catariano anônimo que faz parte da comunidade LGBT+. Ele também criou uma ONG chamada Alwan Foundation (fundação cores, em português), que está arrecadando recursos que serão destinados a ajudar na proteção da comunidade gay da região do Golfo Pérsico.

Na semana passada, o médico catariano ainda lançou uma espécie de torcida organizada da seleção do Catar, chamada Proud Maroons (marrons orgulhosos, em português). O nome é uma referência ao apelido da seleção (Maroons), e seu slogan diz se tratar do “grupo de torcedores LGBTQ+ da seleção que o Catar nunca quis ter”. Nas redes sociais, Mohamed destacou ser a única torcida que, na verdade, não pode ter membros de seu próprio país, porque “fazer parte do grupo os mandaria para a prisão”.

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Apesar da visibilidade que a Copa está dando ao assunto, Mohamed destaca que não vê o momento como “uma oportunidade” para chamar a atenção do mundo para a situação da população LGBT+ em seu país. “Estou vivendo tudo isso como uma crise de estresse. Me sinto ameaçado e exposto, mas senti que precisava falar. O fato de nenhum outro catariano falar disso publicamente deve dar uma ideia do quão perigoso é fazer isso.”

Uma das tatuagens de Mohamed diz: 'Agradei os outros com uma vida que me levou à morte. Agora é hora de outros me verem renascer vitorioso' Foto: Arquivo pessoal

Enquanto os catarianos não podem falar, jogadores europeus pretendem lembrar da questão durante o Mundial. Capitães de seleções como Inglaterra, Alemanha, Suíça e Bélgica, entre outras, prometem usar braçadeiras com as cores do arco-íris, símbolo da luta LGBT+. Na semana passada, a companhia aérea Lufthansa anunciou que pintou o avião que transportará a seleção alemã com a mensagem “Diversity wins” (diversidade vence, em português).

Procurado pelo Estadão, o governo catariano reforçou que o país é “inclusivo e acolhedor” e tem uma “cultura de hospitalidade calorosa”. “Nosso histórico de sucesso em sediar centenas de eventos internacionais demonstra isso claramente, e a Copa do Mundo de 2022 não será diferente.”

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