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Futebol, seus bastidores e outras histórias

Opinião|João Doria no Santos: política e futebol caminham juntos não é de hoje, sempre com aplausos e vaias

Ex-governador de São Paulo diz que pode, se muito, apoiar algum candidato a presidente do time da Vila Belmiro, mas que, por ora, não quer se meter no comando do clube

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Foto do author Robson Morelli
Atualização:

O ex-governador João Doria não é o primeiro político a se aproximar do futebol. A prática é antiga. Doria é santista e tem o nome especulado pelas chapas que vão disputar as eleições presidenciais no Santos ainda neste ano. Disse que não quer, mas todo político diz isso quando é lançado aos leões para verificar o termômetro das urnas em qualquer situação. Muitos não querem, mas acabam aceitando. Doria disse ao Estadão, por ora, que pode ajudar algum candidato à presidência do clube.

Futebol e política é uma combinação comum, em alguns casos explosiva e benéfica mais para o político do que para o clube. Laudo Natel era diretor financeiro do São Paulo e foi duas vezes governador do Estado, numa delas em substituição a Ademar de Barros, cassado pelo regime militar em 1971. Natel ajeitou a construção do Morumbi que está de pé até hoje com a mesma estrutura.

Ex-governador João Doria é santista e diz que poderia ajudar algum candidato na eleição do clube neste ano Foto: Tiago Queiroz / Estadão

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Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto. Em 1982, ele contratou o desconhecido técnico Luiz Felipe Scolari para o CSA, de Alagoas, clube sob o seu comando e o de família. No Vasco, o deputado Eurico Miranda talvez tenha sido o deputado federal mais barulhento do esporte. Era tudo para o Vasco e nada para os outros. Sua base sempre foi a torcida. Teve ainda o senador Luís Estêvão no comando do Brasiliense. Foi denunciado pelo Ministério Público Federal no Distrito Federal (DF) por usar o time para lavar dinheiro no período de 2001 e 2005. 

Alguns se valem do futebol e sua popularidade para entrar na política, como o corintiano Andrés Sanchez, eleito deputado federal em 2014, mesmo ano da Copa do Mundo no Brasil e da inauguração do estádio do clube em Itaquera. Antes disso, fez barulho no clube do Parque São Jorge. Há outros casos em que a política e o esporte mais popular do planeta andaram de mãos datas. Pelé, o maior de todos, foi ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. 

Há semelhanças nas funções, mesmo embora o político devesse trabalhar para o público de forma geral e não para um restrito grupo. Políticos no futebol tendem a focar em suas bases. Eurico era para e pelo Vasco e para ninguém mais. Era o que o movia na vida pública. O cidadão político sabe conversar, tem ideias para ajudar, vai levando a situação até o fim do seu mandato ou quando o abandona por outros interesses. Tem uma base com quem conversar, entre cobranças, promessas e aplausos. Há os mais e ou menos fieis, mas nunca anda sozinho.

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Assim como as verbas públicas, o futebol também tem seu dinheiro para administrar. Os clubes mais bem organizados têm receitas de R$ 1 bilhão por ano, como o Flamengo. O time do Rio está muito acima do outros nesse quesito. Palmeiras tem receita na casa dos R$ 800 milhões, um pouco menos. São Paulo estima fazer neste ano algo em torno de R$ 650 milhões, um pouco mais do que o Santos, para onde João Doria olha nesse momento: R$$ 450 milhões. O Corinthians estima R$ 700 milhões.

É muito dinheiro. Há empresas sólidas no Brasil que não têm essa receita. O problema é que apenas alguns times controlam com responsabilidade essa verba, que quase sempre é pouca para o quanto gastam no mesmo período. Quando as coisas vão bem dentro de campo, o presidente é ovacionado. Mas quando não vão, ele é condenado. Nesse ponto, o político consegue se virar melhor na vida pública.

A cobrança no futebol é mais imediata e regular. Tende a ser também mais regionalizada. Na política, alguns conseguem furar essa bolha e se tornar nomes nacionais, claro, com ambições maiores. Alguns se valem do futebol para aparecer e testar sua popularidade. Jair Bolsonaro e Lula são especialistas nisso. Bolsonaro foi em muitos jogos durante seu mandato. Era vaiado e aplaudido.

Mas é preciso ter ‘estômago’ para suportar as vaias nas arquibancadas, os coros de ‘burro’ e de ‘ladrão’ quase sempre gritados por torcedores quando o time não está bem. O presidente do Santos, Andres Rueda, sofre com isso na Vila. Não que seja uma coisa ou outra, mas é assim que o futebol condena seus cartolas. E nem todos na política conseguem suportar esse tratamento. Machuca. Doria, por ora, não quer se candidatar a presidente do Santos.

Opinião por Robson Morelli

Editor geral de Esportes e comentarista da Rádio Eldorado

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