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É falso que chá de jambolão seja a cura da diabetes; especialistas alertam para riscos

Doença não tem cura e uso de bebidas sem prescrição médica pode causar graves danos à saúde

Por Milka Moura
Atualização:

O que estão compartilhando: vídeo em que uma mulher afirma que o chá das folhas do jambolão “cura 70 anos de diabetes”.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O chá das folhas do jambolão não tem eficácia contra a diabetes, que é uma doença sem cura. Especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica alertam que o uso de chás sem indicação médica pode ser danoso para a saúde do paciente.

Uso de chás sem prescrição médica pode causar graves danos à saúde Foto: Arte/Estadão

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Saiba mais: Em um vídeo compartilhado no Instagram, uma mulher afirma que o chá das folhas do jambolão curou a diabetes de sua mãe, e pode reverter até “70 anos de diabetes”. A peça publicada no dia 30 de junho chegou, até a publicação desta verificação, a mais de 140 mil curtidas.

O jambolão (Syzygium cumini), também conhecido como jamelão, é uma planta que dá frutos semelhantes à azeitona, com uma coloração escura e sabor adocicado. A noção de que o chá de suas folhas é eficaz contra a diabetes é bastante difundido na sabedoria popular, mas não tem comprovação científica. Um estudo de 2006 feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) concluiu que a bebida não possui efeito hipoglicemiante, ou seja, não tem ação de controle da hipoglicemia no sangue.

O diretor do Departamento de Diabetes Mellitus da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o médico Wellington Santana, explicou que durante o estudo grupos separados fizeram uso do chá do jambolão, placebo e um remédio para tratamento da diabetes. Apenas o grupo que fez uso do medicamento teve melhora na glicose. “O que eu posso dizer pra você com toda certeza, já que já foi testado, é que o jambolão não funciona para redução de glicose”, afirmou Santana.

Ser natural não significa ser seguro

Não só o jambolão como outras “receitas milagrosas” são repassadas com a promessa de cura ou controle da diabetes: carqueja, pata de vaca, farinha da casca do maracujá e até uma planta chamada insulina. Nenhuma destas tem a capacidade de curar a doença.

A coordenadora do Departamento de Educação em Diabetes e Campanhas da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a médica Dhiãnah Santini, confirma que nenhum chá é recomendado para o tratamento da doença. “Os remédios que a gente usa para tratamento precisam ser estudados, passar por protocolos internacionais de pesquisas clínicas, serem submetidos a aprovação dos órgãos regulatórios que fiscalizam o uso de medicamentos para que você então, conhecendo o funcionamento da substância no organismo, possa sim indicar individualmente para o tratamento do diabético”, explicou.

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Outro alerta feito pela coordenadora do SBD é que o natural não é sinônimo de segurança e a combinação de chás e medicamentos sem o devido acompanhamento médico pode ser fatal.

“Chás e outras substâncias não estudadas não são recomendadas para o controle do diabético porque a gente não tem informações sobre eficácia, segurança e efeitos colaterais”, apontou. “Muitos chás têm relatos sérios e importantes de etapas de toxicidade e morte. Ser natural não é garantia de segurança e eficácia. As pessoas precisam consultar os seus médicos e não combinar essas substâncias”.

Santini relembra que atualmente não há cura para a diabetes. Mas é possível que o paciente faça o controle da doença com um tratamento médico individualizado que inclui o uso de remédios adequados, aliado à alimentação saudável e exercícios físicos.

Segundo Wellington Santana, é comum que pacientes abandonem o tratamento que já está sendo realizado pelo médico para utilizar apenas a “receita natural”. Em casos de pessoas que possuem, por exemplo, de disfunção renal (rins) ou hepática (fígado) em decorrência da diabetes, a pausa no tratamento e o uso concentrado desses chás pode agravar esses quadros.

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Outro ponto de alerta é a falsa sensação de melhora em casos de pessoas que já sofrem com outras patologias. “Quando o indivíduo começa a evoluir com perda de função renal a tendência da diabetes é ir melhorando”, acrescentou Santana. “Então é comum que em estágios de disfunção renal a glicose dê uma melhorada e isso pode levar a uma falsa percepção de controle glicêmico a partir de substâncias que não estão melhorando a glicose, na verdade são nefrotóxicas”.

Preço de medicamentos para diabetes aumenta o apelo para tratamento com plantas naturais, diz Wellington Santana

De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 15,5 milhões de pessoas com diabetes mellitus são acompanhadas nos serviços da Atenção Primária. Os dados são do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab) referentes ao primeiro quadrimestre de 2023. Em nota ao Estadão, o órgão informou que o programa Farmácia Popular garante a distribuição gratuita dos medicamentos cloridrato de metformina, glibenclamida e insulinas.

O diretor do Departamento de Diabetes da SBEM explica que a prevalência da doença no País e o preço dos remédios que são usados para tratamento é um fator que contribui para que as pessoas procurem uma cura em receitas naturais. “Pra ter uma ideia, hoje há tratamento do diabetes que custa ali R$ 500, R$ 400 por mês”, destacou. “Quando a gente fala das drogas mais baratas, elas estão caindo na casa dos R$ 150 por mês. Então é claro que existe um apelo muito grande de substâncias que pudessem ser cultivadas no nosso quintal”.

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Como lidar com publicações do tipo: É preciso ter cuidado redobrado com receitas que prometem a cura para alguma doença. Desconfie de tudo que não tiver comprovação científica ou aval de alguma entidade de saúde.

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