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É falso que cantor de banda de forró tenha sido preso por fazer música sobre Alexandre de Moraes

Produção da banda chegou a confirmar história, que não passava de encenação para gravação de um clipe, disse advogado

Por Clarissa Pacheco
Atualização:

O que estão compartilhando: que o cantor Rony Brasil, vocalista da banda de forró Arriba Saia, foi preso em Feira de Santana (BA) na noite do dia 2 de julho de 2023 por causa de uma música chamada “Alexandre de Moraes”, que faz referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro também teria ordenado que a música fosse retirada de todas as plataformas digitais em 24 horas, sob multa diária de R$ 5 mil, em caso de desrespeito.

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O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A história se espalhou nas redes sociais e chegou a ser confirmada pela produção da banda ao Estadão Verifica, mas não se sustentava. Além de não haver registro de prisão do cantor Rony Brasil por nenhuma das autoridades policiais baianas ou nacionais que atuam no Estado, também não havia registro de mandado de prisão em aberto no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O STF negou atuação no caso e não foi localizado nenhum processo contra o cantor na Justiça estadual ou federal relacionado à música. Ronivaldo Sousa Cerqueira responde apenas a ações anteriores por injúria e denunciação caluniosa. Procurado pelo Verifica, o advogado do cantor confirmou que a história era falsa e alegou que a suposta prisão fazia parte da gravação de um videoclipe para divulgação da música, que foi lançada em abril e vinha sendo tocada em shows durante os festejos juninos.

 Foto: Reprodução

Saiba mais: A suposta prisão do cantor foi primeiro noticiada em blogs locais, mas logo repercutiu em publicações nas redes sociais. Pelo WhatsApp, leitores do Verifica pediram que fosse checada a informação de que o cantor de uma banda de forró havia sido preso na cidade de Feira de Santana (BA) por conta de uma música “polêmica” com o ministro Alexandre de Moras. No Twitter, os posts iam além e afirmavam que a prisão havia sido ordenada pelo próprio ministro, o é falso.

Foto com viatura

Uma suposta “prova” de que o cantor Rony Brasil havia sido preso era uma foto do ônibus da banda Arriba Saia atrás de uma viatura da Polícia Militar da Bahia. A foto teria sido feita, segundo publicações locais, em Feira de Santana. Na realidade, a imagem foi feita em Cruz das Almas, o 62 quilômetros de Feira de Santana, e a viatura que aparece na foto é da 27ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), que atua na cidade.

Foto de ônibus atrás de viatura foi feita em Cruz das Almas, na Bahia Foto: Reprodução

O Verifica entrou em contato com a Polícia Militar da Bahia para perguntar sobre o motivo da suposta apreensão do ônibus e prisão do cantor, mas a corporação negou que isso tivesse ocorrido. “A unidade informa que, atuando no policiamento do município no período junino, foi acionada por prepostos da prefeitura municipal para realizar a escolta do ônibus que trazia os músicos até os fundos do palco para a apresentação do grupo, o que foi feito, não havendo quaisquer registros de detenções dos artistas ou de encaminhamento da banda à delegacia”, diz nota da polícia.

Em seguida, o STF foi procurado para informar se havia atuado ou se existia algum mandado de prisão contra o cantor por ordem do ministro Alexandre de Moraes, mas o Supremo também informou que a situação era inverídica.

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Produção mentiu sobre ocorrência

Apesar de a Polícia Militar da Bahia e o STF negarem a prisão de Rony Brasil, a produção da banda chegou a confirmar ao Estadão Verifica que o vocalista havia sido preso e que havia uma ordem judicial para que a música em homenagem ao ministro fosse retirada do ar em até 24 horas.

Questionada sobre ter havido uma ordem judicial, a produção afirmou que o documento estava em poder dos advogados da banda e que eles só deveriam falar após as investigações. Um produtor chegou a dizer que estava “tudo sob sigilo” e que não poderia “conversar muito” porque o telefone está “sendo observado”, insinuando a existência de um grampo.

Em seguida, foram enviados dois vídeos para a reportagem, que mostravam, supostamente, o cantor saindo do posto avançado da Polícia Federal em Feira de Santana com uma liberação. A chegada do vocalista com o documento era comemorada pelos outros integrantes da banda, que entravam no ônibus logo em seguida. Questionada quando as imagens tinham sido feitas, a produção não mais respondeu à reportagem, nem mesmo quando solicitado que os advogados falassem, já que a prisão foi negada por órgãos oficiais.

Cantor entrou em posto da PF para pedir informação

Embora o vídeo tenha sido feito em frente a uma unidade da Polícia Federal, a corporação também negou ter prendido o cantor ou qualquer outra pessoa envolvida em banda de forró no domingo, dia 2 de julho. Em nota, a PF disse que o cantor entrou no local pedindo uma informação aleatória na manhã de segunda-feira, 3, e deixou o local em seguida.

Produção enviou para reportagem vídeo que, supostamente, mostra cantor sendo liberado de posto da Polícia Federal, mas ele só entrou no local para pedir informação Foto: Reprodução

“O suposto cantor compareceu ao Posto Avançado da PF, em Feira de Santana/BA, na manhã de hoje (03/07) para solicitar informações e, logo após, deixou as instalações do órgão”, diz nota da PF. Na saída, a produção gravou a saída do artista e o encontro com os demais integrantes.

O Verifica questionou ainda se havia registro de prisão de Rony Brasil por parte da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Civil, o que também foi negado. Também não havia registro de mandado de prisão em nome do vocalista.

Imagens de videoclipe “vazaram”, diz advogado

Por fim, o Verifica conseguiu localizar um dos advogados do cantor ao fazer uma busca por processos em nome dele no Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA). Igor Saulo Ferreira Rocha Assunção afirmou que a banda gravava o videoclipe da música Alexandre de Moraes na cidade de Cruz das Almas, onde havia feito um show no dia 2, e simulava uma prisão por parte da polícia, quando foi advertida informalmente por policiais.

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“Eles foram advertidos informalmente por policiais que poderiam ser presos se continuassem cantando a música nos shows, para surpresa deles. Mas era uma advertência informal e eles resolveram interromper e avaliar melhor”, disse o advogado, que destacou que a música é uma homenagem, e não uma crítica a Alexandre de Moraes.

A música tem versos como “Eu nunca vi um homem só, derrubar um batalhão / Ele é careca, exigente, guarda a Constituição / Lá em Brasília todo mundo já tem medo do Xandão / Derruba político corrupto, cambada de ladrão”. Outros afirmam: “Mas se todo mundo andar na linha [Xandão é bom] / Não tema, não corra, não fuja das quatro linhas”. Mas há, também, menções a bloquear redes: “Vou bloquear o seu Zap, seu Facebook”.

Igor Saulo admitiu não haver qualquer ordem judicial sobre o caso, diferentemente do que disse a produção da banda. “Aquilo ali é conteúdo produzido para clipe. Vazaram alguns trechos que eles estavam fazendo a gravação do clipe e alguns acreditaram, mas realmente não foi verdade. Não tem multa, não tem prisão, não tem nada”, declarou.

A banda teria, em seguida, um show na cidade de Serra Preta (BA), mas não compareceu, segundo informou o cantor por meio do advogado, “em razão da advertência informal que receberam”.

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