Ganhador do prêmio Nobel não disse que dormir em jejum faz bem à saúde

Vídeo distorce pesquisa de Yoshinori Ohsumi, laureado em 2016; pesquisadores esclarecem que ainda não há estudos suficientes ou consenso científico sobre o tema

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Por Gabriela Meireles
Atualização:

O que estão compartilhando: que o vencedor do Prêmio Nobel de Medicina Yoshinori Ohsumi constatou que dormir em jejum faz bem à saúde. Na explicação do vídeo, Ohsumi teria mostrado que, ao dormir de estômago vazio, o corpo automaticamente fagocita células velhas e sinaliza as cancerígenas para o sistema de defesa.

O Estadão Verifica apurou e concluiu que: é falso. Na verdade, o estudo que venceu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2016 investigou o processo de autofagia em células de levedura. Ohsumi mostrou que um mecanismo semelhante é usado nas células do corpo humano para reciclar seu conteúdo. O nobelista não afirmou categoricamente que há benefícios do jejum antes de dormir.

Nobelista Yoshinori Ohsumi não afirmou categoricamente que há benefícios do jejum antes de dormir. Foto: Reprodução

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Saiba mais: O conteúdo verificado aqui começa dizendo que uma célula cancerígena consome mais energia que uma célula velha ou ineficiente. Por sua vez, a célula envelhecida usa mais energia que uma saudável. A professora de Patologia e pesquisadora da área de câncer do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Sara Bernardes explica que essa informação está equivocada.

De acordo com a pesquisadora, células envelhecidas consomem até menos energia que as células normais. Já as células cancerígenas de fato consomem mais, porém elas podem se reprogramar para obter energia de outras fontes que não da alimentação. “Vale destacar que dependendo do tipo de câncer e do estágio da doença, uma privação energética pode inclusive contribuir para a piora do quadro clínico”, explica. “Ainda não existe um consenso sobre esse assunto na literatura científica”, afirma.

A respeito do jejum para pessoas com câncer, a coordenadora da comissão de comunicação da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban) Lara Natacci completa que ainda há poucas pesquisas sobre o assunto. “Alguns estudos falam que existe uma redução da capacidade das células cancerígenas de sobreviverem no caso do jejum, outros estudos falam do aumento das células saudáveis, da capacidade delas de resistir à quimioterapia”, afirma.

Natacci explica que a maioria dessas pesquisas ainda usa animais de laboratório. Além disso, segundo a coordenadora, diferentes estudos sobre o jejum em quadros de câncer dizem que os resultados são inconsistentes. “Não existe nada que possa realmente trazer uma clareza de evidência científica em relação a isso”, conclui.

Para a coordenadora do Sban, o mais importante é ter uma alimentação equilibrada. Foto: MONALISA LINS / AE

Considerações sobre o jejum intermitente

Na explicação de Natacci, o jejum intermitente é o estilo de dieta que alterna períodos de jejum com períodos de alimentação. É uma área que ainda está começando a ser estudada, enfatiza a coordenadora da Sban.

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O que se tem observado, segundo Natacci, é que quando a pessoa concentra mais a alimentação durante o dia, fazendo um café da manhã mais rico, um almoço médio e um jantar um pouco mais pobre em energia, há resultados melhores no que diz respeito a saciedade, diminuição de compostos inflamatórios e controle de glicemia e de colesterol.

“Então o que eu acho que a gente precisa deixar claro é que a gente precisa de mais trabalhos, para ter um pouco mais de certeza na prescrição e a gente precisa sempre adaptar à realidade de cada um”, pontua a coordenadora. “Não adianta a gente falar que a pessoa tem que comer mais durante o dia e menos à noite, quando ela trabalha à noite, por exemplo”.

Para Natacci, o mais importante é ter uma alimentação equilibrada, rica em vitaminas, minerais, fibras, compostos bioativos, além de aumentar a quantidade de frutas, legumes e verduras. “Com isso a gente aumenta as defesas do nosso organismo, a gente diminui a inflamação do nosso organismo e a gente pode ter melhores respostas em relação à saúde como um todo”, finaliza.

O conteúdo verificado aqui é um recorte do podcast “Toca o Sino Sacristão”, do dia 12 de junho de 2013. A pessoa que fala no vídeo é Julio Cesar Luchmann, que se apresenta no Instagram como fitoterapeuta clínico, neurocientista e doutorando em naturopatia. O Estadão Verifica não conseguiu contato com Luchmann até o fechamento da checagem.

Alegação semelhante atribuída ao nobelista Yoshinori Ohsumi também já foi desmentida pelo jornal português Público.

Como lidar com postagens do tipo: A coordenadora do Sban Lara Natacci lembra que é sempre importante adaptar a dieta à realidade de cada um. É recomendável consultar um profissional de saúde antes de adotar dicas da internet na rotina.

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