Vídeo falso altera fala de Bonner e imagens do JN para dizer que Bolsonaro lidera pesquisa Ipec

Na transmissão original do Jornal Nacional em 12 de setembro, levantamento indicou que Lula tem 46% das intenções de voto, contra 31% de Bolsonaro; conteúdo manipulado inverteu os porcentuais

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Por Clarissa Pacheco
Atualização:

A última pesquisa do Ipec para a Presidência da República exibida pelo Jornal Nacional no dia 12 de setembro de 2022 não mostra o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) com 46% das intenções de voto, contra 31% do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um vídeo que viralizou nas redes mostra falas adulteradas dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos, com os percentuais dos candidatos trocados. Na verdade, Lula tem 46% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Bolsonaro tem 31%. No segundo turno, o percentual registrado pela pesquisa é de 53% para Lula e 36% para Bolsonaro.

 Foto: Estadão

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Já nos primeiros segundos, é possível perceber uma falha no vídeo. Aos 15 segundos, há um 'salto' na voz quando o jornalista, supostamente, diz que Lula tem 31% das intenções de voto. É como se Bonner percebesse que iria errar o número e o corrigisse durante a fala, o que não ocorre no vídeo original, disponível na Globoplay. De acordo com Bruno Sartori, jornalista e pesquisador sobre deepfake -- mentira profunda, em tradução livre --, o vídeo passou por um edição simples em que a posição dos áudios foi invertida, chamada Shalowfake. "Basicamente, são edições simples tiradas de contexto para contar uma mentira", explica. Apesar de parecer, à primeira vista, não há sincronia labial com o áudio da fala de William Bonner.

No original, Bonner aparece falando: "O Ipec divulgou uma nova pesquisa contratada pela TV Globo sobre a intenção de voto para as eleições presidenciais. A disputa segue estável. Lula tem 46% e Jair Bolsonaro, 31% das intenções de voto. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos". O vídeo editado mantém as mesmas palavras, mas inverte os valores e a ordem. Bolsonaro é citado primeiro, como se tivesse 46% dos votos, e Lula em seguida, supostamente com 31%.

Na sequência, William Bonner sai da imagem e a tela é preenchida pelo gráfico que mostra a evolução dos números ao longo das últimas pesquisas Ipec. Neste trecho há mais uma adulteração no vídeo: no lugar dos dados referentes a Lula, aparece o nome de Bolsonaro, e vice-versa.

Gráfico da matéria original exibida em 12 de setembro de 2022. Imagem: Reprodução/Globoplay Foto: Estadão

Gráfico do vídeo editado com percentuais para o 1º turno invertidos. Imagem: Reprodução/Facebook Foto: Estadão

Mais adulterações

No vídeo original, após apresentar os percentuais de Lula e Bolsonaro, William Bonner segue narrando o gráfico com as intenções de voto para Ciro Gomes, do PDT (7%), Simone Tebet, do MDB (4%), Soraya Thronicke, do União Brasil (1%) e Felipe D'Ávila, do Novo (1%), além dos brancos e nulos (6%) e dos que não souberam ou não responderam (4%). Já fora do gráfico, a imagem de Bonner volta a aparecer na tela para afirmar que os candidatos Sofia Manzano (PCB), Vera Lúcia (PSTU), Constituinte Eymael (Democracia Cristã), Léo Péricles (Unidade Popular), e Padre Kelmon (PTB), não alcançaram 1% das intenções de votos.

O vídeo manipulado não mostra essa parte e corta a imagem e a fala de Bonner logo após aparecerem na tela os percentuais adulterados para Lula e Bolsonaro no 1º turno. Na sequência do vídeo editado, quem aparece na imagem é a jornalista Renata Vasconcellos, que já teve outro vídeo adulterado, também sobre dados de pesquisas eleitorais.

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Na transmissão original do Jornal Nacional, Renata diz: "O Ipec perguntou em quem os eleitores votariam num segundo turno entre Lula e Bolsonaro". A imagem da apresentadora é substituída por outro gráfico, que mostra uma variação de 51% de votos para Lula na pesquisa de 15 de agosto para 53% na pesquisa mais atual, de 12 de setembro. Já Bolsonaro oscila de 35% em 15 de agosto para 36% na pesquisa em questão.

Simulação com intenções de voto para o segundo turno no vídeo original: Lula tem 53%. Imagem: Reprodução/Globoplay Foto: Estadão

Mais uma vez, o vídeo adulterado inverte os números e também a narração de Renata Vasconcelos, afirmando que quem tem 53% das intenções de voto no segundo turno é Bolsonaro, contra 36% para Lula. Os dados são falsos.

Gráfico do vídeo adulterado também inverteu os percentuais do segundo turno. Imagem: Reprodução/Facebook Foto: Estadão

Aprovação do governo

Os dados sobre aprovação do governo também foram editados no vídeo e, desta vez, também é perceptível um salto na narração de William Bonner. No vídeo original, a pesquisa apontou que, em 12 de setembro, 30% dos brasileiros consideravam o governo de Jair Bolsonaro ótimo ou bom; 23% consideravam regular, 45% consideravam ruim ou péssimo e 2% não souberam responder.

Gráfico do vídeo original mostra que 45% avaliam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo. Imagem: Reprodução/Globoplay Foto: Estadão

O vídeo editado trocou os valores. O gráfico que aparece na tela diz que 45% dos brasileiros consideravam o governo ótimo ou bom; 30% consideravam regular e 23% consideravam ruim ou péssimo.

Gráfico adulterado mudou valores para tentar dizer que 45% dos brasileiros consideram o governo Bolsonaro ótimo ou bom. Imagem: Reprodução/Facebook Foto: Estadão

Por fim, foram adulterados os números e a fala de Renata Vasconcellos no último item apontado na pesquisa. No vídeo original, a jornalista diz: "O instituto perguntou se os brasileiros aprovam ou desaprovam a maneira como Jair Bolsonaro governa o País". A imagem de Renata sai da tela e entra o gráfico, que mostra que 59% dos brasileiros desaprovam a maneira de Jair Bolsonaro governar o País, enquanto 35% aprovam e 5% não souberam avaliar.

Pesquisa mostrou que 59% dos brasileiros desaprovam a forma de Bolsonaro governar. Imagem: Reprodução/Globoplay Foto: Estadão

Já o vídeo adulterado, como nos trechos anteriores, editou os dados para tentar melhorar a imagem de Bolsonaro. O gráfico foi mudado para parecer que o atual presidente é aprovado - e não reprovado - por 59% dos brasileiros e reprovado por apenas 35%.

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Vídeo editado trocou percentuais e mentiu ao dizer que 59% aprovam Bolsonaro. Imagem: Reprodução/Facebook Foto: Estadão

Ao final de ambos os vídeos, aparece o número de registro da pesquisa do Ipec junto ao TSE: BR-01390/2022. Ela está disponível no site do instituto com os valores verdadeiros.

O Fato ou Fake, do G1, portal de notícias da Globo, apontou o vídeo aqui investigado como fake news. No texto publicado nesta segunda-feira, 19, há uma nota do Ipec. O instituto confirmou que os números estão errados e diz ter denunciado o vídeo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério Público Eleitoral (MPE). O UOL Confere e a Agência Lupa também desmentiram esse conteúdo.


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