PUBLICIDADE

Postagem engana ao ligar Assembleia de Deus a pastor e frase racistas

Charles Fox Parham não é fundador das Assembleias de Deus; não há registro que ele tenha dito que não queria ser enterrado ao lado de um negro

Por Talita Burbulhan
Atualização:

O que estão compartilhando: que Charles Fox Parham fundou as Assembleias de Deus e que ele teria dito que quando morresse não queria ser enterrado ao lado de uma pessoa negra.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica explicaram que Parham não foi o fundador da Assembleia de Deus nos Estados Unidos, nem no Brasil. Ele dirigiu escolas bíblicas e criou o movimento Fé Apostólica, que influenciou diferentes grupos pentecostais. No entanto, o americano nunca esteve à frente de uma grande organização religiosa. Não foram encontrados registros que confirmem Parham como o autor da frase: “Quando eu morrer não me enterrem ao lado de um negro”. Apesar disso, os especialistas consultados confirmaram que Parham tinha posicionamentos racistas.

Não é verdade que Charles Fox Parham foi o fundador da Assembleia de Deus. Não foram encontrados registros de que ele tenha dito que não queria ser enterrado ao lado de uma pessoa negra Foto: Reprodução/Instagram

Saiba mais: Circula nas redes sociais uma imagem que tem uma foto do pastor Charles Fox Parham junto com a frase “Quando eu morrer não me enterrem ao lado de um negro”, supostamente de sua autoria. Em seguida, vem a informação de que ele foi o fundador das igrejas Assembleias de Deus.

Charles Fox Parham não fundou as Assembleias de Deus

PUBLICIDADE

Parham nasceu em 1873, na cidade de Muscatine, em Iowa, e morreu em 1929, em Baxter Springs, no Kansas. Ele fundou o movimento Fé Apostólica no início do século XX, mas foi afastado em 1907. As Assembleias de Deus só foram criadas anos mais tarde, em 1914, no estado americano do Arkansas. O movimento foi liderado pelo pastor E.N. Bell.

Magali Cunha, coordenadora do coletivo Bareia, que combate a desinformação que circula em ambientes religiosos, diz que o movimento Fé Apostólica tinha como doutrina o batismo no Espírito Santo e o falar em línguas. Esses aspectos foram abraçados por diferentes movimentos pentecostais.

O doutor em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Gedeon Freire de Alencar explica que Parham nunca teve ligação oficial com a Assembleia de Deus e que não há qualquer texto acadêmico que confirme ele como sendo o seu fundador. Inclusive, destaca o estudioso, Parham estava em uma região diferente dos Estados Unidos do local onde surgiu a Assembleia de Deus.

Autor da tese de doutorado “Assembleias Brasileiras de Deus. Teorização, História e Tipologia - 1911-2011″ e evangélico desde criança, Alencar conta que, dentro da Assembleia de Deus, Parham não ocupa lugar de destaque. A respeito dele, os fiéis aprendem sobre uma suposta manifestação sobrenatural do Espírito Santo que teria ocorrido dentro do Colégio Bíblico Betel, do qual ele era o diretor, na cidade de Topeka, nos Estados Unidos, em 1º de janeiro de 1901.

Publicidade

Esse episódio é tido como a origem do movimento pentecostal moderno nos Estados Unidos, de acordo com o professor do Centro de Educação, Filosofia e Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Ricardo Bitun.

Bitun conta que em 1914 um grupo de ministros brancos liderado pelo Pastor E.N. Bell reuniu-se em uma convenção na cidade de Hot Springs, no estado do Arkansas, e fundou as Assembleias de Deus.

Nessa época, Parham já tinha caído no ostracismo, como explica o professor de história e youtuber Jonathan Matthies. “As Assembleias de Deus surgiram como uma fusão de diversos movimentos pentecostais em 1914, dentre os quais, um destes, o Movimento da Fé Apostólica, foi realmente iniciado por Parham. No entanto, ainda em 1907 – antes mesmo da fundação das Assembleias de Deus –, Parham acabou afastado de seu movimento devido a escândalos envolvendo acusações de sodomia”.

Em resposta enviada ao Verifica por e-mail, a Assembleia de Deus dos Estados Unidos disse que a sua história pode ser conferida no site oficial. Na página enviada, não há qualquer menção a Charles Fox Parham.

O racismo de Charles Fox Parham

PUBLICIDADE

Nenhum dos especialistas ouvidos pelo Verifica teve contato com documentos que confirmam que Parham tenha sido o autor da frase “Quando eu morrer, não me enterrem ao lado de um negro”. Mas foi consenso entre eles que o pastor reproduzia o racismo do seu tempo, assim como outros pastores americanos.

O professor aposentado da Universidade de Birmingham Allan Anderson, autor do estudo O Legado Duvidoso de Charles Fox Parham: Racismo e insensibilidade cultural entre os pentecostais, disse desconhecer a frase. Mas acrescentou que não ficaria surpreso se o pastor realmente tivesse feito essa afirmação. “Parham tinha opiniões fortemente racistas”.

O doutor em Ciência da Religião Alencar conta que um dos alunos de Parham, o pastor William Seymour, assistia às aulas da escola bíblica no corredor, porque naquela época não era permitido a uma pessoa negra entrar dentro da sala de aula.

Publicidade

“Isso pode parecer muito absurdo para nós isso hoje, mas em 1910, ou até antes, isso era absolutamente ‘normal’, com muitas aspas nesse ‘normal’”, explica Alencar. “Ele não permitiu que o Seymour assistisse aula na sala de aula, junto com os demais”.

O professor da Mackenzie Bitun lembra que Parham era adepto de uma teoria racista: “Basicamente esta teoria entende que os povos anglo-saxões são os descendentes biológicos diretos das dez tribos de Israel que não retornaram à sua terra natal após o exílio assírio no século VIII A.C. Ainda que esta teoria não fosse declaradamente racista, vários grupos supremacistas brancos anglo-americanos defendiam a ideia”.

A Assembleia de Deus no Brasil

No Brasil, a Assembleia de Deus surgiu em 1911, por intermédio dos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. “Eles passam pelos Estados Unidos, aprendem da experiência de lá e vêm para a cidade de Belém do Pará como missionários”, explica Magali Cunha, do coletivo Bereia. Ela nega que a dupla tenha tido contato direto com Parham, apesar de serem contemporâneos e terem sido influenciados pela doutrina dele.

Alencar destaca que, diferentemente dos Estados Unidos, onde a Assembleia de Deus começou como um movimento de pessoas brancas e somente décadas depois se torna multicultural, aqui ela teve participação de pessoas negras desde o início.

Ele chama a atenção para uma foto da primeira convenção geral das igrejas evangélicas Assembleia de Deus do Brasil, realizada em Natal, no ano de 1930. “Lá estão os oito suecos brancos, europeus brancos, mas os demais são negros”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.