Trump promete tratamento justo a todos em acordo sobre Gaza
Presidente celebra liberação de reféns e fala em “dia especial”, em publicação na rede social. Crédito: @realdonaldtrump/Truth Social/AFP
Gerando resumo
Dois anos depois do início de uma guerra sangrenta que deixou traumas profundos na sociedade israelense e palestina, o plano de paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a maior esperança para o fim das hostilidades. Essa é a opinião de analistas entrevistados pelo Estadão, que ressaltaram que a pressão de Trump junto a uma coalizão de países da região foi determinante para garantir a assinatura do cessar-fogo e um caminho viável para o encerramento da guerra.
O acordo de trégua, anunciado na noite de quarta-feira, 8, irá garantir o retorno de todos os reféns israelenses e a retirada parcial do Exército de Israel da Faixa de Gaza. Já o Hamas vai receber centenas de prisioneiros palestinos e um aumento no fluxo de ajuda humanitária.
Depois da chamada “primeira fase” do plano de Trump, o resto fica mais difícil. As diretrizes do republicano indicam o desarmamento do Hamas, a criação de um comitê tecnocrático para a Faixa de Gaza e uma revitalização da Autoridade Palestina (AP). Mas o Hamas não deve concordar em se desarmar totalmente e não está claro como a Autoridade Palestina, que controla apenas partes fragmentadas da Cisjordânia, conseguiria governar o território palestino.

Já o governo Netanyahu sinalizou que só irá concordar com o fim da guerra com o desarmamento do Hamas, mas pode ser forçado por Trump a aceitar o encerramento do conflito. Se a guerra de fato acabar, o primeiro-ministro terá que prestar contas sobre os graves erros que levaram às falhas de segurança durante os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 e terá que convocar novas eleições até outubro do ano que vem.
“A guerra deve acabar. O Hamas jamais aceitaria libertar os reféns israelenses sem garantias claras de que Israel não vai atacá-los depois disso”, avalia João Koatz Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel-Aviv. “Trump garantiu a seus aliados árabes que iria segurar Netanyahu, enquanto eles asseguraram que o Hamas vai cumprir sua parte do acordo”.
Pressão de Trump
A pressão do presidente americano foi essencial para forçar o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a concordar com um cessar-fogo e negociar o fim da guerra.
O republicano já vinha se irritando com as atitudes de Israel, mas só exerceu a sua influência sobre Tel-Aviv após o bombardeio de Tel-Aviv em Doha, no Catar, no mês passado, que tinha o objetivo de assassinar membros do escritório político do Hamas.
O bombardeio deu errado e a situação irritou Trump e os países árabes do Golfo. Doha abriga a maior base militar americana no Oriente Médio e tem fortes laços comerciais e de segurança com Washington. O Catar conseguiu um pedido de desculpas de Netanyahu e garantias do republicano de que Doha não seria mais atacada.

O episódio alavancou uma coalizão de nações árabes para a realização de um lobby para o fim da guerra. Trump concordou e parece disposto a pressionar Netanyahu a ir até o fim.
“A percepção de que não é possível confiar em Netanyahu foi um dos motivos desse movimento mais forte pelo fim da guerra”, avalia Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para o analista, o discurso esvaziado de Netanyahu na Assembleia-Geral da ONU e o crescente isolamento de Israel na arena internacional também motivaram a mudança de postura de Trump. “O presidente americano tem uma relação profunda com a estética. Trump percebeu que pouca gente ouviu o discurso de Netanyahu e a reação dos que ficaram não foi positiva. Na perspectiva de Trump, Netanyahu é um perdedor”.

Hamas garante fim da guerra
Mesmo sem o avanço das próximas fases do plano de paz, o Hamas anunciou o fim da guerra com Israel e disse que teve garantias americanas de que Tel-Aviv vai se retirar totalmente da Faixa de Gaza e irá concordar com um cessar-fogo permanente.
“Agimos com responsabilidade em relação ao plano de Trump”, disse Khalil al-Hayya, o chefe do gabinete político do Hamas. “Hoje anunciamos um acordo para encerrar a guerra, ver Israel retirar-se da Faixa de Gaza e realizar uma troca de prisioneiros.” E acrescentou: “Recebemos garantias dos mediadores e dos americanos de que a guerra terminou por tempo indeterminado”.
O grupo terrorista havia dito no passado que estava disposto a libertar todos os reféns em troca da retirada completa das forças militares israelenses de Gaza, do fim permanente da guerra e da libertação dos prisioneiros palestinos. O acordo firmado nesta quinta-feira garante apenas uma dessas três coisas: a libertação dos prisioneiros.

Por isso, existe o receio de que Netanyahu não respeite a tregua e continue com a guerra em Gaza após a libertação dos reféns. Mas, segundo Gherman, o primeiro-ministro está muito isolado politicamente para boicotar o acordo. “Netanyahu tem poucas condições de continuar essa guerra. Ele pode encontrar as justificativas mais bizarras para continuar, mas ele não tem força”.
Próximas fases do acordo
Os próximos passos do plano de Trump ainda são incertos. Depois de garantir o cessar-fogo, o republicano afirmou que a fase seguinte da negociação deve demorar mais para ser concluída e não está totalmente esquematizada. Ao ser perguntado por jornalistas nesta quinta-feira, 9, ele alegou que a libertação dos reféns era a questão mais urgente e o resto será discutido depois.
“As pessoas queriam isso mais do que qualquer coisa. Depois disso, vamos ver”. apontou o presidente americano.
Dentre as questões que precisam ser discutidas está o desarmamento do Hamas e o futuro da Autoridade Palestina. O grupo terrorista sinalizou que poderia desistir parcialmente de suas armas, mas analistas apontaram que o Hamas não deve concordar com um desarmamento total e vai querer participar da governança de Gaza de alguma forma.

“Não consigo visualizar o Hamas abdicando do poder político na Faixa de Gaza e de seu braço armado”, aponta Miragaya, do Instituto Brasil-Israel. “Eles podem aceitar o desarmamento, mas sem que esse processo ocorra de fato”. O analista citou a possibilidade de membros do Hamas participarem da polícia de Gaza em um governo comandado por tecnocratas no território palestino.
Já a Autoridade Palestina precisaria passar por reformas para governar Gaza, de acordo com o plano de Trump e a iniciativa franco-saudita para a paz em Gaza. Em entrevista ao Canal 12 de Israel, o presidente da AP, Mahmoud Abbas, disse que a entidade palestina está em contato com os Estados Unidos para a realização dessas mudanças, que incluem a realização de eleições e mudanças no setor econômico.
Pós-guerra
Para o governo de Binyamin Netanyahu, o fim da guerra poderia significar a convocação de novas eleições em Israel e uma série de inquéritos sobre os ataques de 7 de outubro de 2023.
Analistas indicam que o futuro político de Netanyahu não está necessariamente acabado, já que o primeiro-ministro tentará classificar a guerra em Gaza como uma vitória política, assim como o redesenho feito no Oriente Médio por conta dos conflitos contra o Irã e a milícia xiita radical libanesa Hezbollah.
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“Netanyahu vai tentar unificar o país com uma mensagem pós-guerra, mas ele não deve conseguir unir Israel”, aponta Miragaya. O analista diz que o primeiro-ministro poderia vencer as próximas eleições com um discurso polarizador. “Netanyahu pode dividir o país ainda mais e vencer as eleições com uma pequena maioria”.
Gherman diz que o fim do conflito irá indicar um acerto de contas da população israelense com as autoridades por conta dos ataques do Hamas. “Os israelenses irão pressionar para que Netanyahu assuma a responsabilidade, mas o primeiro-ministro segue dizendo até hoje que a culpa não foi dele”.








