Acordo Israel Hamas pode mesmo acabar com a guerra dessa vez? Analistas respondem

A pressão de Trump foi essencial para forçar o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a concordar com um cessar-fogo e negociar o fim da guerra

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Foto do autor Daniel Gateno

Trump promete tratamento justo a todos em acordo sobre Gaza

Presidente celebra liberação de reféns e fala em “dia especial”, em publicação na rede social. Crédito: @realdonaldtrump/Truth Social/AFP

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Dois anos depois do início de uma guerra sangrenta que deixou traumas profundos na sociedade israelense e palestina, o plano de paz do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a maior esperança para o fim das hostilidades. Essa é a opinião de analistas entrevistados pelo Estadão, que ressaltaram que a pressão de Trump junto a uma coalizão de países da região foi determinante para garantir a assinatura do cessar-fogo e um caminho viável para o encerramento da guerra.

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O acordo de trégua, anunciado na noite de quarta-feira, 8, irá garantir o retorno de todos os reféns israelenses e a retirada parcial do Exército de Israel da Faixa de Gaza. Já o Hamas vai receber centenas de prisioneiros palestinos e um aumento no fluxo de ajuda humanitária.

Depois da chamada “primeira fase” do plano de Trump, o resto fica mais difícil. As diretrizes do republicano indicam o desarmamento do Hamas, a criação de um comitê tecnocrático para a Faixa de Gaza e uma revitalização da Autoridade Palestina (AP). Mas o Hamas não deve concordar em se desarmar totalmente e não está claro como a Autoridade Palestina, que controla apenas partes fragmentadas da Cisjordânia, conseguiria governar o território palestino.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Washington Foto: Alex Brandon/AP

Já o governo Netanyahu sinalizou que só irá concordar com o fim da guerra com o desarmamento do Hamas, mas pode ser forçado por Trump a aceitar o encerramento do conflito. Se a guerra de fato acabar, o primeiro-ministro terá que prestar contas sobre os graves erros que levaram às falhas de segurança durante os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 e terá que convocar novas eleições até outubro do ano que vem.

“A guerra deve acabar. O Hamas jamais aceitaria libertar os reféns israelenses sem garantias claras de que Israel não vai atacá-los depois disso”, avalia João Koatz Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel-Aviv. “Trump garantiu a seus aliados árabes que iria segurar Netanyahu, enquanto eles asseguraram que o Hamas vai cumprir sua parte do acordo”.

Pressão de Trump

A pressão do presidente americano foi essencial para forçar o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a concordar com um cessar-fogo e negociar o fim da guerra.

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O republicano já vinha se irritando com as atitudes de Israel, mas só exerceu a sua influência sobre Tel-Aviv após o bombardeio de Tel-Aviv em Doha, no Catar, no mês passado, que tinha o objetivo de assassinar membros do escritório político do Hamas.

O bombardeio deu errado e a situação irritou Trump e os países árabes do Golfo. Doha abriga a maior base militar americana no Oriente Médio e tem fortes laços comerciais e de segurança com Washington. O Catar conseguiu um pedido de desculpas de Netanyahu e garantias do republicano de que Doha não seria mais atacada.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião com líderes árabes em Nova York Foto: Chip Somodevilla/AFP

O episódio alavancou uma coalizão de nações árabes para a realização de um lobby para o fim da guerra. Trump concordou e parece disposto a pressionar Netanyahu a ir até o fim.

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“A percepção de que não é possível confiar em Netanyahu foi um dos motivos desse movimento mais forte pelo fim da guerra”, avalia Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para o analista, o discurso esvaziado de Netanyahu na Assembleia-Geral da ONU e o crescente isolamento de Israel na arena internacional também motivaram a mudança de postura de Trump. “O presidente americano tem uma relação profunda com a estética. Trump percebeu que pouca gente ouviu o discurso de Netanyahu e a reação dos que ficaram não foi positiva. Na perspectiva de Trump, Netanyahu é um perdedor”.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, discursa na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York Foto: Timothy A. Clary/AFP

Hamas garante fim da guerra

Mesmo sem o avanço das próximas fases do plano de paz, o Hamas anunciou o fim da guerra com Israel e disse que teve garantias americanas de que Tel-Aviv vai se retirar totalmente da Faixa de Gaza e irá concordar com um cessar-fogo permanente.

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“Agimos com responsabilidade em relação ao plano de Trump”, disse Khalil al-Hayya, o chefe do gabinete político do Hamas. “Hoje anunciamos um acordo para encerrar a guerra, ver Israel retirar-se da Faixa de Gaza e realizar uma troca de prisioneiros.” E acrescentou: “Recebemos garantias dos mediadores e dos americanos de que a guerra terminou por tempo indeterminado”.

O grupo terrorista havia dito no passado que estava disposto a libertar todos os reféns em troca da retirada completa das forças militares israelenses de Gaza, do fim permanente da guerra e da libertação dos prisioneiros palestinos. O acordo firmado nesta quinta-feira garante apenas uma dessas três coisas: a libertação dos prisioneiros.

Crianças palestinas inspecionam escombros depois de um bombardeio israelense, na Cidade de Gaza Foto: Omar Al-Qattaa/AFP

Por isso, existe o receio de que Netanyahu não respeite a tregua e continue com a guerra em Gaza após a libertação dos reféns. Mas, segundo Gherman, o primeiro-ministro está muito isolado politicamente para boicotar o acordo. “Netanyahu tem poucas condições de continuar essa guerra. Ele pode encontrar as justificativas mais bizarras para continuar, mas ele não tem força”.

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Próximas fases do acordo

Os próximos passos do plano de Trump ainda são incertos. Depois de garantir o cessar-fogo, o republicano afirmou que a fase seguinte da negociação deve demorar mais para ser concluída e não está totalmente esquematizada. Ao ser perguntado por jornalistas nesta quinta-feira, 9, ele alegou que a libertação dos reféns era a questão mais urgente e o resto será discutido depois.

“As pessoas queriam isso mais do que qualquer coisa. Depois disso, vamos ver”. apontou o presidente americano.

Dentre as questões que precisam ser discutidas está o desarmamento do Hamas e o futuro da Autoridade Palestina. O grupo terrorista sinalizou que poderia desistir parcialmente de suas armas, mas analistas apontaram que o Hamas não deve concordar com um desarmamento total e vai querer participar da governança de Gaza de alguma forma.

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O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, discursa na Assembleia-Geral da ONU Foto: Richard Drew/ AP

“Não consigo visualizar o Hamas abdicando do poder político na Faixa de Gaza e de seu braço armado”, aponta Miragaya, do Instituto Brasil-Israel. “Eles podem aceitar o desarmamento, mas sem que esse processo ocorra de fato”. O analista citou a possibilidade de membros do Hamas participarem da polícia de Gaza em um governo comandado por tecnocratas no território palestino.

Já a Autoridade Palestina precisaria passar por reformas para governar Gaza, de acordo com o plano de Trump e a iniciativa franco-saudita para a paz em Gaza. Em entrevista ao Canal 12 de Israel, o presidente da AP, Mahmoud Abbas, disse que a entidade palestina está em contato com os Estados Unidos para a realização dessas mudanças, que incluem a realização de eleições e mudanças no setor econômico.

Pós-guerra

Para o governo de Binyamin Netanyahu, o fim da guerra poderia significar a convocação de novas eleições em Israel e uma série de inquéritos sobre os ataques de 7 de outubro de 2023.

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Analistas indicam que o futuro político de Netanyahu não está necessariamente acabado, já que o primeiro-ministro tentará classificar a guerra em Gaza como uma vitória política, assim como o redesenho feito no Oriente Médio por conta dos conflitos contra o Irã e a milícia xiita radical libanesa Hezbollah.

“Netanyahu vai tentar unificar o país com uma mensagem pós-guerra, mas ele não deve conseguir unir Israel”, aponta Miragaya. O analista diz que o primeiro-ministro poderia vencer as próximas eleições com um discurso polarizador. “Netanyahu pode dividir o país ainda mais e vencer as eleições com uma pequena maioria”.

Gherman diz que o fim do conflito irá indicar um acerto de contas da população israelense com as autoridades por conta dos ataques do Hamas. “Os israelenses irão pressionar para que Netanyahu assuma a responsabilidade, mas o primeiro-ministro segue dizendo até hoje que a culpa não foi dele”.

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