Trump promete tratamento justo a todos em acordo sobre Gaza
Presidente celebra liberação de reféns e fala em “dia especial”, em publicação na rede social. Crédito: @realdonaldtrump/Truth Social/AFP
Gerando resumo
O dia 7 de outubro de 2023 ficará para sempre na memória de israelenses e palestinos. Naquela manhã de sábado, terroristas do Hamas invadiram o sul de Israel, mataram 1,2 mil pessoas e sequestraram 250. Tel-Aviv respondeu com força, em uma guerra que ainda não acabou, e deixou 67 mil mortos e a Faixa de Gaza em escombros.
Dois anos depois, delegações de Israel e do grupo terrorista Hamas estão reunidas no Egito e discutem o fim do conflito. O momento requer cautela e as negociações podem ser encerradas a qualquer momento, já que existem muitas lacunas entre as demandas dos dois adversários.
O fim da guerra é apoiado pela comunidade internacional, que se juntou para amparar o plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o fim do conflito. A maioria dos palestinos e israelenses também querem o encerramento da guerra.

Em Gaza, uma epidemia de fome se alastrou dentro do território e os palestinos enfrentaram constantes deslocamentos nos últimos dois anos. Atualmente, o Exército de Israel está na Cidade de Gaza, em uma complexa operação para “destruir os redutos do Hamas”.
Já em Israel, a pressão pelo encerramento do conflito também é imensa, já que os cidadãos querem a volta dos 48 reféns que seguem no território palestino, estão cansados de viverem em meio a uma guerra de sete frentes e sentem na pele as consequências do conflito, com ataques antissemitas na Europa e nos Estados Unidos e um crescente isolamento internacional.
Trump disse que deseja completar a “primeira fase” do acordo até o fim da semana. Esta fase seria composta pela libertação dos reféns israelenses em troca de prisioneiros palestinos e uma retirada parcial do Exército israelense de algumas regiões de Gaza.

Em fases posteriores do plano, os dois lados teriam que negociar um possível desarmamento do Hamas, a retirada israelense de Gaza e a governança do território palestino.
“Eu tenho medo de ser otimista sobre esse plano”, avalia o professor de ciências políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém, Yuval Benziman. “Difícil acreditar que Israel vai aceitar a Autoridade Palestina em Gaza em fases futuras do plano e um Estado palestino parece improvável”.
Apesar disso, Benziman indica que se a primeira fase do plano for concluída, seria uma “grande vitória para a sociedade israelense”.
Negociações
As negociações em Sharm el-Sheikh, no Egito, estão focadas na troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos. Israel quer a volta dos sequestrados em uma leva e irá libertar 250 prisioneiros que estão servindo penas de prisão perpétua, assim como 1.700 palestinos de Gaza que foram presos por Israel durante o conflito.
Cerca de 48 reféns seguem em Gaza, mas apenas 20 são considerados vivos. Pelo acordo, Israel também libertaria os restos mortais de 15 palestinos de Gaza por cada corpo de refém.

De acordo com fontes do Canal 12, de Israel, o Hamas está exigindo a libertação de importantes líderes palestinos, como Marwan Barghouti, que cumpre cinco penas de prisão perpétua por sua participação no planejamento de três ataques terroristas que mataram cinco israelenses durante a Segunda Intifada, e Ahmad Sa’adat, líder da Frente Popular Marxista-Leninista para a Libertação da Palestina (FPLP), que foi condenado em 2008 a 30 anos de prisão por planejar o assassinato do ministro do turismo israelense Rehavam Ze’evi em 2001.
Mas os dois lados sinalizam desconfiança. O Hamas não quer libertar os reféns israelenses sem garantir que o Exército de Israel vai se retirar de Gaza e não voltará a invadir o território palestino.
“O Hamas não é estupido. Eles surpreenderam Israel em 7 de outubro de 2023 e provaram que eles nos entendem mais do que nós entendemos eles”, avalia Michael Milshtein, chefe do Fórum de Estudos Palestinos no Centro Moshe Dayan de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Tel-Aviv. “Eles não vão devolver os reféns sem garantias de Trump. Os sequestrados são sua única forma de barganha”.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que 90% da negociação já foi feita, em entrevista à emissora americana ABC. A Casa Branca tem urgência para fechar o acordo e despachou o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e o genro do presidente americano, Jared Kushner, para o Egito.

Plano de Trump
Depois da primeira fase do plano, as diretrizes de Trump ficam mais complicadas de serem concluídas. O documento do presidente americano prevê o desarmamento do Hamas e a criação de um comitê tecnocrático que governaria Gaza até que a Autoridade Palestina, que governa partes da Cisjordânia, seja revitalizada.
O plano de 20 pontos foi divulgado na semana passada, em uma entrevista coletiva do republicano ao lado do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. Os dois líderes ameaçaram o Hamas e disseram que essa seria a última chance do grupo de aceitar um acordo que poderia garantir o exílio dos oficiais do grupo terrorista.
A resposta do Hamas na última sexta-feira, 3, deu sinais mistos. O grupo terrorista afirmou que aceitou alguns elementos do plano de paz, como a renúncia ao poder e a libertação de todos os reféns restantes, mas não mencionou o desarmamento.
Apesar disso, Trump aceitou a resposta do grupo e pediu que as negociações começassem imediatamente. A reação do presidente americano, que chegou a publicar uma foto do comunicado do Hamas na rede social Truth Social, deixou os israelenses apreensivos.

De acordo com uma reportagem do portal americano Axios, Trump conversou com Netanyahu após o comunicado do Hamas na sexta-feira. O primeiro-ministro israelense disse que a resposta do Hamas não tinha nenhum significado e Trump apontou que o líder israelense era muito “negativo”. O republicano negou posteriormente que essa conversa aconteceu.
Para Milshtein, a mudança de postura do presidente americano está relacionada com o Prêmio Nobel da Paz, que terá o vencedor anunciado no dia 10 de outubro, e a influência do Catar nas negociações. “A mudança não foi uma coincidência. Não foi mágica. Foi resultado da pressão do Catar sobre Donald Trump. Existem muitas questões envolvendo negócios e investimentos entre Doha e Washington”.
A postura de Trump colocou em dúvida a exigência do desarmamento do Hamas para o fim da guerra. “Se Donald Trump disser algo a Netanyahu, ele vai ouvir e obedecer. Foi o que aconteceu no cessar-fogo do início do ano e pode acontecer agora. A minha esperança neste acordo é Donald Trump”.

O analista também aponta para os bombardeios israelenses em Doha no mês passado como um fator que mudou a dinâmica da relação de Washington e Tel-Aviv. Israel tentou matar oficiais do Hamas dentro do território do Catar, um país que abriga a maior base militar americana na região. A atitude abriu caminho para que países do Golfo questionassem a relação com os Estados Unidos e as garantias de segurança de Washington.
Trump fez Netanyahu se desculpar com as autoridades do Catar e usou o momento para pressionar Tel-Aviv a aceitar a proposta de paz.
Israelenses querem fim da guerra
A maioria dos israelenses deseja o fim da guerra e a volta dos reféns. Eles avaliam que Netanyahu não fez o suficiente pelo retorno dos sequestrados e que a ofensiva israelense na Cidade de Gaza coloca os reféns em perigo e prejudica as negociações.
Por isso, os manifestantes têm pedido o fim da guerra diretamente a Donald Trump, em declarações com elogios ao republicano e petições para que o Prêmio Nobel da Paz seja dado a ele. A iniciativa deu certo, já que Trump mencionou diretamente as manifestações e publicou fotos dos manifestantes.
“Durante os dois anos de guerra, Netanyahu disse que as manifestações estavam prejudicando o país no conflito contra o Hamas, mas as declarações de Trump mostram que os pedidos de ajuda contribuíram pela causa dos reféns”, aponta Benziman, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

O primeiro-ministro teme que sua coalizão seja desfeita com o acordo para o fim da guerra, mas por enquanto conseguiu manter os ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich no governo. Esses dois ministros defendem a expulsão dos palestinos de Gaza e o retorno dos assentamentos israelenses no território. O líder da oposição de Israel, Yair Lapid, já afirmou que apoiaria a manutenção de Netanyahu no poder para que o acordo para o fim da guerra seja costurado.
As próximas eleições em Israel estão marcadas para outubro do ano que vem, mas podem ocorrer antes disso se o governo cair ou se Netanyahu convocar novas eleições. “Quando os reféns voltarem, a população israelense irá pedir um inquérito nacional para investigar todas as falhas que levaram a esta guerra e isso deve pressionar o governo Netanyahu”, aponta o cientista político brasileiro-israelense Eitan Gottfried.
Para ele, o fim da guerra é necessário para o início de um processo de reconstrução de confiança com o Exército e o governo. “Israel precisa reorganizar os seus princípios de segurança e deve se preparar para os próximos desafios econômicos, sociais e políticos que virão nos próximos anos”.
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Palestinos
Os palestinos de Gaza também desejam o fim do conflito que deixou mais de 67 mil mortos no território palestino em dois anos de guerra, segundo dados do ministério da Saúde de Gaza, que é controlado pelo Hamas.
Eles acreditam que o grupo terrorista deve aceitar a proposta de Donald Trump e se desarmar, para que a Faixa de Gaza possa viver dias melhores, sob o comando de uma entidade tecnocrata e, posteriormente, da Autoridade Palestina.
Mas o Hamas não vai acabar e não deve se desarmar, segundo Milshtein, que é especialista em estudos palestinos e mantém contatos com líderes do Hamas e da Autoridade Palestina.

“É muito difícil que eles desistam das armas. O nome do Hamas em árabe é Harakat al-Muqawama al-Islamiya, o Movimento de Resistência Islâmica. Para eles, se tirar a questão da resistência, é como tirar o coração de um corpo humano”, aponta Milshtein.
O especialista diz que o Hamas é muito paciente e tem uma estratégia de longo prazo para retornar ao poder.“Eles entenderam que, agora, precisam transmitir uma imagem pacífica, mas, no longo prazo, eles querem competir pela liderança da Autoridade Palestina”.
O plano de Trump indica que a criação de um Estado palestino é possível no futuro, caso todas as diretrizes sejam bem sucedidas, mas existem muitos obstáculos, como o governo Netanyahu, que é contra um Estado palestino, e o panorama político palestino, de acordo com Milshtein.
“É muito ingênuo pensar em dois Estados nesse momento .Os palestinos não conseguem. A Autoridade Palestina não consegue nem administrar a Cisjordânia. Eles precisam de novas lideranças, com posições mais flexíveis”, opina o analista.
Para Benziman, da Universidade Hebraica de Jerusalém, grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica irão perder apoio quando um plano com um futuro melhor para os palestinos for apresentado. “Até que isso aconteça, o terrorismo continuará e a violência não vai acabar”.








